Outubro de 1999 -  Executiva

Ganhar uma carreira sem perder a família

 

Não precisa de abdicar da sua carreira. Profissão e família podem até casar muito bem. Ponha os olhos nestes casos de pessoas que levaram o casamentoa bom porto, sem perderem o pé nas empresas

Por Michael Warshaw

Futebol de 11. É assim que Roberto Carneiro e Maria do Rosário definem a sua família. Esta equipa joga as alegrias e as tristezas sem nunca deixar ninguém fora de jogo. Uma família unida, que resistiu às tempestades no tempo em que Roberto Carneiro foi ministro da Educação. «Nem todos os professores reagiram bem às mudanças. Os nossos filhos sofreram represálias», conta, sem mágoa, Maria do Rosário. Injustiças reveladas apenas à mãe. O pai, esse, só anos mais tarde soube do que acontecera. «Foram quatro anos e meio de grande descrição de parte a parte. Cada um resolvia os problemas no seu íntimo. Foi um período de grande aprendizagem», define o ex-ministro. Uma prova de que conciliar carreira e família mantendo a união é possível, «desde que exista muita serenidade», como ensina Maria do Rosário.
Conheceram-se ainda na universidade. Roberto Carneiro era director do jornal universitário
O Tempo e Maria do Rosário iria colaborar numa pesquisa sobre residências universitárias. Trocaram as primeiras palavras numa reunião. Mas a opinião de Maria do Rosário acerca dele não foi abonatória: «Só sabia dar ordens», relembra, a rir. Porém, o ditado «Quem desdenha quer comprar!» cumpriu-se, e em Julho de 1973 deram o nó.
Durante o namoro, nas idas à ópera ao S. Carlos e à Gulbenkian, planearam a casa e os filhos. Quinze, sonhavam. «Uma equipa de râguebi», dizem, em coro. Mas a Natureza ditou que ficariam pelos nove. Mesmo assim é obra! «Gerir uma casa destas é quase uma pós-graduação em Gestão de Recursos Humanos», comparam, a brincar.
«Cada caso é um caso. É preciso ter sensibilidade para entender os problemas e as necessidades de cada um.» Roberto Carneiro admira a capacidade da mulher tratar cada filho como um filho único. «Durante a semana existem espaços privados para cada um. Vão com a mãe almoçar, às compras, ao cinema, enfim, têm todas as atenções», conta, orgulhoso. Uma tarefa hercúlea, que a obriga a dividir-se. Mas Maria do Rosário fá-lo com amor. Ainda se lembra quando saía à rua, numa só manhã, mais de 14 vezes. «Primeiro levava um à ginástica, depois outro à música, outro ao ballet», enumera. Um detalhe: este casal, durante anos, dormia apenas cerca de cinco horas por noite. «Com nove crianças era impossível manter um ritmo de vida tranquilo. Havia sempre um que estava doente, outro que chorava...» Só depois das 11 da noite tinham algum tempo um para o outro. A professora universitária relembra que aproveitava algumas viagens que fazia com o marido na época em que este era ministro para dormir. «Era o sono dos justos. Sabia-me a férias», descreve.
No início do casamento, Maria do Rosário sentiu na pele a dificuldade de conciliar a vida profissional e a família. O dinheiro não chegava para tudo. «Acumulei dois empregos. Dava aulas na universidade e trabalhava como técnica superior no Ministério da Educação. Era duro», relembra. As tarefas eram divididas: enquanto um dava banho aos meninos, o outro cozinhava. Depois a vida melhorou e Maria do Rosário ficou apenas num emprego. Durante muito tempo trabalhou só de manhã. À tarde exercia a sua função predilecta: a maternidade. Até porque Roberto Carneiro viajava cerca de quatro a cinco meses por ano e os filhos precisavam da mãe presente. Ambos fora de casa seria, no mínimo, desastroso.

Quando o tempo voa
O grande dilema das sociedades modernas é que o tempo para estar com os filhos tornou-se num bem escasso. Uma realidade difícil de aceitar, que acaba por criar nos pais uma sensação de remorso. Um peso na consciência por não darem às crianças tudo o que elas precisam e o receio de serem ultrapassados pelos educadores, professores ou empregadas, que acabam por conhecer melhor os filhos do que eles próprios. Mas renunciar a uma carreira para cuidar dos filhos introduziria no clã familiar outros sentimentos, como a frustração. Daí que se defenda o tempo de qualidade. Ou seja, como afirma Benjamin Spock, um dos gurus da pediatria: «É preferível brincar com o filho durante 15 minutos agradáveis e depois dizer-lhe: "Agora vou ler o jornal", do que estar um dia inteiro com ele contrariado.»
Quanto a esta questão, Roberto Carneiro é peremptório: «É preciso ter tempo para os filhos. Cultivar uma relação de qualidade. Olhar para eles. Ouvi-los. Perguntar como correu o dia. Por isso, a hora de jantar é sagrada. É uma das únicas regras que, quando quebrada, origina discussão.» Por falar em regras: só com grande disciplina se evitou que o lar se transformasse num quartel sem rei nem roque. Adepto da liberdade, as regras, para este casal, são, contudo, essenciais. «Um lar sem regras não dá segurança aos filhos. É importante cada um saber qual é o seu papel no grupo», defende Roberto Carneiro.

