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Público - 28 de Abril
Alunos Universitários Saem Mais Caros à Família do Que ao Estado
Por ANDREIA SANCHES
Um investigador fez as contas ao que o Estado gasta com cada universitário
e chegou à conclusão que, afinal, as famílias é que são os principais
financiadores do sistema. "Afirmar a gratuitidade deste nível de ensino
constitui uma informação falaciosa, que corporiza um evidente logro de que
os indivíduos são alvo", escreve Belmiro Cabrito.
Quase 700 euros por mês (perto de 8300 por ano) é quanto o Estado gasta,
aproximadamente, com um aluno de Medicina do Instituto de Ciências
Biomédicas Abel Salazar (ICBAS), no Porto. Isto tendo em conta apenas as
despesas de funcionamento da instituição relativas a 1994/95. Já a família
dos aspirantes a médicos precisa de desembolsar quase um salário mínimo
para suportar desde os livros à alimentação, vestuário e outras despesas
inerentes à "condição" do filho estudante: cerca de 289 euros é quanto os
jovens do ICBAS dizem precisar, por mês.
No caso de um curso de Ciências Sociais, no Instituto Superior de Ciências
Sociais e Políticas, em Lisboa, o Estado despende com cada aluno cerca de
80 euros por mês. Mas os jovens que escolhem esta via saem quase tão caros
ao orçamento familiar quanto os estudantes de Medicina: 274 euros mensais.
Os cálculos foram feitos por Belmiro Cabrito, docente e investigador da
Faculdade de Psicologia e Ciências da Educação da Universidade de Lisboa.
Num livro agora editado - "O Financiamento do Ensino Superior", edição da
Educa - que tem como base uma tese de doutoramento defendida em 2000,
Cabrito chega à conclusão que o Estado tem um papel menor no financiamento
das universidades, "assumindo os estudantes e familiares, em geral, o
papel principal". "Afirmar a gratuitidade deste nível de ensino, cometendo
ao Estado o papel de 'grande' financiador das universidades constitui uma
informação falaciosa, que corporiza um evidente logro de que os indivíduos
são alvo", escreve. Mais um exemplo: um aluno de Arquitectura gasta entre
325 e 350 euros por mês. Para receber esse aluno, a universidade precisa,
em média, de pouco mais de 200 euros mensais.
Este trabalho tem duas particularidades. A primeira é que, com base nos
orçamentos de funcionamento das universidades públicas em 1994/95, calcula
o custo médio por aluno e por curso, ou seja, tenta responder à pergunta:
quanto gasta o Estado com cada universitário?
A segunda particularidade do estudo é que, a partir de um inquérito
nacional a uma amostra representativa dos alunos, constituída por mais de
2000 jovens, Cabrito procurou calcular o "financiamento privado" do
superior, ou seja, os custos de frequência suportados pelas famílias.
"Para mim, e para muitos autores, despesas de educação é tudo o que se
gasta para que um aluno frequente a faculdade e não só o que o Estado
gasta". Em Portugal, sublinha, são sobretudo as famílias que suportam os
estudos dos filhos. As bolsas de estudo são baixas (rondam, em média, os
21,5 euros per capita/ mês) e dificilmente garantem "uma melhoria
substancial da disponibilidade financeira dos estudantes universitários".
Já no que diz respeito às despesas privadas, os gastos variam entre os 214
euros em média de um aluno da Universidade do Minho e os 354 de um aluno
da Universidade de Évora. Contudo, há como que um "núcleo duro" de
despesas, que não difere muito de estudante para estudante e que inclui a
alimentação, livros e materiais. Custos que para alguns serão difíceis de
suportar.
Segundo Cabrito, as despesas que as famílias têm de assegurar para terem
um filho a estudar chegam a representar "mais de um quarto do rendimento
líquido mensal do agregado familiar". Vejam-se as respostas dos
inquéritos: para os "operários agrícolas", o diploma superior do filho
pode levar cerca 46 por cento do orçamento mensal. Para a "burguesia
dirigente e profissional" representa, em média, 17 por cento do orçamento
familiar do mês.
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