Diário de Notícias -
23 Abr
08
Crimes sexuais através da Net estão a aumentar
Filipa Ambrósio de Sousa
'Chats' e 'messenger' são veículos perigosos
Os crimes sexuais de aliciamento e pornografia -
através da Internet estão a crescer em Portugal. A
Polícia Judiciária (PJ) investigou, no ano passado,
67 casos de pornografia infantil via Net.
Dos 561 inquéritos por crimes sexuais que foram
abertos em 2007, que correspondem a mais 23 casos do
que em 2006 e mais 27 do que em 2005, 12% são
relativos a crimes por via cibernética.
O alerta é dado pelo Relatório do Grupo de Prevenção
do Abuso e do Comércio Sexual de Crianças
institucionalizadas, coordenado pela directora do
Departamento de Investigação e Acção Penal (DIAP) de
Lisboa, Maria José Morgado, a pedido do
procurador-geral da República, Pinto Monteiro, em
Novembro de 2007, no rescaldo da suspensão
preventiva de um educador de juventude do Lar Cruz
Filipe, da Casa Pia, devido a indícios de "violação
grave" do dever de protecção das crianças e que
levou a abertura de inquérito.
O documento é assertivo e claro: "A exploração de
crianças através da Internet é um dos maiores
flagelos do nosso tempo." Mesmo na forma como relata
os casos de nove jovens do sexo feminino, na maioria
menores de idade, desaparecidas da casa dos pais - e
cujos desaparecimentos estão associados a contactos
via Internet com estranhos. Os casos relatados no
documento, já foram, entretanto, resolvidos pelos
inspectores da Polícia Judiciária.
Recomendações do relatório
Maria José Morgado alerta no relatório para "uma
tendência crescente para os casos de aliciamento
sexual de crianças e jovens", num universo até aos
18 anos, através de chats ou messenger. E avisa:
"Esta é uma das indústrias criminosas mais
rentáveis, correspondendo a um dos maiores desafios
de sempre."
A equipa nomeada por Pinto Monteiro para analisar a
problemática da pedofilia reconhece que o combate
dos crimes sexuais na Net "é um dos maiores desafios
de sempre, às polícias, magistrados e tribunais". E
admite que uma das maiores dificuldades na
investigação destes casos é a recolha de prova: "O
maior desfasamento do sistema penal."
Neste sentido, e para actuar também de forma
preventiva, a equipa dividiu o trabalho em duas
dimensões: a da agressão sexual chamada de
"tradicional", que está em causa uma proximidade
familiar ou semelhante, e a da agressão sexual
objecto do negócio sexual, na vertente de indústria
criminosa. Sendo que, esta última, tem de ter
"atenção redobrada".
Crimes sexuais triplicaram
Segundo os mesmos dados, os crimes sexuais contra
menores triplicaram em Portugal entre 2002 e 2007.
Por ano, foram contabilizados perto de 1400 casos,
sendo que apenas 3,62% ocorreram com crianças ao
cuidado de instituições. "O número total de crimes
envolvendo crianças menores de cinco anos tem vindo
sempre a aumentar desde 2003 até 2007, num total de
628", dados esses baseados num estudo da Unidade de
Informação da Polícia Judiciária (PJ).
Na altura em que o procurador- -geral da República
designou a equipa, alegou que "é conhecida a
vulnerabilidade a vários níveis de crianças e jovens
em regime de institucionalização e os perigos que
ameaçam o seu livre e são desenvolvimento".
Grande maioria arquivada
Dos 1109 casos de abusos sexuais investigados desde
2001, mais de 80 por cento, o que equivale a 906,
foram arquivados. A 203 agressores foi deduzida
acusação, ainda segundo os dados revelados pelo
Relatório do Grupo de Prevenção do Abuso e do
Comércio Sexual de Crianças institucionalizadas.
Outro dado revelado é que a idade das crianças
vítimas de abusos têm vindo a descer ao longo dos
anos.