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Futebol de 11. É
assim que Roberto Carneiro e Maria do Rosário definem a sua família.
Esta equipa joga as alegrias e as tristezas sem nunca deixar
ninguém fora de jogo. Uma família unida, que resistiu às
tempestades no tempo em que Roberto Carneiro foi ministro da
Educação. «Nem todos os professores reagiram bem às mudanças.
Os nossos filhos sofreram represálias», conta, sem mágoa,
Maria do Rosário. Injustiças reveladas apenas à mãe. O pai,
esse, só anos mais tarde soube do que acontecera. «Foram
quatro anos e meio de grande descrição de parte a parte. Cada
um resolvia os problemas no seu íntimo. Foi um período de
grande aprendizagem», define o ex-ministro. Uma prova de que
conciliar carreira e família mantendo a união é possível, «desde
que exista muita serenidade», como ensina Maria do Rosário.
Conheceram-se ainda na universidade. Roberto Carneiro era
director do jornal universitário
O Tempo e Maria do Rosário iria colaborar numa pesquisa sobre
residências universitárias. Trocaram as primeiras palavras
numa reunião. Mas a opinião de Maria do Rosário acerca dele não
foi abonatória: «Só sabia dar ordens», relembra, a rir. Porém,
o ditado «Quem desdenha quer comprar!» cumpriu-se, e em Julho
de 1973 deram o nó.
Durante o namoro, nas idas à ópera ao S. Carlos e à
Gulbenkian, planearam a casa e os filhos. Quinze, sonhavam. «Uma
equipa de râguebi», dizem, em coro. Mas a Natureza ditou que
ficariam pelos nove. Mesmo assim é obra! «Gerir uma casa
destas é quase uma pós-graduação em Gestão de Recursos
Humanos», comparam, a brincar.
«Cada caso é um caso. É preciso ter sensibilidade para
entender os problemas e as necessidades de cada um.» Roberto
Carneiro admira a capacidade da mulher tratar cada filho como um
filho único. «Durante a semana existem espaços privados para
cada um. Vão com a mãe almoçar, às compras, ao cinema,
enfim, têm todas as atenções», conta, orgulhoso. Uma tarefa
hercúlea, que a obriga a dividir-se. Mas Maria do Rosário fá-lo
com amor. Ainda se lembra quando saía à rua, numa só manhã,
mais de 14 vezes. «Primeiro levava um à ginástica, depois
outro à música, outro ao ballet», enumera. Um detalhe: este
casal, durante anos, dormia apenas cerca de cinco horas por
noite. «Com nove crianças era impossível manter um ritmo de
vida tranquilo. Havia sempre um que estava doente, outro que
chorava...» Só depois das 11 da noite tinham algum tempo um
para o outro. A professora universitária relembra que
aproveitava algumas viagens que fazia com o marido na época em
que este era ministro para dormir. «Era o sono dos justos.
Sabia-me a férias», descreve.
No início do casamento, Maria do Rosário sentiu na pele a
dificuldade de conciliar a vida profissional e a família. O
dinheiro não chegava para tudo. «Acumulei dois empregos. Dava
aulas na universidade e trabalhava como técnica superior no
Ministério da Educação. Era duro», relembra. As tarefas eram
divididas: enquanto um dava banho aos meninos, o outro
cozinhava. Depois a vida melhorou e Maria do Rosário ficou
apenas num emprego. Durante muito tempo trabalhou só de manhã.
À tarde exercia a sua função predilecta: a maternidade. Até
porque Roberto Carneiro viajava cerca de quatro a cinco meses
por ano e os filhos precisavam da mãe presente. Ambos fora de
casa seria, no mínimo, desastroso.
Quando o tempo voa
O grande dilema das sociedades modernas é que o tempo para
estar com os filhos tornou-se num bem escasso. Uma realidade difícil
de aceitar, que acaba por criar nos pais uma sensação de
remorso. Um peso na consciência por não darem às crianças
tudo o que elas precisam e o receio de serem ultrapassados pelos
educadores, professores ou empregadas, que acabam por conhecer
melhor os filhos do que eles próprios. Mas renunciar a uma
carreira para cuidar dos filhos introduziria no clã familiar
outros sentimentos, como a frustração. Daí que se defenda o
tempo de qualidade. Ou seja, como afirma Benjamin Spock, um dos
gurus da pediatria: «É preferível brincar com o filho durante
15 minutos agradáveis e depois dizer-lhe: "Agora vou ler o
jornal", do que estar um dia inteiro com ele contrariado.»
