Portugal Diário - 23 de Abril

Nota 20, sempre

Luísa Melo e Raquel Costa Pinto

Quem são, e como são, as mentes brilhantes que estudam por prazer. E como lidam com a inveja nas escolas

São alunos de 18, 19 e 20 valores. E nem sempre porque precisam das médias, é apenas por prazer, porque se sentem realizados. O PortugalDiário foi conhecer alguns destes «bons alunos», perceber como chegam lá e como lidam com alguma inveja e com o facto de os colegas lhes chamarem «graxistas».

A Mafalda tem 18 anos e frequenta o 12º ano da área de Humanidades num escola de Gaia. Tem média de 19 nos 10º e 11º anos e espera obter o mesmo este ano. Sabe o que é ter nota vinte a algumas disciplinas e a explicação que dá para estes resultados é «a realização pessoal», até porque não vai precisar de médias tão elevadas para entrar no curso de Português/Inglês.

Estuda porque gosta «de ter boas notas e de aprender», mesmo que isso signifique «muito estudo, muitos fins-de-semana perdidos e renunciar a algumas coisas». Mas nos tempos livres e nas férias, Mafalda gosta de fazer tudo o que os outros fazem: «Ir à praia, ao cinema, estar com os amigos».

Apesar de se considerar igual aos outros, Mafalda sente-se, «por vezes, diferente, um bocado marginalizada». Porquê? «Porque os meus colegas são mais ou menos fracos e tendem a criticar-me sem me conhecerem. A minha táctica é estudar para os testes e, no final do período, peço a nota que acho que mereço, mas eles não, pedem a nota porque precisam do dez ou por causa da média».

Idêntica situação vivem as duas melhores alunas de uma escola de Vizela. A situação é relatada ao PortugalDiário pelo psicólogo daquele estabelecimento de ensino, Nélson Lima, que explica que as duas raparigas, de 14 e 15 anos, «sentem-se marginalizadas porque estão sempre a dizer-lhes que estão a dar graxa aos professores. O rapazes não se importam, mas as colegas viram-lhes as costas e insultam-nas».

Este psicólogo recorda ainda o caso de uma menina de 11 anos, excelente aluna, que teve de deixar a escola que frequentava, em Vagos, porque era insultada e as colegas chegavam a atirar-lhe terra.

Mas nem todos os casos de excelência nos estudos têm um lado tão negativo. Cristina Pinto tem 17 anos e frequenta o 11º ano da área de Economia, na escola Garcia de Orta. Sente que algumas colegas têm inveja, mas dedica grande parte do seu tempo ao estudo unicamente por prazer: «Gosto imenso de estudar porque me sinto realizada quando tiro boas notas». Daí a média de 19 valores, que nem é necessária para entrar no curso de Gestão.

Cristina vai sempre às aulas, porque considera isso fundamental, é muito disciplinada no tempo que dedica aos estudos, e na matemática faz por estar sempre à frente da matéria, mas isso não implica deixar de sair com os amigos, ir ao cinema, pintar ou namorar.

Raquel Cunha é outro exemplo de como se pode ser óptimo aluno sem serem necessárias privações. Estuda na escola Aurélia de Sousa, no Porto, e é a melhor aluna da área de Economia. «Nunca falto às aulas porque assim estudo menos em casa. Mas não alterei o meu ritmo de estudo desde o 9º ano, habituei-me a estudar e faço-o por prazer».

Esta estudante tem uma vida perfeitamente normal: sai com as amigas, com o namorado, frequenta discotecas e, mesmo assim, sobra-lhe tempo para tirar bons resultados.

Tirar o curso de Medicina é um objectivo mais ambicioso e, esse sim, implica mesmo tirar boas notas. Raquel Pereira, que frequenta o 12º ano na escola Aurélia de Sousa, sabe disso e pretende, por isso, subir a actual média de 19,1 valores.

Ainda assim, garante, não estuda todos os dias. «Uma semana antes dos testes fico em casa e estudo bastante nessas alturas. Não o faço por prazer, mas porque me mentalizo que tenho de estudar. É claro que se pudesse fazia outras coisas, mas sinto-me bem por adquirir conhecimentos», explicou Raquel, acrescentando que tem quatro tardes livres, o que lhe permite conviver com as amigas, estar com o namorado, ir ao cinema e ir a discotecas todas as sextas-feiras à noite.

Para a psicóloga, infelizmente «há famílias que não passam tempo nenhum com os filhos. Mesmo quando estão em casa, as crianças ou estão agarradas ao computador ou a ver televisão. O que por si só já potencializa a desorganização emocional».

Como se não bastasse a falta de relação familiar, existe a falta de limites, tal como nos conta Susana Celestino. «Aqui há uns bons anos, talvez na década de 60/70, saiu imensa literatura sobre a necessidade de não se traumatizar os miúdos. Isto foi caótico pela ideia que transmitiu de que não se deve frustrar as crianças. Defendiam que quando se dizia não, era preciso explicar o porquê».

«Isto é um conceito completamente errado», diz e para que não fiquem dúvidas explica: «Para que uma criança interiorize limites e reconheça autoridade tem de frustrar. Vamos imaginar uma criança pequena que não pode fazer determinada coisa. Se o adulto lhe explicar porquê, a criança não frustra, porque vai perceber porque não pode fazer. Retira-se a capacidade de reflectir sobre a questão e tirar algo positivo daí. Se dissermos não (ou só "porque não" ou "porque quero assim") a criança frustra e ganha capacidade de se distanciar das situações e sozinha perceber o que se passou».

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