Portugal Diário - 23 de Abril

Mostrar quem manda

Patrícia Pires

Falta de regras e respeito. O mal de muitos jovens em Portugal

Para Susana Celestino os extremos são perigosos: «Demasiada exigência cria elevados níveis de ansiedade que se reflectem nas prestações escolares. Enquanto o facilitismo, sem regras nem limites, cria um enorme vazio e desinteresse pelas coisas».

«Nas minhas consultas quase todos os casos se relacionam com crianças mal comportadas, as denominadas desafiantes-opositoras. Quando percebem que a escola mexe com os pais, não há desafio melhor do que ter problemas na escola», alerta.

Estas situações não são fáceis, mas Susana Celestino deixa uma sugestão para pais e professores: «Só se diz uma vez, na segunda já se mostra como é. Por exemplo, se o Pedro está a atirar papelinhos aos colegas com uma caneta, faz-se um primeiro aviso para estar quieto. Se o Pedro continua, vai-se ao pé dele e tira-se o brinquedo. Com calma e a bem porque o ar zangado não ajuda nada e cristaliza a atitude do desafiante-opositor. Claro que isto não resulta à primeira, é preciso repetir, mas com o tempo a mensagem é apreendida. As crianças acabam por perceber quem é que manda. Mesmo que a criança acabe por acalmar é necessário um acompanhamento psicológico».

«Os miúdos não conhecem limites nem autoridade. Se em casa não o fazem, como podem esperar que a reconheçam fora de casa? O mau comportamento está sempre associado a este desconhecimento de autoridade». Para a psicóloga tudo é aprendido e faz uma comparação: «Ninguém aprende a falar sozinho. Quando uma criança pega num objecto é preciso que alguém identifique o mesmo com um nome. É assim que nascem os símbolos».

As crianças não estão mais «burras» diz-nos a clínica e aponta exemplos. «Quando uma criança chega a um consultório realizam-se exames emocionais e cognitivos. Nenhum tem problemas cognitivos, ou seja, não se pode afirmar que as crianças tenham incapacidade para aprender. Até porque há miúdos, filhos de pais exigentes, que são estudiosos mas que devido à ansiedade bloqueiam nos testes», termina a psicóloga.

Uma relação de confiança

Sofia (nome fictício) tem 30 anos e durante um tempo foi professora de português no Liceu Francês. Numa das turmas teve problemas com um aluno de 11 anos. Marco (nome fictício) mostrou, desde cedo, a Sofia que queria ser ele a mandar dentro da sala e fazia-lhe «a vida negra».

Sem alternativa, a professora acabou por expulsá-lo da aula. O que Sofia não esperava era que Marco não quisesse sair da sala. Mesmo apanhada de surpresa foi à sua carteira e pegou-lhe no braço. Usou alguma força, mas levou-o até à porta.

Repetiu o gesto até Marco aprender a sair quando mandava e até ficar mais calmo. No intervalo brincava com ele e conquistou o seu respeito.

Susana Celestino, pensa que Sofia teve uma atitude correcta, até mesmo quando usou contacto físico, sem agressão. Todavia acrescenta que a professora devia ter falado com os pais para que Marco fizesse psicoterapia.

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