Público - 17 Abr
08
O estado da governação
António Bagão Félix
O actual Governo exibe uma mistura de pragmatismo
despido de ideologia com oportunismo
A política no nosso país, entendida na perspectiva
weberiana de produção do poder, revela-se cada vez
mais como uma mistura de pragmatismo despido de
ideologia e de um oportunismo e tacticismo onde já
não há lugar para a ética da convicção. Não admira,
pois, que se ouça e diga, com uma inacreditável
desfaçatez, que promessas ou contratos entre eleitos
e eleitores não passam de um pró-forma sem
significado.
O que vemos repetidamente, como o demonstram os
debates quinzenais com o primeiro-ministro, é o
desbaratar inútil de energias em procurar culpas e
culpados com efeito retroactivo, como se alguém
tivesse neste plano um passado imaculado de erros. O
coração da política deixou de ser a coerência entre
o ser, o pensar, o dizer e o fazer e passou a ser a
sintonia efémera entre o parecer e o aparecer. O
actual Governo tem, aliás, actuado com notável
eficácia neste campo. Um propósito é anunciado
várias vezes. Primeiro anuncia-se que se vai
anunciar. Depois vem o anúncio. Depois o anúncio do
anúncio e assim por diante...
A política de Estado dissipa-se. O Governo já nem o
disfarça. A sociedade parece passiva, se não mesmo
compreensiva. A divergência é para o poder um
desrespeito e uma afronta, enquanto a consonância é
uma virtude recompensada. Os ziguezagues ao sabor
das conveniências e dos humores são, por de mais,
notórios.
Exalta-se o que é privado, mas "nacionalizam-se" os
sentimentos ou os afectos como agora é moda
dizer-se. Fala-se até à exaustão de coesão social,
mas assiste-se a despudoradas desigualdades e a uma
lógica de fragmentação social. Europeízam-se as
desculpas do que corre mal, mas aportuguesam-se os
impostos. Discursa-se pelos pobres, mas subsidia-se
ou apoia-se quem não precisa. Elogia-se a
solidariedade, mas premeia-se o egoísmo.
Fala-se sempre na família, mas combate-se a sua
soberania. Realça-se a educação dos direitos, mas
menospreza-se a educação do carácter e da cultura da
responsabilidade. Quer-se avaliar o professor, mas
retira-se valor aos exames e limita-se a liberdade
de escolher a escola.
Enaltecem-se factos e interesses, mas
desvalorizam-se princípios e relativizam-se valores.
Esfuma-se a respeitabilidade pelo esforço, sabedoria
e experiência, mas acentua-se o prémio da esperteza,
do salamaleque e do arrivismo.
Diabolizam-se receitas extraordinárias para a
correcção do défice das finanças públicas, mas
acha-se correcto fazer aumentos do IVA por três ou
quatro anos que mais não são do que receitas
extraordinárias mais perniciosas para a economia.
Aumentam-se impostos quando dias antes se disse o
contrário e diminui-se um imposto quando dias antes
tal era "leviano e irresponsável". Elogia-se a
redução do défice público, mas ignora-se o maior e
mais preocupante défice da nossa economia que é o
crescente endividamento externo.
Aclama-se o direito da mulher a decidir sobre o seu
corpo e a abortar uma vida nascente, mas acha-se que
essa liberdade do corpo deve ser negada ou
condicionada para um piercing. Diz-se defender a
família e o casamento, mas quer-se transformá-lo num
contrato onde o mais forte dita as regras, certos
deveres são secundarizados, os filhos não contam e
se permite um "simplex" para a sua dissolução, onde
é mais rápido e fácil dissolver o casamento com uma
mulher do que despedir a mulher-a-dias ou terminar
com um contrato de arrendamento.
Define-se o bom objectivo de reduzir o volume da
administração pública, mas fomenta-se o eldorado das
consultadorias pagas a peso de ouro a meia dúzia de
privilegiados respeitosamente consonantes com o
Governo. Proclama-se um choque tecnológico, mas
aposta-se em sectores de fraca produtividade ou de
betão intensivo. Prometem-se empregos e Novas
Oportunidades, mas aumenta o desemprego ou o
subemprego de licenciados e diplomados. Num dia
faz-se o elogio público das parcerias
público-privadas como nas obras públicas, mas noutro
volta-se atrás perante a sentenciada perfídia das
mesmas parcerias, como foi o caso dos hospitais.
Diminui-se com estrondo mediático o preço de
medicamentos, mas reduz-se a comparticipação do
Estado e retiram-se centenas de fármacos da lista de
comparticipação. Criam-se taxas moderadoras para o
que o doente não escolhe (internamentos e
cirurgias), mas faz-se o brilharete de reduzir 1,25
? a taxa moderadora de consultas para certos
estratos demagogicamente escolhidos. Usa-se a
inflação prevista para negociar salários, mas
aplica-se a inflação passada para reduzir pensões.
Entra-se num delírio de impunidade do Fisco
culminado com essa obra-prima de polícia fiscal
sobre os casamentos, ao mesmo tempo que o Estado se
borrifa na ética e na autoridade quando faz
aplicações offshore. Usa-se o argumento do preço do
petróleo para que a gasolina aumente e a receita
fiscal suba em flecha, mas esquece-se a depreciação
do dólar para que ele não aumente. Discursa-se pela
bondade da poupança, mas alteram-se abusivamente as
regras de jogo nos certificados de aforro.
Proclama-se a protecção da natalidade, mas a
Segurança Social paga licenças por aborto
voluntário. Fecham-se maternidades mas abrem-se
unidades de IVG e convenciona-se com clínicas de
aborto. Retiram-se serviços ao interior, mas
investe-se em auto-estradas que trazem as pessoas
mais depressa para o litoral.
Estipula-se o fundamentalismo na proibição de fumar,
mas propõe-se proceder à distribuição gratuita de
seringas nas prisões. Estimula-se o higienismo
fundamentalista da ASAE para o pequeno negócio, mas
abrem-se todas as portas às empresas e empresários
do regime.
Louvam-se até à exaustão o Banco de Portugal, o
Tribunal de Contas, o Eurostat, o provedor de
Justiça, o INE, a Procuradoria-Geral da República
quando convém, para logo se diminuir o seu valor e
se tornarem empecilhos, quando não convém.
Celebra-se a centralidade do papel dos parceiros
sociais quando se alcança um acordo, mas
consideram-se os mesmíssimos parceiros empecilhos e
forças de inércia quando se aventuram a contestar o
Governo. Usa-se virtuosa e piamente qualquer
sintonia com a Igreja, mas se esta critica o
Governo, aqui-d"el-rei, pois que o Estado é laico e
não admite a interferência da religião, assunto
privado de cada um.