Diário de Notícias - 22 de AbrilEntrevista a
David Justino (ministro da educação): Reprovações só em duas disciplinas
MARIA JOSÉ MARGARIDO
David Justino quer "ficar escravo da oposição entre boas e más
escolas", e não da polémica entre escola pública e privada: "Para esse
peditório já dei". Há estabelecimentos que vão ter mesmo de fechar, e "não
vou recuar um milímetro relativamente a isso, porque não é só uma questão
de poupar: é uma questão de qualidade de ensino"
Os professores vão passar a deter todo o poder em termos disciplinares,
e os necessários cortes orçamentais poderão levar à extinção de estruturas
intermédias do Ministério da Educação, como é o caso dos Centros de Área
Educativa. Afinal, "não quero adulterar o mercado: quero que funcione". Os
manuais escolares vão ser avaliados pelo Estado, que deverá velar pela
manutenção dos preços em níveis aceitáveis.
A revisão curricular do secundário já foi suspensa: e a do ensino
básico?
Para já mantém-se inalterada, mas a Gestão Flexível do Currículo vai
ser avaliada e ponderada - porque os resultados, à primeira vista, não são
os esperados. Há muitos casos em que já é possível verificar que não foi
esta inovação que eliminou a indisciplina nas escolas, nem as taxas de
insucesso e abandono. As causas desses problemas continuam inalteradas.
Conheço escolas na área metropolitana de Lisboa que obtiveram resultados
iguais ou piores do que os que tinham antes.
Vai intervir na transição entre anos lectivos, no ensino básico?
Tenho tanta confiança num professor que diz que um aluno tem condições
para passar como noutro que diz que um estudante não está em condições de
transitar de ano. Não posso impor procedimentos burocráticos, que têm um
efeito dissuasor quando um professor quer reter um aluno.
E quanto à passagem de alunos que reprovaram a três, quatro ou mais
disciplinas?
Isso vai ter de ser revisto. Essa autorização de se poder passar
reprovado a várias disciplinas é perniciosa. Com uma ou duas negativas
sim, mais não. Uma coisa é um aluno ter tempo de recuperar duas
disciplinas no ano seguinte; outra é reprovar quatro ou cinco.
Quando é que será reactivada a revisão do secundário?
Primeiro é preciso sublinhar que não há mudanças em movimento: vamos
parar para evitar o descalabro financeiro.
E o trabalho que foi feito durante seis anos?
Nada do que se fez foi em vão, o argumento de que vou desperdiçar o
investimento feito anteriormente não serve. Não tenho problemas nenhuns em
atrasar a implementação de programas durante um ano - não mais do que isso
-, de forma a fazer pequenas alterações. Mas é preciso perceber que, mesmo
que não houvesse revisão curricular, muitos dos programas tinham de mudar.
O ensino obrigatórios de duas línguas estrangeiras não seria uma medida
a introduzir já?
É um dos casos. Mas no próximo ano lectivo é impossível. Na próxima
reunião do Conselho de Ministros teremos a versão definitiva do
decreto-lei da suspensão. A partir daqui, vamos ajustar os vários aspectos
da revisão com portarias, dentro de um ano. E vamos introduzir o ensino
das tecnologias de informação através de uma disciplina específica, mas
sem aumentar a carga lectiva. Se possível, vou diminuí-la - e isso não
acontecia com a revisão curricular, a carga lectiva era a mesma. Tudo o
que ultrapasse as 25 horas semanais é demais. É melhor ter menos horas,
mais bem dadas, com os miúdos mais descansados. Esta é a cultura da
quantidade, o chamado enfarta-brutos. Não quero chegar ao princípio da
nouvelle cuisine française, mas gostava de um meio-termo.
Em que é que vai mudar o regime de contratação de professores?
O modelo de vinculação tem de ser revisto, não há outra hipótese. Se
queremos ter os melhores professores, isso tem de acontecer. Até porque o
nível de qualidade dos cursos do ensino superior que formam docentes são
muito diferentes. Como ministro da Educação não vou fazer nada no ensino
superior, portanto acho que deve haver uma avaliação destes candidatos.
Admito que a nota de licenciatura é uma variável a considerar, mas não
pode ser a única. Mas tudo isto tem de ser visto em termos globais:
recrutamento, vinculação e progressão na carreira. Neste momento, estou
convencido que os próprios sindicatos não estão contentes com os critérios
de progressão na carreira. Não dignifica os professores nem o mérito.
