Expresso - 20 de AbrilA arrogância autoritária do
vazio
João Carlos Espada
TEM recentemente ocorrido na imprensa nacional um debate curioso e
pouco vulgar entre nós. António Manuel Baptista, professor de Física e
Medicina Nuclear, publicou um livro de crítica às teorias pós-modernas de
Boaventura Sousa Santos (O Discurso Pós-Moderno contra a Ciência, Gradiva,
2002). Nuno Crato entrevistou o autor na «Revista» do EXPRESSO. João César
das Neves elogiou o livro no «Diário de Notícias» e na revista «Nova
Cidadania». Maria Filomena Mónica criticou nas páginas do «Público» a
sociologia de Sousa Santos. Em resposta, uma cascata de artigos veio em
defesa de Sousa Santos.
Até aqui, tudo bem. Num panorama cultural pouco dado a críticas
directas e debates de ideias, é de saudar qualquer confronto intelectual
prolongado. Sobressai, no entanto, um aspecto menos agradável: as
respostas contra António Manuel Baptista são basicamente insultuosas e
evitam tratar os problemas substantivos que ele coloca. Eis uma passagem
de Eduardo Prado Coelho (EPC):
«Quando António Manuel Baptista ler algo mais sobre estas coisas além
de uns artigos em revistas verá que tem de distinguir entre
pós-modernidade, pós-estruturalismo, desconstrucionismo, construcionismo
social, neopragmatismo, multiculturalismo, pós-colonialismo e sociologia
das ciências» («Público», 6 de Abril).
Por outras palavras: o físico António Manuel Baptista criticou as teses
que o sociólogo Sousa Santos tem defendido sobre física e ciências
naturais. Em resposta, os autores das ciências sociais insultam-no por ele
não conhecer os meandros das teorias (alegadamente) sociológicas. Em suma,
só os sociólogos podem falar sobre tudo o que lhes apetecer, mesmo não
tendo nenhuma formação em física. Os físicos, pelo contrário, não podem
falar sobre física, porque os sociólogos acusá-los-ão de não serem
especialistas em... sociologia.
Boaventura Sousa Santos vai, no entanto, mais longe do que EPC. Diz
ele:
«Este escrito e o modo como ele tem sido promovido suscita uma questão
sociológica: porquê agora e desta forma? (...) Suspeito que este escrito
tem menos a ver com uma necessidade súbita (...) do que com o perfume do
poder que está a inebriar uma nova direita sobre a ciência e a educação. É
uma direita temerosa de que as ideias críticas levem os seus filhos à
perdição (...)» (EXPRESSO, «Revista», 23 de Março).
Não nos surpreende esta tirada. Para quem nega a existência de verdade
objectiva e afirma que a ciência é apenas uma construção social, tudo o
que resta num debate de ideias é um choque de interesses de classe
(exactamente o que o velho marxismo pregava sobre ciência burguesa e
ciência proletária - como EPC, num rasgo de lucidez, acertadamente
pressentiu no seu texto no «Público»).
Mas existe uma dificuldade suplementar. Se tudo não passa de pontos de
vista, por que razão haveria Sousa Santos de saber melhor como educar os
filhos dos outros? Tendo negado a existência de verdade e decretado a era
do vazio, Sousa Santos prega em nome de quê? Só resta uma possibilidade:
em nome da arrogância autoritária do vazio.