Quanto a esta questão, Roberto Carneiro é peremptório: «É
preciso ter tempo para os filhos. Cultivar uma relação de
qualidade. Olhar para eles. Ouvi-los. Perguntar como correu o
dia. Por isso, a hora de jantar é sagrada. É uma das únicas
regras que, quando quebrada, origina discussão.» Por falar em
regras: só com grande disciplina se evitou que o lar se
transformasse num quartel sem rei nem roque. Adepto da
liberdade, as regras, para este casal, são, contudo,
essenciais. «Um lar sem regras não dá segurança aos filhos.
É importante cada um saber qual é o seu papel no grupo»,
defende Roberto Carneiro.
Só se sobrevive com ajudas
Muito disciplinada, Maria José Amich, directora de marketing e
vendas da Kelloggs, tenta entrar sempre às nove da manhã,
fazer um almoço de 20 minutos e sair por volta das sete, mas
nem sempre o consegue. Há dias em que as 24 horas são
escassas. E a disciplina é quebrada. Maria José tem uma filha
de três anos e está grávida de cinco meses. A opção de ter
outro filho colocou-a entre a espada e a parede. Se não tivesse
encontrado quem a ajudasse, teria de deixar de trabalhar. «Arranjar
alguém para cuidar dos filhos é uma árdua tarefa. Quase inglória»,
desabafa. Com a instituição «avó» em decadência, os pais têm
de procurar outros apoios. A Maria José Amich, a solução
saiu-lhe dispendiosa. «Contratei um casal que está 24 horas em
minha casa. Só assim consigo ter a cabeça liberta», diz.
Maria José sabe que o grande problema dos casais executivos são
os horários. Nem sempre se consegue sair às sete e as
empregadas não ficam à espera nem gostam de trabalhar à
noite. «O drama é que a oferta é escassa e nem sempre acessível
a todas as bolsas. As creches funcionam em horários
desajustados do ritmo de vida actual», considera. A opção foi
inscrever a filha na Escola Alemã. «Agora, com apoio, tudo será
mais fácil», constata, aliviada.
Desde os 21 anos que Maria José tem a sua independência. Ficar
sem trabalhar era para esta executiva um bicho de sete cabeças.
«Adoro o meu trabalho. Não seria feliz se ficasse apenas a
cuidar dos filhos», admite, sem preconceitos.
Espanhola de nacionalidade, saiu de casa aos 13 anos rumo ao
internato na Escócia. Licenciou-se em Económicas na
Universidade de Genebra e aos 21 anos foi trabalhar para
Copenhaga, regressando a Espanha apenas aos 22 anos para fazer
um MBA. Ingressou na Ogilvy & Mather a convite de um
professor, a sua primeira experiência em marketing. Passado ano
e meio, em Barcelona, entrou na António Puig, empresa líder no
sector de higiene pessoal, como responsável de marketing
internacional. Tinha como função abrir novos mercados noutros
países, o que lhe permitiu correr mundo.
Numa viagem a Madrid, o seu coração ficou aprisionado. E pela
primeira vez na vida abandonou tudo por uma decisão emocional.
Pegou nas malas, enviou um currículo e ancorou-se em Lisboa. «Na
altura foi duro», relembra. Hoje, passados quatro anos, sabe
que fez a opção certa.
Juntos também na empresa
Quem também se mudou de armas e bagagens para Portugal, em
1990, foi Manuel dos Santos, director-geral da Hewlett Packard
(HP). Na altura, os filhos tinham 9 e 14 anos. Para eles a
adaptação foi fácil, quem sofreu mais foi a mulher.
Habituada às grandes avenidas e hipermercados da África do
Sul, as ruelas estreitas e as mercearias do bairro foram um
choque. Mas o que realmente a marcou foi deixar de trabalhar. A
sua família vive no Norte e os amigos estavam a milhares de
quilómetros de distância. Mudar para Portugal foi uma opção
que a deixou muito solitária. A vida desta família deu uma
volta de 180º. No entanto, passada a tempestade vem a bonança.
Hoje sentem-se felizes e sair de Portugal é um tema fora de
questão.
«Em Portugal trabalha-se 12 horas diárias. Na África do Sul
saía às quatro horas, jantávamos e ainda tínhamos tempo para
visitar os amigos. A palavra certa é: qualidade de vida»,
conta Manuel dos Santos. Em Portugal não existe tanto convívio.
Cada um fecha-se no seu casulo.
O que não mudou para Manuel dos Santos foi a paixão pela HP.
Fala da empresa com um brilho nos olhos. Como prova temos a sua
vinda para Portugal. Quando a holding fechou as portas na África
de Sul, ele candidatou-se a um lugar em Lisboa. Conhecia a
empresa como a palma da sua mão e a situação na África do
Sul não era famosa. A segurança pública era um dilema.
Circular nas ruas à noite era uma aventura arriscada.
Os filhos desde pequenos que cultivam o hobby do pai. Barras em
informática, não passam sem o computador. Sérgio, o mais
velho, é o consultor do pai e Marco vai pelo mesmo caminho.