A progressão na carreira também vai depender da avaliação?
Sim, não pode ser uma progressão automática ou por créditos. O problema
é regulamentar a forma como é feita.
Vai ser difícil convencer os sindicatos disso...
Tenho a certeza que não há nenhum sindicato que não queira dignificar a
função de professor. Podem não o dizer publicamente, mas dizem-no e
pensam-no.
ESTADO VAI AVALIAR E PRESERVAR PREÇOS DOS MANUAIS ESCOLARES
Como será a prometida intervenção do ministério no domínio dos manuais
escolares?
Vamos encontrar um sistema de avaliação dos manuais. A qualidade dos
livros escolares não pode ser única e exclusivamente determinada pelos
editores. As escolas devem ter o direito de escolher, mas com informação.
Mantém-se a liberdade de edição e aquisição dos manuais, mas deve existir,
da parte do Estado, o direito de preservar a qualidade científica,
pedagógica e dos preços dos livros.
Se as classificações das provas de aferição forem contempladas para
efeitos das notas dos alunos, logo no 4.º ano, isso acaba por ser uma
aproximação à introdução de exames no final do 1.º ciclo...
Não, vão ter apenas algum peso.
Vai ser criado um elenco fixo de exames nacionais no 9.º ano e
verificar-se-á uma redução dos mesmos no 12.º?
Vamos ver. A única coisa que posso garantir é que, até à conclusão
desta legislatura, faremos os primeiros exames do 9.º ano. O figurino que
vamos adoptar tem de ser definido em função dos efeitos da revisão
curricular que já está a decorrer no básico e do próprio ensino
secundário. Um dos problemas deste último nível de ensino é que o patamar
de exigência é muito superior ao que existe no 9.º ano. E essa exigência
tem de se verificar antes.
O facto de a Educação surgir como uma das prioridades do Governo
indicia uma continuação da paixão socialista?
Tenho uma visão muito racional da educação. O anterior Governo tratou a
educação como uma amante caprichosa, daquelas a quem se dá dinheiro para
estar calada. Foi assim que trataram o ensino: deram-lhe verbas para estar
calado. O saldo desses seis anos não é positivo: a situação está mais
calma, mas o preço que se pagou foi o da desqualificação.
"ABANDONO ESCOLAR É ILEGAL"
O abandono escolar subiu no último ano em Portugal. Já sabe como vai
atacar o problema?
Quando um aluno falta sistematicamente às aulas, existe legislação
adequada à situação. Só que não é aplicada, em nome das "teorias da
exclusão social". É tão simples como isso: tem de se aplicar a lei. Sabe
que o abandono é ilegal? E que há penalizações previstas, nomeadamente
para os pais?
Os pais serão penalizados de que forma? Financeiramente?
Vamos ver.
A força da lei chega para combater o fenómeno do abandono?
Não é a força da lei, é a força do desígnio. Não podemos continuar com
as taxas de abandono que temos. Actualmente, a educação não é só um
direito: é um dever. O País não pode prescindir de valorizar o seu capital
humano. É uma obrigação de todos, de cidadania. Não estou disposto a
abdicar disso, a sério que não. Porque, no fundo, o que existe é uma
escolaridade obrigatória e uma frequência facultativa! E temos, dentro
deste esquema, uma lei que existe e não é aplicada. Mas sei que há casos
que a legislação não resolve - e é por isso que avanço com os centros de
apoio social escolar, nas áreas mais fustigadas pelo abandono e
indisciplina.
Vai ser criado um novo regulamento disciplinar para os alunos?
Estou a pensar apresentar uma proposta de lei ao Parlamento.
Qual será o espírito da lei?
A desburocratização dos processos disciplinares e o reforço da
autoridade dos professores.
Que passam a deter todo o poder em termos disciplinares?
Exactamente.
E a última consequência poderá ser a expulsão do aluno?
Claro.
Colocar um aluno fora do sistema de ensino durante um ano resolve
alguma coisa?
Pode não ficar fora da escola, pode ser transferido para uma instância
complementar. Ou permanecer no estabelecimento de ensino, mas numa
situação diferente. O que não se pode é, em nome de um aluno que
desestrutura a escola, sacrificar todos os outros. A pior coisa que se
pode fazer, nestes casos, é lançar dinheiro em cima do problema, estilo
Rendimento Mínimo Garantido. Isso não vou fazer - mas sim criar, no
próprio terreno, grupos multi-disciplinares de assistentes sociais,
sociólogos e psicólogos, para actuarem directamente junto do aluno e da
família.
