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Ecclesia - 24 de Abril
Homens, não máquinas do trabalho
José Maria Carneiro Costa, Coordenador Nacional da LOC/MTC.
Será o homem uma máquina laboral?
Não! O homem não é nem pode ser uma máquina laboral. Ele é antes de mais um ser cheio de dignidade, criado à imagem e semelhança de Deus, com a missão de aperfeiçoar a obra da criação e fazer deste mundo uma morada onde seja bom viver. É um ser repleto de virtudes, capazes de fazer irradiar na humanidade os valores e anseios que servem de alicerces à construção duma sociedade/comunidade, onde nada falte e todos possam viver, na diversidade, as alegrias e o prazer de seres vivos criados para desfrutar as maravilhas da natureza.
As máquinas não podem estar paradas...
Tudo estaria bem se os desígnios do Criador se concretizassem permanentemente, mas há homens que não querem saber de Deus e fazem do mundo laboral um local de escravidão da pessoa humana. Veja-se a forma como os imigrantes que vieram para o nosso país à procura de uma vida melhor são tratados por alguns patrões sem escrúpulos, que apenas pensam em ganhar muito dinheiro à custa do sofrimento da pessoa humana. De facto, muitos dos actuais empresários fazem do homem e da mulher autênticas máquinas de produção. Não lhes interessa a sua saúde, nem os seus sentimentos, se têm ou não família, o que interessa é que produzam depressa e bem. Nem interessa conhecer o porquê da produção, o que importa é saber carregar nos botões certos, para que a máquina responda afirmativamente, conforme a sua programação. Se uma máquina avaria, chamam-se os técnicos, mesmo que sejam do estrangeiro para a reparar, sem olhar a gastos para que a produção não seja afectada. Mas se o trabalhador adoece, é logo substituído por outro e pouca importância tem para a empresa a sua doença. As máquinas, é que não podem estar paradas!
Perda da identidade do trabalhador
Nos tempos actuais, as novas modalidades de trabalho, têm contribuído para a perda da identidade do trabalhador. Este está cada vez mais isolado e manietado pelas novas tecnologias. Enquanto uns planeiam e programam, outros limitam-se a carregar em botões para a máquina produzir. A sua identidade de pessoa individual e colectiva está, em muitos casos, reduzida apenas ao individual. A convivência quase que só funciona por necessidade. A perda de regalias adquiridas em troca de benesses que retira o trabalhador do seu meio familiar e residencial, leva-o a aceitar condições de trabalho, que a breve prazo o transformarão numa máquina ao serviço exclusivo da empresa. Outros, continuam a viver condições de trabalho marcadas pela precaridade dos empregos ou a sua falta, pelas aposentações prematuras ditadas pela chamada nova economia, pela exploração selvagem de uma larga categoria de trabalhadores (migrantes, mulheres e crianças) e pela falta de protecção dos mais débeis. O mundo do trabalho, embora querendo dar uma imagem do contrário, começa a transformar-se num caos separando as diferentes categorias de trabalhadores, pondo-os uns contra os outros para definitivamente, fragmentar a solidariedade destes homens e destas mulheres.
Seres únicos e irrepetíveis
Torna-se urgente reforçar a identidade de cada trabalhador e a sua capacidade de viver e assumir com os demais os graves problemas que o mercado do trabalho enfrenta. Neste mercado não existem apenas máquinas e matéria prima para ser transformada em mercadoria, existem pessoas que são seres únicos e irrepetíveis. É urgente promover uma cultura da solidariedade e da participação dando vez e voz aos mais pobres sobretudo os que enfrentam as dificuldades dos salários baixos e da falta de emprego. Só assim a sua identidade será reforçada. É inadmissível que num país tão pequeno como o nosso existam salários tão diferentes. Enquanto alguns nem o salário mínimo recebem, outros ganham chorudos ordenados, sem horário de trabalho definido, dedicados em exclusivo à empresa. E os outros? Onde estão os trabalhadores que se organizam colectivamente nos sindicatos, em associações locais, para promoverem o bem comum e defenderem os seus legítimos direitos?
Talentos e habilidades
Para o Movimento Mundial dos Trabalhadores Cristãos (MMTC), torna-se necessário alargar a nossa visão e VER à nossa volta quais são as categorias de trabalhadores e trabalhadoras, as suas condições de trabalho ou de emprego, os efeitos sobre a sua vida e as causas dessas situações que muitas vezes foram engendradas pelo sistema económico internacional actual.
É preciso aprofundar o conhecimento da realidade e procurar definir a identidade dos trabalhadores e trabalhadoras do século XXI, o que constitui uma primeira etapa, na vida do Movimento, para dar uma visão global dos homens e das mulheres que têm talentos e habilidades para contribuir, com o seu trabalho, na edificação de uma vida mais humana. Redescoberta esta identidade, com as suas diferenças, poderá levar a uma solidariedade de acção regional, continental e internacional pela aplicação dos direitos humanos e pelo desenvolvimento integral das pessoas. O homem e a mulher, nos tempos de hoje, não podem ser considerados, nem de longe, nem de perto máquinas laborais. Se o são (como infelizmente acontece) é algo que está mal e que tem de ser alterado com urgência. Como cristãos não podemos permitir que os trabalhadores sejam máquinas, mas pessoas com dignidade criadas à Imagem e semelhança de Deus, dispostas, pelo trabalho, a dar a sua contribuição, para que o mundo seja mais humano e justo.
José Maria Carneiro Costa
Coordenador Nacional da LOC/MTC
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