Ambos, sempre que podem, rumam à HP. Aos fins-de-semana fazem
experiências em casa e ajudam os amigos nos dilemas informáticos.
Em busca do equilíbrio
Uma coisa é certa: poucas são, hoje, as mulheres que abdicam
de uma carreira em prol da família. Porém, «é a ala feminina
que continua a assumir todo um leque de responsabilidades com o
cuidado dos filhos e de outros familiares, ficando
impossibilitadas de, no plano profissional, desenvolver uma
carreira e ocupar determinados postos de trabalho em pé de
igualdade com o sexo masculino», constata Maria das Dores
Guerreiro, socióloga e investigadora do ISCTE.
Segundo o estudo Two Careers, One Marriage, elaborado pela
Catalyst, uma organização norte-americana sem fins lucrativos,
cuja função é permitir às mulheres alcançarem o máximo
potencial no mercado de trabalho, 58% dos homens, de mil
inquiridos, classificam ambas as carreiras como de igual importância.
Porém, cerca de 33% dos homens consideram a sua carreira como
prioritária, mais do que as mulheres (6%). Um dado curioso: a
maioria dos inquiridos (58% das mulheres e 78% dos homens) estão
satisfeitos com a sua capacidade de equilibrar a carreira com as
responsabilidades domésticas e familiares.
São raras as excepções em que o pai acompanha as primeiras
semanas do bebé. Mas as coisas estão a mudar. Os casais mais
jovens já partilham tarefas. Os homens aprenderam, finalmente,
que não existem supermulheres.
As empresas também ajudam
«É importante que a entidade patronal e os colegas reconheçam
aos homens responsabilidades familiares», afirma a socióloga
Maria Guerreiro. Algumas empresas são exemplares nas políticas
de conciliação. Quer um caso? A TAP. A companhia aérea
nacional percebeu que essa é uma poderosa ferramenta de negócio.
Os seus funcionários dispõem, no aeroporto, de um infantário
a funcionar 24 horas por dia. A assistência é «cinco estrelas».
Tem uma enfermeira em permanência e um pediatra semanalmente. A
empresa assegura ainda a alimentação e cuida da roupa os
pais só levam as fraldas. Esta solução diminuiu o absentismo
e aumentou a produtividade. Se os dois cônjuges trabalharem na
empresa, esta concilia as folgas. Até o filho perfazer um ano,
as mães beneficiam de um horário reduzido, das seis da manhã
à uma da tarde. Durante esse ano, não fazem turnos nocturnos.
O Clube TAP organiza também, no Verão, campos de férias para
a criançada, com viagens ao estrangeiro.
Manuel dos Santos adianta que a HP não fica atrás. Um dos
grandes benefícios apontados pelo director-geral são os horários
flexíveis, a possibilidade de trabalhar em casa (a HP estima
que quem trabalha em casa é 25% mais produtivo) e as semanas
comprimidas em apenas quatro dias de trabalho. Neste último
plano, uma função passa a ser efectuada por duas pessoas com
horários e dias distintos.
E quando a empresa não dá tréguas, quais os truques para
garantir o equilíbrio? «Organização, organização e
organização», responde com humildade a voz da experiência de
Maria do Rosário. Um apontamento: «É importante querer ter
filhos. Gostar de ser mãe», realça. O casal Carneiro fala com
orgulho da caminhada dos filhos e o pai babado conta a queda que
têm para as artes. Um bichinho que lhes passou desde pequenos.
A carreira não é tudo na vida
A história desta família é a prova de que com força de
vontade é possível manter uma carreira sem perder o prazer da
vida. Apesar da lufa-lufa diária, Maria do Rosário mantém a
sua profissão. É assistente do Instituto Superior de Ciências
Sociais e Políticas, onde rege as disciplinas de Planeamento Sócio-Económico
e de Política da Família, e regente de Sociologia da Família
na Universidade Católica Portuguesa. Directora pedagógica da
Escola Superior de Artes Decorativas da Fundação Ricardo Espírito
Santo, técnica superior do Ministério da Educação e deputada
independente do PS na Assembleia da República, ainda encontra
tempo para fazer ballet.
Maria José Amich também não abdica do seu tempo de lazer.
Herdou um piano, motivo mais do que suficiente para tirar um dia
por semana para aprender umas notas. Outra regra de ouro são as
luas-de-mel com o marido. «Há que alimentar a relação.
Gostamos de sair juntos, jantar fora, conversar», diz. Só
assim se consegue levar um casamento a bom porto sem perder o pé
na profissão.
© 1998 by Fast Company. Condensado de Fast
Company (Junho/Julho de 1998). Publicado com permissão de Fast
Company. Todos os direitos reservados. Adaptado por Helena
Oliveira.
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