Expresso - 27 de Abril

Ar fresco na Educação

Henrique Monteiro

«Um bom conjunto de ideias, como o que apresentou David Justino, não faz obrigatoriamente um bom ministro, mas podemos, ao menos, ter a legítima esperança de estarmos no bom caminho: o caminho de contrariar preconceitos e 'vacas sagradas' do Ministério da 5 de Outubro.»

SEMPRE que um novo ministro da Educação toma posse, nasce uma esperança. Uma esperança, ainda que ténue, na alteração radical daquilo que tem sido o Ministério da Educação nas últimas décadas, independentemente do Governo ou do ministro que o geriu.

As primeiras declarações públicas de David Justino reforçam essa esperança. O novo responsável pela Educação disse, de facto, meia dúzia de coisas que, a serem aplicadas, não deixarão de ser importantes melhorias no sistema. Desde logo, falou na autoridade nas escolas, na autoridade dos professores, palavra e conceito que é preciso reintroduzir no léxico educativo. Depois, defendeu que não é necessária tanta especialização no ensino secundário - e menos ainda no básico, como é óbvio -, o que parece do mais elementar bom senso. Disse ainda que não é a brincar que se aprende, mas a trabalhar, coisa que poderá arrepiar os cabelos a certos pedagogos que têm a mania que são modernos, mas que fica demonstrada pelo grau de insucesso escolar em que somos praticamente recordistas (além de que, como frisou o ministro, não é a brincar que se cria a necessária responsabilidade e ética do trabalho que serão necessários no futuro dos nossos jovens). Defendeu também a salutar concorrência entre o ensino público e privado e a transparência na avaliação da prestação das escolas, o que é, sem dúvida, essencial. Ousou, ainda - porque se trata de ousadia, se tivermos em conta o paradigma educativo português - o reforço da cultura científica nas escolas, ilustrando o que quer dizer com uma frase bem a propósito: «dois mais dois são quatro e não podem ser mais ou menos». E fez ainda o diagnóstico correcto da doença que nos conduziu ao actual estado de coisas - não atacando pessoas ou ministros anteriores - mas sim o conjunto de ideias que tem servido de suporte à desgraça da nossa educação.

Disse David Justino que as ideias relativistas e pós-modernas que se infiltraram nos programas escolares são, em boa parte, responsáveis pela inexistência de autoridade, de espírito de trabalho ou de cultura científica em muitas escolas de Portugal.

E, de facto, se persistirmos, em conjunção com algumas teorias pretensamente inovadoras das ciências da educação (por sua vez influenciadas por uma sociologia bacoca), em afirmar, por exemplo, que todos os saberes se equivalem, que tudo resulta de construções sociais, que não pode haver uma escala de valores definível, chegamos rapidamente à bambochata em que se tornou a educação. É um conjunto de ideias que mina a autoridade, que destrói a melhor tradição do conhecimento e que - em última instância - cria gerações de analfabetos sem referências nem valores.

É claro que um bom conjunto de ideias, como o que apresentou David Justino, não faz obrigatoriamente um bom ministro, mas podemos, ao menos, ter a legítima esperança de estarmos no bom caminho: o caminho de contrariar preconceitos e «vacas sagradas» do Ministério da 5 de Outubro.

Embora, em boa verdade, se tenha de fazer um alerta. É que já vários ministros tentaram derrotar o «monstro» do Ministério da Educação, embora nenhum o tenha conseguido (por falta de tempo, de paciência ou de talento). Esperemos que ao novo ministro nada disto falte.

E-mail: hmonteiro@mail.expresso.pt

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