Diário de Notícias - 27 de Abril

Sucesso no Português está em aprender Latim
JOSÉ MENESES

Têm vindo a público as mais variadas intenções sobre a remodelação do ensino. Matemática e Português serão das disciplinas mais mencionadas nas intenções expressas pelos governantes "apaixonados" pela Cultura.

E o Latim? Afinal, se a Matemática é a base das ciências exactas, não será o Latim a matemática das línguas, como dizia um conceituado estudioso desta matéria? Nas notícias vindas a público - anula-se, adia-se, altera-se... - faz-se referência à Matemática como uma das matérias cujo ensino deve ser actualizado. Concordo. E o Latim?

Esquecem-se os entendidos que, das altas cátedras donde partem as ideias que abordam o ensino do Português, é na aprendizagem do Latim - mater generosa, cuja influência, quer se queira ou não, se faz sentir em todos os países onde os Romanos deixaram marcas indeléveis da sua cultura e não só - que está o sucesso no estudo do Português? Então, porquê este descarado abandono do Latim nas nossas escolas?

O problema começa nos professores que, mal preparados, não são capazes de demonstrar a utilidade de uma língua que se considera "morta", mas que ainda mexe de tal forma que, em certos cursos, é indispensável, como em Direito e no estudo das línguas indo-europeias.

No ensino secundário, em que as escolas estão limitadas por um orçamento anual, se os alunos inscritos em Latim não forem os necessários para a formação de uma turma (mínimo de sete elementos), não é criada a turma e, consequentemente, não é contratado o professor respectivo, o que representa uma poupança. Assim, o orçamento limita o ensino, neste caso, do Latim. Então, os alunos são forçados a optar por Alemão. Mantém-se o velho problema: se o Português anda maltratado e desprezado e os alunos não captam os conhecimentos necessários para o bom domínio da língua materna, como é possível a aprendizagem de outros idiomas? Que bases adquiriram?

A nossa literatura está repleta de bons escritores, cujas obras reflectem a sua formação clássica. Isto é, pelos bancos das escolas pairava a disciplina de Latim, como ser invisível, mas que deixou marcas na formação dos escritores, poetas e ensaístas. Mesmo nos nossos dias, nota-se a influência do Latim nos textos, na sua estrutura, forma e vocabulário dos autores portugueses, o que denota que, mesmo os cultores modernos, receberam da língua mãe as bases que deram forma ao Português que utilizam nas suas obras.

Se o Latim está desprezado, se o seu ensino não é recuperado, que escritores teremos no futuro? A que fonte irão buscar as bases correctas para um Português correcto? Será ao Alemão, pelo qual muitos estudantes são forçados a optar por culpa de uma legislação ultrapassada, em que é dada mais importância ao dinheiro do que ao ensino? Afinal, não se lê que o ensino devia ser gratuito para todos os cidadãos? Se assim é, então dê-se capacidade de opção aos alunos, respeitando as suas preferências, visto que no País existem de sobra licenciados desempregados capazes de preencherem as turmas de Latim e, apesar de tudo, alunos interessados. Sim, porque, a despeito de todas as "facilidades" e opções, ainda há alunos conscientes das vantagens do Latim, quer a nível de Ciências quer de Letras.

Sejam coerentes todos quantos são responsáveis pelo ensino! Não é na criação de turmas de Latim nas escolas que o orçamento vai tremer ou "ficar de tanga"! De certeza que é a Cultura um factor que muito pode contribuir para o enriquecimento de um povo e para uma maior riqueza de conhecimentos a todos os níveis.

Bem valia mais respeito e "amor" pela nossa língua mãe.

* Professor no Porto

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