Público - 17 Abr
08
Casamento para ricos e pobres
Isilda Pegado
"Eliminar" a culpa do divórcio é eliminar a
responsabilidade com consequências noutras áreas
sociais
O país está a assistir ao debate sobre mais uma das
chamadas questões fracturantes: Família, Casamento e
Divórcio.
O casamento enquanto fonte e forma da relação
estável, entre um homem e uma mulher, com vista à
comunhão de vida, à procriação e educação dos
filhos, não é uma invenção da sociedade ocidental de
inspiração judaico-cristã. Em todos os tempos e
civilizações encontramos formas legais que protegem
esta relação entre homem e mulher. Qual o interesse
da lei, da sociedade que dita normas para, de forma
especial, tutelar o que parece ser uma questão do
foro íntimo de cada um? A resposta é meramente
ideológica ou religiosa?
A conclusão é apenas esta: a sociedade precisa do
casamento e de famílias estáveis. E por isso cria um
corpo de leis que dão aos cidadãos esta informação:
a família é um bem. "A família é o elemento natural
e fundamental da sociedade e tem direito à protecção
desta e do Estado" (Declaração Universal dos
Direitos do Homem).
A família é um bem porque, em primeiro lugar, é a
única célula-base da sociedade que permite
naturalmente fazer organização social, aprendizagem,
subsistência, autoridade e ordem.
Em segundo lugar, a família é um bem porque é
naturalmente o lugar próprio à procriação - e a
sociedade precisa de novas pessoas, de se renovar
para subsistir. É no casamento onde, de uma forma
mais plena de satisfação, emergem novas vidas.
Porque há uma partilha natural de esforços que colhe
protecção social (no casamento), pela estabilidade e
protecção que cada um dos progenitores
reciprocamente dá ao outro e pela economia de meios
que a vida em comum proporciona.
Por isso, uma política de natalidade não tem sentido
se não for simultaneamente "amiga" do casamento. A
procriação resulta mais facilmente do casamento do
que de um subsídio. O casamento gera filhos. O
subsídio não procria. Porém, o primeiro instinto do
indivíduo é o da sobrevivência. É inútil falar de
família se ela for, através do divórcio, um atentado
ao indivíduo e assim destruídos direitos
individuais. "Eliminar" a culpa é eliminar a
responsabilidade com consequências noutras áreas
sociais. A precariedade das relações facilitadas
pelo divórcio, a ausência de uma lei protectora do
património familiar ou um laxismo na regulação do
poder paternal são atentados à família e ao
casamento que, em última instância, no tempo,
afastam o indivíduo desta prática (casar). Alguns
países têm já experimentado legislações que
desvalorizam o casamento. Aquilo a que assistimos,
alguns anos após, é a baixa de natalidade, com
níveis alarmantes que exigem recursos políticos de
enorme esforço financeiro (com pouco sucesso).
Por fim, lembrar que o casamento foi regulado na lei
civil para proteger os mais fracos (as mulheres e os
filhos). Destruir o instituto do casamento é deixar
os mais fracos desprotegidos, sejam eles quem forem.
Os ricos teriam sempre grandes contratos
antenupciais estudados por bons juristas (é o que
vemos em alguns estados dos EUA). Na violação desses
contratos terá sempre de ser apreciada a culpa. Os
pobres, sem culpa, ficam cada vez mais pobres e
desprotegidos. Para os ricos, continuará a haver
culpa e casamento. Os pobres serão cada vez mais
descartáveis. Ex-deputada pelo PSD