O que é que significa exactamente o "combate ao quase monopólio da
escola pública", previsto no programa?
Nos últimos seis anos, o crescimento do pré-escolar fez-se
essencialmente à custa da rede pública, e os custos comparados dispararam
completamente. Temos situações em que o custo por aluno mais que
triplicou. Não havia razão para isto. O que é me interessa ter mais
escolas públicas que só abrem às nove da manhã e fecham às três da tarde?
Enquanto a oferta da rede pública se mantiver nestes termos, não vou
aumentá-la. Vou criar incentivos para que a solidária e a privada possam
crescer. Os privados só existem se houver procura, e não quero adulterar o
mercado - quero que ele funcione. Em zonas muito pobres, deverá ser a rede
pública a suprir as lacunas, e, no futuro, teremos de dar incentivos às
famílias para que escolham livremente. Andamos escravos da polémica entre
escola pública e escola privada; aquilo de que quero ficar escravo é da
oposição entre boas e más escolas. Essa é a minha obsessão, e não me levam
para a outra polémica: para esse peditório já dei.
A oferta pública não vai crescer mais?
Têm de se fazer ajustamentos através da descentralização para as
autarquias, que têm melhor capacidade de gestão deste tipo de escolas do
que o ministério.
Difícil será transferir essa responsabilidade...
As autarquias têm demonstrado o maior interesse nisso! Os autarcas
sentem - e eu, como fui autarca, também sei isso -, melhor do que ninguém,
os protestos e a incomodidade que este tipo de serviços traz às
populações.
Qual é a fórmula mágica?
Não há fórmula mágica, não podemos ter tibiezas sobre isso. Há vontade
política e, acima de tudo, respeito pelo papel do ministério e das
autarquias.
A reorganização da rede do secundário em Lisboa e no Porto vai
continuar?
Claro. Já conheço o problema, quero saber qual é o plano global e
tentar falar com o presidente da CML, para que possamos chegar a um
entendimento relativamente a opções estratégicas para o crescimento das
várias áreas dentro da cidade. Para que não andemos a fechar agora para
ter de abrir mais tarde. Depois ouvimos os pais, apostamos numa solução e
vamos para a frente com ela. Há escolas que têm de fechar. E não vou
recuar um milímetro relativamente a isso, porque não é só uma questão de
poupar: é uma questão de qualidade de ensino.
"VOU MORALIZAR O ENSINO RECORRENTE"
O ensino recorrente é um dos campos onde há maior desperdício, mas não
parecem existir planos para o reduzir nesta área.
Tenho planos: em primeiro lugar, é preciso moralizar a situação. Como é
que se moraliza a situação?
Estabelece-se um sistema mais rígido de controlo. Não há outra forma.
Quem quiser utilizar o ensino recorrente só para fazer a matrícula não
conte comigo. Não vou acabar com essa oferta, mas vou reformá-la no
sentido de haver maior exigência, maior racionalidade na utilização de
recursos humanos e materiais e, acima de tudo, maior capacidade de
eficácia. Há procura, há oferta, porque é que o sistema falha? Só tiro uma
conclusão: as pessoas que vão para lá não valorizam essa oferta como
deviam.
Trata-se de responsabilizar essencialmente os alunos.
Sim, mas os compromissos assinados não levam a lado nenhum. As pessoas
têm de pensar duas vezes antes de fazer a matrícula.
Vai impor uma contrapartida financeira?
Exactamente. Vamos ver. Aí não avanço, ainda só tenho ideias, não tenho
dados concretos.
Como é que encontrou o Ministério da Educação? Também estava de tanga?
Claramente: de tanga. O défice financeiro projectado no final do ano é
da ordem dos 218 milhões de euros.
Onde é que vão ser feitos cortes?
Terão de ser feitos mais ao nível do ministério e de algumas despesas,
serviços, comissões e organismos.
Vão extinguir organismos como o Instituto de Inovação Educacional?
Não sei, temos de considerar todo o conjunto. Há estruturas que têm de
se manter e outras que serão extintas. O ministério vai também instar as
suas direcções regionais a darem o exemplo. Nomeadamente numa área que
para nós é
prioritária: no que diz respeito a professores destacados e
requisitados.
Isso também pode passar pela extinção de certos organismos intermédios,
como os Centros de Área Educativa?
Também pode ser. É uma hipótese.