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Expresso - 27 de Abril
Temos ministro?
Fernando Madrinha
«Tudo isto a juntar ao compromisso de fazer, até ao fim da legislatura,
os primeiros exames nacionais no 9º ano. E devolver às escolas muitos dos
milhares de professores que estão instalados, com utilidade duvidosa em
muitíssimos casos, na máquina gigantesca do Ministério - essa que Justino
tem de começar por vencer, se quiser ter algum êxito na sua missão.
Veremos com o tempo. Mas se as primeiras impressões valem alguma coisa, há
bons motivos para crer que temos ministro.»
DEPOIS de ter sido uma paixão - ou, segundo a opinião bem menos romântica
do novo ministro, «uma amante caprichosa, daquelas a quem se dá dinheiro
para estarem caladas» -, a Educação é agora encarada como «um dever».
Eis uma perspectiva inovadora que soa até um pouco bizarra à primeira
leitura. Um dever?! Então, o ensino começou por ser um privilégio de
poucos, mesmo ao nível elementar. Tornou-se, lentamente, um bem mais ou
menos generalizado, mas só nos países ricos e desenvolvidos, visto que
ainda hoje o não é numa grande parte do planeta. Há décadas que no-lo
apresentam como um direito pelo qual se torna necessário batalhar. E vem
agora um ministro falar-nos dele como um dever?
Numa entrevista ao «Diário de Notícias», David Justino explica porque
considera que a Educação não é apenas um direito: «O país não pode
prescindir de valorizar o seu capital humano. É uma obrigação de todos, de
cidadania. Não estou disposto a abdicar disso».
Claro que as palavras de um governante em início de mandato vão sempre
muito adiante dos actos que as hão-de sustentar - ou desmentir. Por isso
convém moderar as expectativas. Mas o conceito de Educação como um dever
que obriga ao empenho de todos corresponde a um passo de gigante, impondo
uma autêntica revolução de mentalidades nos mais diversos pontos do
sistema e do processo educativo - desde o poder político aos diversos
agentes da comunidade escolar, começando pelos encarregados de educação, e
à sociedade no seu conjunto. Seguramente, não é coisa para uma geração. E
pode parecer até ambição demasiada num país que se afigura impreparado
para apreender todas as implicações da mensagem do novo ministro. Mas é,
no plano doutrinário, uma ambição salutar.
A entrevista de David Justino não traz, porém, um mero enunciado de teses
ou princípios teóricos. Bem pelo contrário, vem recheada de promessas de
pequenos passos - e não de mais uma grande Reforma, o que já seria mau
sinal - que prenunciam uma nova atitude e justificam algum optimismo.
Declara-se empenhado em mudar a filosofia de um sistema que prevê uma
escolaridade obrigatória de nove anos, mas no qual a frequência é
facultativa, visto que os alunos não reprovam por faltas. Promete medidas
para responsabilizar as famílias - é grande a curiosidade de saber como o
fará em concreto -, lembrando que o abandono escolar é ilegal e que
existem até penalizações previstas para os pais que o consintam ou o
promovam. Proclama a intenção de não permitir que os alunos transitem de
um ano para outro reprovados a mais do que duas disciplinas, só para
melhorar as estatísticas no ensino obrigatório e adiar para os anos
seguintes os «chumbos» inevitáveis. Propõe-se reforçar a autoridade dos
professores e libertá-los dos procedimentos burocráticos impostos por um
regulamento disciplinar ineficaz, que transforma os docentes em
funcionários judiciais e promove a indisciplina, visto que os desacredita
perante pais e alunos, como aqui se referiu mais de uma vez nos últimos
anos.
Tudo isto a juntar ao compromisso de fazer, até ao fim da legislatura, os
primeiros exames nacionais no 9º ano. E devolver às escolas muitos dos
milhares de professores que estão instalados, com utilidade duvidosa em
muitíssimos casos, na máquina gigantesca do Ministério - essa que Justino
tem de começar por vencer, se quiser ter algum êxito na sua missão.
Veremos com o tempo. Mas se as primeiras impressões valem alguma coisa, há
bons motivos para crer que temos ministro.
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