Só se sobrevive com ajudas
Muito disciplinada, Maria José Amich, directora de marketing e vendas da Kellogg’s, tenta entrar sempre às nove da manhã, fazer um almoço de 20 minutos e sair por volta das sete, mas nem sempre o consegue. Há dias em que as 24 horas são escassas. E a disciplina é quebrada. Maria José tem uma filha de três anos e está grávida de cinco meses. A opção de ter outro filho colocou-a entre a espada e a parede. Se não tivesse encontrado quem a ajudasse, teria de deixar de trabalhar. «Arranjar alguém para cuidar dos filhos é uma árdua tarefa. Quase inglória», desabafa. Com a instituição «avó» em decadência, os pais têm de procurar outros apoios. A Maria José Amich, a solução saiu-lhe dispendiosa. «Contratei um casal que está 24 horas em minha casa. Só assim consigo ter a cabeça liberta», diz.
Maria José sabe que o grande problema dos casais executivos são os horários. Nem sempre se consegue sair às sete e as empregadas não ficam à espera nem gostam de trabalhar à noite. «O drama é que a oferta é escassa e nem sempre acessível a todas as bolsas. As creches funcionam em horários desajustados do ritmo de vida actual», considera. A opção foi inscrever a filha na Escola Alemã. «Agora, com apoio, tudo será mais fácil», constata, aliviada.
Desde os 21 anos que Maria José tem a sua independência. Ficar sem trabalhar era para esta executiva um bicho de sete cabeças. «Adoro o meu trabalho. Não seria feliz se ficasse apenas a cuidar dos filhos», admite, sem preconceitos.
Espanhola de nacionalidade, saiu de casa aos 13 anos rumo ao internato na Escócia. Licenciou-se em Económicas na Universidade de Genebra e aos 21 anos foi trabalhar para Copenhaga, regressando a Espanha apenas aos 22 anos para fazer um MBA. Ingressou na Ogilvy & Mather a convite de um professor, a sua primeira experiência em marketing. Passado ano e meio, em Barcelona, entrou na António Puig, empresa líder no sector de higiene pessoal, como responsável de marketing internacional. Tinha como função abrir novos mercados noutros países, o que lhe permitiu correr mundo.
Numa viagem a Madrid, o seu coração ficou aprisionado. E pela primeira vez na vida abandonou tudo por uma decisão emocional. Pegou nas malas, enviou um currículo e ancorou-se em Lisboa. «Na altura foi duro», relembra. Hoje, passados quatro anos, sabe que fez a opção certa.

Juntos também na empresa
Quem também se mudou de armas e bagagens para Portugal, em 1990, foi Manuel dos Santos, director-geral da Hewlett Packard (HP). Na altura, os filhos tinham 9 e 14 anos. Para eles a adaptação foi fácil, quem sofreu mais foi a mulher.
Habituada às grandes avenidas e hipermercados da África do Sul, as ruelas estreitas e as mercearias do bairro foram um choque. Mas o que realmente a marcou foi deixar de trabalhar. A sua família vive no Norte e os amigos estavam a milhares de quilómetros de distância. Mudar para Portugal foi uma opção que a deixou muito solitária. A vida desta família deu uma volta de 180º. No entanto, passada a tempestade vem a bonança. Hoje sentem-se felizes e sair de Portugal é um tema fora de questão.
«Em Portugal trabalha-se 12 horas diárias. Na África do Sul saía às quatro horas, jantávamos e ainda tínhamos tempo para visitar os amigos. A palavra certa é: “qualidade de vida”», conta Manuel dos Santos. Em Portugal não existe tanto convívio. Cada um fecha-se no seu casulo.
O que não mudou para Manuel dos Santos foi a paixão pela HP. Fala da empresa com um brilho nos olhos. Como prova temos a sua vinda para Portugal. Quando a holding fechou as portas na África de Sul, ele candidatou-se a um lugar em Lisboa. Conhecia a empresa como a palma da sua mão e a situação na África do Sul não era famosa. A segurança pública era um dilema. Circular nas ruas à noite era uma aventura arriscada.
Os filhos desde pequenos que cultivam o hobby do pai. Barras em informática, não passam sem o computador. Sérgio, o mais velho, é o consultor do pai e Marco vai pelo mesmo caminho. Ambos, sempre que podem, rumam à HP. Aos fins-de-semana fazem experiências em casa e ajudam os amigos nos dilemas informáticos.

