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Ecclesia - 24 de Abril
Trabalhar para a Família ou Trabalhar para o Empresário
Catarina de Oliveira Soares, Coordenadora Nacional da JOC.
Trabalhar não é só um direito, como também um dever. Numa sociedade global em que as trocas directas foram há muito ultrapassadas, trabalhar em troca de um salário é para a maior parte da população, a forma de conseguir os meios necessários para viver. É claro que se o que se ganha permite que se viva ou não com dignidade, é outra questão também bastante complexa.
A obrigação de ganhar o pão com o suor do próprio rosto supõe ao mesmo tempo, um direito. Uma sociedade onde esse direito seja sistematicamente negado, onde as mediadas de política económica não consintam aos trabalhadores alcançarem níveis satisfatórios de ocupação, não pode conseguir nem a sua legitimação ética nem a paz social. (Centesimus Annus 43)
É claro que não basta ter trabalho. Se não vejamos o exemplo dos escravos. Tinham sempre muito trabalho para fazer, mas não deixavam de ser escravos.
Hoje em dia, a questão pode pôr-se de uma outra forma. O trabalho que temos, o que nos é exigido, as condições em que trabalhamos, não será uma forma de escravidão diferente?
Trabalhar para a família ou para o Empresário, é uma questão que nos é muitas colocada, embora não de uma forma directa. Os horários de trabalho, quer por serem longos quer pela existência de turnos, o possuir mais do que um emprego, deixa-nos lesados no tempo que temos para a família.
Mas é a pensar na família que muitos trabalhadores, procuram mais do que emprego, como forma de completar o seu salário e poder viver segundo as condições que pensa serem as melhores para si e para a sua família. É a pensar na família, que se aceitam trabalhos por turnos, principalmente no caso das mulheres.
Quantas mães, não chegam a casa cansadas do dia de trabalho, e ainda têm pela frente outra jornada de trabalho: preparar a comida, arrumar a casa, passar a ferro, cuidar dos filhos, e tantas outras tarefas domésticas. Se for um trabalho por turnos, para uma mulher que tenha filhos, que tempo terá para estar com eles? E nesta altura estão muitos de vocês a perguntar: então os pais?. Muito pertinente, sem dúvida esta questão, eu subscrevo-a. Onde é que estão os pais, ou melhor ainda onde é que estão os maridos que prometem ajudar as esposas, dividir as tarefas domésticas?
Mas se queremos Ter trabalho não podemos pensar só na família. Infelizmente temos de pensar muito mais no que quer o empresário para o qual vamos trabalhar. Se pensarmos que não vamos Ter tempo para estar com a família, perdemos o trabalho. É que os candidatos são muitos. E também por essa razão se quisermos acordar algumas condições, a resposta é se não está interessada há mais quem esteja.
Longe vão os tempos em que só se tinha um emprego para toda a vida. Com a actual situação, os contratos a termo certo sucedem-se uns atrás dos outros. E quando se têm certos compromissos financeiros (como o empréstimo da casa, o pagamento do carro, a creche dos miúdos, as despesas de água e luz, entre outros), não se pensa muito no trabalho que se vai aceitar, mas quanto se vai ganhar.
Esta questão acaba por ser bastante complexa. Até porque, e neste âmbito faço apenas suposições, penso que a diminuição da natalidade, - muitos casais não chegam sequer a ter filhos, - poderá estar relacionada com o facto de se querer um certo nível de vida, que com as ofertas de emprego que existem não será atingido pelos casais que tenham filhos.
Um casal é o princípio da família. As condições de trabalho poderão contribuir para o fim.
Não podemos pensar só na família, como também não podemos pensar só em quem nos dá trabalho. O prego de dois bicos...
O menos tempo que as famílias passam todas juntas, sem dúvida que contribui para a sua desagregação. Mas, felizmente que todos devemos ter exemplos de famílias, que embora ambos os pais trabalhem, são famílias, e utilizando uma linguagem do meio empresarial, afectivamente bem sucedidas.
Catarina de Oliveira Soares
Coordenadora Nacional da JOC
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