Diário de Notícias - 22 de AbrilComo lidar com
maus ministros
João César das Neves
O texto que se segue é um extracto do último relatório da Fundação
Richard Zwentzerg, o conhecido organismo internacional dedicado a estudos
lusitanos, ocasionalmente citado neste jornal. O presente documento, com o
título em epígrafe e preparado por ocasião da recente mudança de Governo,
não foi publicado e, como sempre, é apenas acessível através do DN.
"... Porque não se deve esquecer que todos os ministros se dividem em
duas classes: os bons ministros e os maus ministros. Ao contrário do que
se pensa, é muito fácil distingui-los. Os bons ministros são os que ainda
não entraram em funções ou estão lá há pouco tempo; os maus ministros são
todos os que o são há mais de seis meses.
Existem ainda mais outros dois pequenos grupos, o dos ministros
horríveis e o dos sofríveis, mas que apenas têm interesse histórico. Esses
são os poucos maus ministros que tiveram algum impacto na sociedade, a
ponto de ainda serem lembrados anos depois de terem saído do cargo, e,
conforme o impacto, são considerados horríveis ou sofríveis. Nunca nenhum
mau ministro veio alguma vez a ser considerado bom pelos efeitos das suas
intervenções.
Deste modo, os únicos ministros que realmente interessam são os maus. A
primeira coisa que um mau ministro deve saber é que não tem nem um
bocadinho daquilo que toda a gente, incluindo ele próprio, julga que tem:
poder. Um ministro de um país democrático é a última pessoa a ter poder.
Se alguém quer ter poder, o melhor é ir para electricista. [Nota do
tradutor - Existe aqui um trocadilho, no inglês original do relatório,
entre power, energia (eléctrica), e power,poder.]
A única coisa que um ministro faz é mandar. E como sabiamente diz o
povo português: "Quem quer faz, quem não quer manda." Ora um ministro é
uma das pessoas da sociedade que menos fazem e que mais mandam. Além
disso, de todas as pessoas que mandam, um ministro é o que o faz em
circunstâncias mais adversas. Primeiro, porque não tem qualquer segurança
no lugar. Assim que toma posse, toda a gente, incluindo ele próprio,
começa a pensar no momento em que vai sair. Depois, porque manda em
pessoas que nunca pensaram em obedecer-lhe. Uns, porque se acham melhores
do que ele, outros porque pensam que o melhor é não fazer nada e os
últimos porque nem sequer percebem o que ele diz. Finalmente, porque
aquilo que pretende fazer vai ser destruído após a sua saída. O poder
governamental é a força mais volátil da sociedade.
A segunda coisa que um mau ministro deve notar é que está rodeado de
bons ministros. À sua volta, estão imensas pessoas que não tomaram posse
como ministros, mas que sabem perfeitamente o que o ministro deve fazer.
Uns são do aparelho do ministério, outros são de fora, mas passam a vida
lá dentro, e os terceiros nunca lá estiveram, mas escrevem nos jornais
como se sempre lá tivessem estado. Todos descrevem os problemas a resolver
e sabem com toda a certeza o que urge fazer. Aliás, o que transforma o bom
ministro empossado num mau ministro é precisamente o facto de não vir a
fazer o que as dezenas de bons ministros que o rodeiam pensam que ele deve
fazer. No caso raro de o vir a fazer, normalmente ainda é pior.
A terceira coisa que um ministro deve saber é que a sua função não tem
nada a ver com a resolução de problemas. Isto, porque a esmagadora maioria
dos problemas que chegam a um ministro, sobretudo os levados por ministros
bons, caem numa das três seguintes categorias. Primeiro, os problemas
insolúveis, que são entregues ao ministro para ele ficar com as culpas;
segundo, os problemas inexistentes, que são entregues ao ministro para ele
os inventar; terceiro, os problemas já resolvidos, que são entregues ao
ministro para ele os complicar de novo. Assim, a principal actividade de
um mau ministro deve ser... não... resolver problemas, mas evitar os
problemas que não são para resolver.
Mas o mais importante que um mau ministro deve compreender é o âmbito e
conteúdo da sua acção. Um ministro não pode fazer nada; só pode estragar.
Assim, se um mau ministro quiser ter boa influência, deve centrar a sua
acção na limitação dos estragos. Limitar os gastos, limitar as
incompetências, limitar os abusos, limitar as perturbações. Limitar os
estragos da sociedade, os estragos do seu ministério, os estragos dos
anteriores ministros. O ministro não pode construir nada, mas pode reduzir
a destruição.
A única coisa que funciona na sociedade é a sociedade. Quem ensina são
os professores, quem cura são os médicos, quem produz são as empresas. O
Estado não pode fazer funcionar nada; só pode ajudar ou complicar. A
sociedade, enquanto funciona, cria estragos, abusos e perturbações. O
Estado, apesar de não funcionar, também cria estragos, gastos e
incompetências. Se um mau ministro limitar fortemente os estragos que a
sociedade e o Estado criam na sociedade, já está a ser muito útil.
Os poucos maus ministros que compreendem estas quatro coisas têm alguma
esperança de um dia virem a ser considerados sofríveis."