Público - 27 de Abril

Nascituros de Todo o País, Organizai-vos!
Por ANTÓNIO SILVA

Um dos aspectos que mais impressiona os alunos no estudo da sociedade medieval é a desigualdade natural entre as ordens que determinava a isenção fiscal dos privilegiados em contraste, hoje escandaloso, com as pesadas obrigações a que estavam sujeitas as classes populares. À medida que se explica cada um dos tributos, aumenta a indignação: a fossadeira, as portagens e outros direitos de passagem, a sisa, a terrível dízima, corveias, jugada, alcavalas, fintas, etc. Os alunos sentem-se gratificados por viverem hoje numa sociedade diferente. Concedo-lhes alguns minutos de satisfação, após o que introduzo o rol de obrigações fiscais a que, não tarda, estarão sujeitos: o IRS, o IVA, a sisa, taxas e emolumentos, portagens, imposto de circulação e o IA, contribuição autárquica, sucessório, etc. E nem lhes dou tempo para se recomporem. A seguir, lembro, não as isenções, mas as evasões: os profissionais liberais que pagam, em média, quantias irrisórias, bancos que não pagam ou pagam pouco, profissionais de desgaste rápido e jipes para passear Fifis, construtores que apresentam défices sucessivos sem abrir falência, colunáveis que declaram o salário mínimo que mal chega para o Cohiba com que aparecem fotografados nas revistas mundanas, a corrupção instalada ao mais alto nível, etc. Eles indignam-se e, às vezes, desabafam:

- Mais vale ir nascer a outro lado!

Pode haver quem discorde mas, para mim, isto é formação cívica. Os cidadãos apercebem-se, cada vez mais cedo, que o Estado não pode ser uma entidade estranha à Nação de onde deveria emanar, para que não se refiram ao Estado com o pronome "eles", tal e qual os plebeus se referiam aos senhores medievais. Se não, antevejo problemas. É que, como dizia o outro, Portugal dá vontade de morrer. Não tarda, recusam-se a nascer. Já há uma vanguarda esclarecida que abre os olhos antes de ser dada à luz e só a ferros vem ao Mundo, vítima de invasão abusiva do espaço "domiciliário", sem mandado judicial sequer. Basta que, numa terminologia um bocadinho ultrapassada, os nascituros adquiram consciência de classe e já estou a imaginar o caos nas maternidades, com os predestinados à nacionalidade portuguesa a recusarem um estatuto que não escolheram e a defenderem com unhas e sem dentes um direito que é deles, fincando os pés na ombreira, recusando-se a sair:

- Para aí não vou! Não saio, não vou e não saio! Prontos!

E ninguém os pode obrigar a ser o sustento da plutocracia reinante.

Professor

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