Expresso - 21 de Abril

Dos 0 aos 15 

Meninos rabinos 

Todas as crianças fazem as suas maldades e é normal. O pior é quando a simples traquinice se transforma em crueldade. Uma atitude que requer a maior atenção dos pais.


Texto de Maria Helena Costa


FOTOTECA 
Em todas as famílias existe uma criança que se destaca pela sua traquinice. Ouvem-se histórias rocambolescas de crianças que praticaram as patifarias mais divertidas até àquelas que cometeram verdadeiras atrocidades em animais, nas empregadas, nas outras crianças e, sobretudo, nos irmãos mais novos. Se as primeiras provocam riso, as últimas podem provocar muitas lágrimas. Por isso, os pais devem estar alerta.

Se, a partir dos dois anos, a criança começa a transformar-se numa autêntica pestinha, os seus actos não devem ser ignorados. Há que lhe chamar a atenção, mostrar-lhe que agiu mal e as consequências que os seus actos tiveram ou poderiam ter, mas, mais importante, tentar saber o que a levou a agir daquela forma. O castigo nem sempre resolve o problema e as palmadas também não, mas podem ser uma preciosa ajuda se existir diálogo entre a criança e os pais.

A agressividade manifesta-se nos primeiros meses de vida, através do choro, gritos e birras, sendo compreensível nesta fase uma vez que a criança não sabe ainda falar e pedir o que quer. Quando, a partir dos dois, três anos, a criança apresenta reacções de raiva, agita-se com violência, grita para obter aquilo que deseja, arranha, puxa cabelos e morde outras crianças ou familiares, essas são já manifestações de uma conduta agressiva. A partir dos quatro anos aprende a expressar a sua agressividade verbalmente. As suas fantasias agressivas são numerosas e manifestam-se nos seus brinquedos e brincadeiras e por vezes também em sonhos de angústia e agressão. Geralmente os rapazes têm mais atitudes agressivas que as raparigas.

Mas, se depois desta idade, as asneiras e diabruras se manifestarem de forma repetitiva e persistente, de forma a violar os direitos básicos dos outros, ou regras sociais próprias da idade, aliadas a outras atitudes mais cruéis, como a crueldade física para pessoas e animais, o uso de objectos como arma para ferir os outros, o roubo e a iniciativa em lutas físicas, entre outros critérios mais específicos da idade e de maior gravidade, aí a criança pode estar a sofrer de perturbações do comportamento. Uma doença que lhe pode causar um défice significativo no funcionamento social e escolar, consoante a gravidade dos casos.

Nas crianças que não manifestam sistematicamente este tipo de comportamento mas apenas situações idênticas isoladas, estas poderão constituir uma chamada de atenção: «Olhem para mim, nem que seja porque estou a fazer maldades». E muitas crianças ganham mais atenção assim. Quando fazem coisas boas não são valorizadas e por isso o ganho secundário - a atenção - compensa.

Ana Teresa Silva é psicóloga no Centro de Serviços para o Desenvolvimento Psicomotor, instituição por onde passam variadíssimos casos de crianças com perturbações do comportamento. Em sua opinião, as crianças ditas mal comportadas são as que agem em vez de pensar. «Se a criança não dá seguimento a certas fantasias ligadas à depressão, angústia, carência e revolta, age». O jogo é a área onde a criança pode experimentar as suas fantasias sem ser destrutiva para com os outros ou destruída pelos outros. Mas, sejam eles quais forem, «os sintomas das crianças são sempre reflexo do tipo de relação entre elas e os adultos», defende. «Uma criança que agride, mente, furta, mostra instabilidade ou desobediência, é geralmente uma criança carenciada de afecto, deprimida, que só no agir encontra saída para a sua ansiedade. Muitas vezes descobre neste comportamento a provocação para ser punida - uma solução para preencher o vazio do abandono afectivo».

Este tipo de atitude é, frequentemente, selectivo, ou seja, a criança não é assim com todas as pessoas. «O adulto geralmente é fraco, incapaz de proporcionar limites à criança e elas aproveitam. Se o comportamento não é selectivo mas sim generalizado, torna-se mais grave. Tratam-se de crianças com intolerância à frustração, que poderia ser banal aos dois, três anos, mas que na latência (9, 10 anos) ou na pré-adolescência assume proporções de maior gravidade, podendo chegar à quebra de mobiliário, ameaça e agressividade para com os irmãos». Nestes casos, o quadro familiar, em sua opinião, «é de frágil entendimento entre os pais, autoridade parental débil e padrão de interacção organizado em torno da chantagem».

Ao contrário do que pode pensar-se, o mau feitio não é genético, mas pode ser transgeracional e nem sempre passa à medida que se vai crescendo. Cada caso é um caso e existem várias situações que podem levar a que uma criança altere o seu comportamento. «Quando perdeu a mãe precocemente e não pode estruturar-se psicologicamente pela ausência, a partir da segunda infância, ou não conseguiu encontrar no ambiente em que se desenvolveu imagens válidas de pai e de mãe, pode sofrer de Insuficiência do Eu. Nos casos em que a criança não pode mentalizar os conflitos internos e actua em vez de pensar, pode sofrer de Contradições Internas. Quando existem situações exteriores desfavoráveis para a evolução normal da criança, como ter a mãe como única educadora, ser rejeitada pela família ou ser superprotegida por pais excessivamente rígidos, são também casos favoráveis às alterações comportamentais».

João Beirão, pedopsiquiatra, é de opinião que quando existem problemas repetidos de comportamento, uma consulta a um especialista em saúde mental infantil deve ser feita quanto mais cedo melhor. «Uma criança não nasce estruturada, vai-se estruturando, por isso é mais maleável a estrutura de uma criança do que a de um adolescente», diz. Como distinguir a brincadeira da maldade é uma das dificuldades dos pais, por isso há que estar bem atento aos sinais. Para este psiquiatra cada disparate terá que ser integrado em quem o faz. «O acto em si não é o mais importante, não podem isolá-lo. Quando o disparate acontece, os pais devem confrontar as crianças e mostrar zanga, mas também dialogar e tentar saber o que é que ela estava a sentir e porque foi tão difícil de dizer».

Pelo seu consultório já passaram centenas de meninos, mas mesmo assim há histórias que não esquece. «Não é normal uma criança de 18 meses matar pássaros aos pontapés, outra de nove anos lavar o gato na máquina, nem um de cinco levar uma chave de parafusos para a escola para tirar os olhos aos colegas, nem um outro passar a vida a fazer buracos nas paredes e a provocar inundações. Portanto, quando deixar de ser um caso isolado e incapaz de evoluir com o diálogo, quanto mais cedo se procurar um especialista melhor. Os pais não devem ficar à espera que aquilo passe com a idade». O que distingue a brincadeira da crueldade, segundo este especialista, «é quando a brincadeira é agressiva, quando há desprezo pelo outro e pela relação com o outro». 

[anterior]