Portugal Diário - 23 de AbrilPequenos e violentos
Patrícia Pires
Casos extremos de crianças que batem em colegas e nos professores. A
culpa começa em casa
Catarina é professora e na sua escola estuda uma menina problemática de
sete anos. É um caso extremo de insucesso e indisciplina. Agride
indiscriminadamente os colegas de escola e já deu um estalo à professora.
A menina tem uma vítima preferida, um rapaz do pré-escolar de quem
Catarina é professora. A mãe deste menino resolveu outro dia dar um
conselho ao filho. Deu-lhe uma pedra da calçada. «Quando ela te bater
dás-lhe com a pedra na cabeça», disse ao filho. «Como ele não tem
consciência do mal, quando me viu contou-me o seu plano perfeito», diz
Catarina, que logo tirou a pedra da mala do seu aluno e lhe explicou que
aquela seria uma atitude errada.
Há duas razões principais para o insucesso e a indisciplina na escola:
desequilíbrio emocional e programa escolar demasiado abstracto.
Susana Celestino é psicóloga e quase todos os seus pacientes são jovens
ou crianças com insucesso escolar e mau comportamento. Chegam a si
encaminhados pelas escolas e até através dos próprios pais.
A sua experiência diz-lhe que «a principal causa destes fenómenos é a
desorganização emocional das crianças, embora considere que os programas
escolares também pesam muito. As matérias são dadas de uma maneira que
está muito longe da realidade concreta dos alunos, o que não motiva o
aluno à aprendizagem», conta-nos Susana Celestino.
Para mostrar como o programa escolar pode ser melhorado, a psicóloga dá
um exemplo: «Conheço duas crianças que não conseguiam aprender as
simetrias. O professor perguntou-lhes com o que é que gostavam de brincar.
Ao que elas responderam: Barbie. O professor construiu uma casinha com as
crianças e através de uma manta de retalhos na cama das bonecas ensinou as
simetrias. Foi ao encontro da realidade delas, que nunca mais tiveram
problemas com aquela matéria».
Se para o programa escolar a psicóloga chama a atenção para o seu lado
demasiado abstracto, os problemas emocionais são mais complexos. «Estão,
quase sempre, relacionados com o ambiente familiar. Hoje em dia existe uma
falta de estimulação emocional que vai provocar falta de estimulação
cognitiva», explica.
Sociedade de consumo
A pressão da sociedade actual também tem a sua quota parte de culpa.
«Pais stressados com o dia-a-dia, trabalhar para ter cada vez mais
dinheiro, etc. Tudo isto, torna os pais menos disponíveis para a relação
com os filhos», justifica Susana Celestino.