Expresso - 20 de AbrilNão perder a iniciativa
António Pinto Leite
Uma das provas de que a sociedade civil portuguesa está longe se ser
uma sociedade forte é o silêncio que se fez após as eleições.
Os grandes temas que a sociedade discutiu antes das eleições, as
causas, as ideias, as indignações, os manifestos, como que se apagaram,
desaparecendo como se de inutilidades se tratassem.
O silêncio é arrasador, a sociedade civil calou-se, como se a única
questão portuguesa fosse a questão do défice orçamental.
Pior, o silêncio parece querer dizer que a sociedade passou à cómoda
situação de assistir ao que o Governo vai fazer.
Escolheu-se um «novo Estado», pois bem, o Estado que mude então o que
tem de mudar.
Este silêncio é a medida da nossa passividade. Este esmorecimento é a
medida da nossa dependência. Este alheamento é a medida da nossa
fragilidade.
Foi da sociedade que nasceu o movimento reformador que levou à queda do
anterior governo e à mudança política em Portugal.
Passadas as eleições, deve de novo ser a sociedade a impor ao novo
governo o ritmo das mudanças e não ficar de braços cruzados à espera
daquilo que o Governo faça, ou que o Governo faça o que puder entregue a
si próprio.
No caso presente, o amolecimento dos sectores dinâmicos da sociedade, a
ilusão de que transferiram para o Governo todas as responsabilidades e que
podem ir à sua vida, é uma ilusão fatal.
O Governo tem intenções reformistas mas não reformará grande coisa se
não tiver aliados sociais para as reformas.
Se as resistências às reformas forem excessivas, o Governo terá
hipóteses limitadas de introduzir as mudanças que são necessárias.
A tensão política, que será inevitável, deverá ser, antes de mais, o
reflexo de uma saudável e criadora tensão social, de um conflito de ideias
e de interesses no plano social, entre as forças reformadoras e aquelas
que irão, por motivações corporativas ou por legítima convicção política,
opor-se às mudanças.
Portugal precisa que a sociedade marque a agenda do Governo e o Governo
precisa que a sociedade o ajude a marcar essa agenda.
Para que isto aconteça é crítico que os sectores dinâmicos e
reformadores não percam a iniciativa que hoje detêm.
Seria um erro não prosseguir activamente a luta pela mudança, tal qual
se fez nos meses que antecederam as eleições.
Seria um erro deixar o Governo entregue a si mesmo e às pequenas ou
grandes vicissitudes do dia-a-dia político.
Seria um erro de cálculo imperdoável não compreender a situação de
vantagem que os sectores reformadores hoje têm, com condições talvez
únicas propiciadoras de reformas, mas que essas condições se podem perder
em poucos meses.
Seria um erro de análise não perceber que a luta que em Portugal tem de
ser travada não permite que a sociedade fique de fora, como espectadora,
alheada e dependente dos políticos.
A questão portuguesa do início do milénio é muito mais do que o drama
orçamental. É de reformar que se trata e com uma profundidade que vai ao
ponto de tocar nas mentalidades.
É essencial manter a pressão sobre o sistema político e sobre a própria
sociedade para que as coisas mudem. É essencial criar as melhores
condições para que o Governo reforme, como é sua manifesta intenção.
Não é só o Governo que não pode falhar, somos todos.