Em busca do equilíbrio
Uma coisa é certa: poucas são, hoje, as mulheres que abdicam de uma carreira em prol da família. Porém, «é a ala feminina que continua a assumir todo um leque de responsabilidades com o cuidado dos filhos e de outros familiares, ficando impossibilitadas de, no plano profissional, desenvolver uma carreira e ocupar determinados postos de trabalho em pé de igualdade com o sexo masculino», constata Maria das Dores Guerreiro, socióloga e investigadora do ISCTE.
Segundo o estudo Two Careers, One Marriage, elaborado pela Catalyst, uma organização norte-americana sem fins lucrativos, cuja função é permitir às mulheres alcançarem o máximo potencial no mercado de trabalho, 58% dos homens, de mil inquiridos, classificam ambas as carreiras como de igual importância. Porém, cerca de 33% dos homens consideram a sua carreira como prioritária, mais do que as mulheres (6%). Um dado curioso: a maioria dos inquiridos (58% das mulheres e 78% dos homens) estão satisfeitos com a sua capacidade de equilibrar a carreira com as responsabilidades domésticas e familiares.
São raras as excepções em que o pai acompanha as primeiras semanas do bebé. Mas as coisas estão a mudar. Os casais mais jovens já partilham tarefas. Os homens aprenderam, finalmente, que não existem supermulheres.

As empresas também ajudam
«É importante que a entidade patronal e os colegas reconheçam aos homens responsabilidades familiares», afirma a socióloga Maria Guerreiro. Algumas empresas são exemplares nas políticas de conciliação. Quer um caso? A TAP. A companhia aérea nacional percebeu que essa é uma poderosa ferramenta de negócio. Os seus funcionários dispõem, no aeroporto, de um infantário a funcionar 24 horas por dia. A assistência é «cinco estrelas». Tem uma enfermeira em permanência e um pediatra semanalmente. A empresa assegura ainda a alimentação e cuida da roupa — os pais só levam as fraldas. Esta solução diminuiu o absentismo e aumentou a produtividade. Se os dois cônjuges trabalharem na empresa, esta concilia as folgas. Até o filho perfazer um ano, as mães beneficiam de um horário reduzido, das seis da manhã à uma da tarde. Durante esse ano, não fazem turnos nocturnos. O Clube TAP organiza também, no Verão, campos de férias para a criançada, com viagens ao estrangeiro.
Manuel dos Santos adianta que a HP não fica atrás. Um dos grandes benefícios apontados pelo director-geral são os horários flexíveis, a possibilidade de trabalhar em casa (a HP estima que quem trabalha em casa é 25% mais produtivo) e as semanas comprimidas em apenas quatro dias de trabalho. Neste último plano, uma função passa a ser efectuada por duas pessoas com horários e dias distintos.
E quando a empresa não dá tréguas, quais os truques para garantir o equilíbrio? «Organização, organização e organização», responde com humildade a voz da experiência de Maria do Rosário. Um apontamento: «É importante querer ter filhos. Gostar de ser mãe», realça. O casal Carneiro fala com orgulho da caminhada dos filhos e o pai babado conta a queda que têm para as artes. Um bichinho que lhes passou desde pequenos.

A carreira não é tudo na vida
A história desta família é a prova de que com força de vontade é possível manter uma carreira sem perder o prazer da vida. Apesar da lufa-lufa diária, Maria do Rosário mantém a sua profissão. É assistente do Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas, onde rege as disciplinas de Planeamento Sócio-Económico e de Política da Família, e regente de Sociologia da Família na Universidade Católica Portuguesa. Directora pedagógica da Escola Superior de Artes Decorativas da Fundação Ricardo Espírito Santo, técnica superior do Ministério da Educação e deputada independente do PS na Assembleia da República, ainda encontra tempo para fazer ballet.
Maria José Amich também não abdica do seu tempo de lazer. Herdou um piano, motivo mais do que suficiente para tirar um dia por semana para aprender umas notas. Outra regra de ouro são as luas-de-mel com o marido. «Há que alimentar a relação. Gostamos de sair juntos, jantar fora, conversar», diz. Só assim se consegue levar um casamento a bom porto sem perder o pé na profissão.

© 1998 by Fast Company. Condensado de Fast Company (Junho/Julho de 1998). Publicado com permissão de Fast Company. Todos os direitos reservados. Adaptado por Helena Oliveira.

[anterior]