5 de Agosto de 2000 - Expresso

A melhor mãe nunca pode ser um bom pai

Fernando Madrinha

SE MAIS nenhum actor for assaltado e houver tranquilidade nas bombas da GALP durante as férias, é possível que só voltemos a ouvir falar de criminalidade e violência quando a luta política aquecer de novo. Ou no dia em que os títulos dos jornais se puserem outra vez a gritar «aqui d'el rei que não param os assaltos e as agressões». Então, sim, vão aparecer três ministros na televisão a sossegar os eleitores a todo o custo, enquanto os líderes da oposição, muito agitados, hão-de tentar inquietá-los ainda mais, procurando, cada um pelo seu lado, colher os melhores frutos da situação. 

Enquanto esse espectáculo não volta aos telejornais, talvez valha a pena atentarmos nesta frase de Ana, 13 anos, citada pelo pedopsiquiatra Pedro Strecht no livro Preciso de ti: «A principal causa de violência é ter pais ausentes na infância». E talvez se justifique reproduzirmos aqui o essencial de um trabalho sobre os efeitos devastadores que tem provocado na sociedade americana a banalização do divórcio ao longo das últimas décadas. Só para não nos surpreendermos tanto com as próximas notícias de assaltos e crimes violentos, especialmente os praticados por jovens. 

Num estudo dedicado à ausência do pai biológico nas famílias americanas, reproduzido pela revista «Nova Cidadania», de João Carlos Espada, o sociólogo David Popenoe observa que 90% dos jovens atingem hoje os 18 anos com ambos os pais vivos. Mas 50% das crianças vivem afastadas do pai. 

Popenoe sustenta que o declínio da paternidade é o grande responsável por muitos problemas da sociedade de hoje: crime e delinquência, sexualidade prematura e nascimentos fora do casamento, deterioração dos resultados escolares, depressão, dependência de drogas e alienação durante a adolescência, crescimento do número de mulheres e crianças na pobreza. 

O primeiro efeito do afastamento do pai é, precisamente, de natureza económica: os recursos financeiros do lar onde a criança fica depois do divórcio baixam automaticamente cerca de 21% por pessoa, enquanto as despesas tendem a aumentar. Do total de pobres que hoje existem na sociedade americana, 38% são crianças. 

Há outras percentagens que dão que pensar. Por coincidência ou não, 60% dos violadores, 72% dos adolescentes assassinos, 70% dos presos com penas longas provêm de lares sem o pai presente. Entre 1960 e 1992, o crime violento juvenil aumentou seis vezes, o suicídio entre os adolescentes triplicou e, de 1983 a 1992, o número de detenções de jovens por homicídio subiu 128%. 

A violência e os abusos sobre crianças também é mais frequente entre aquelas que crescem só com a mãe. Uma em cada seis mulheres que tiveram um padrasto como figura principal da sua infância foram violentadas por ele sexualmente, enquanto essa proporção é de um para quarenta nas mulheres que tiveram o pai biológico como figura principal. Num estudo realizado em S. Francisco, verificou-se que a probabilidade de as filhas serem vítimas de abusos pelos padrastos era pelo menos sete vezes superior à de o serem pelos pais. «A ameaça mais séria para as crianças em lares com um só progenitor», diz o sociólogo americano, «é, provavelmente, o namorado da mãe». 

Inquéritos a vítimas de crimes violentos nos últimos anos indicam, por outro lado, que somente 12,6 em cada mil mulheres casadas foram alvo de violência, enquanto essa relação sobe para 43,9 por mil entre as mulheres que nunca casaram e para 66,5 por mil entre as mulheres divorciadas ou separadas. 

O estudo de David Popenoe assinala outras causas de perturbação na sociedade americana, entre os quais «o aumento do despesismo e do consumismo, a influência da TV e dos 'media', o declínio das religiões, a disponibilidade generalizada de armas e drogas, o enfraquecimento da ordem social e das relações de vizinhança». Mas defende que a ausência do pai na vida das crianças é um dos factores mais importantes da turbulência na sociedade. 

«Se quisermos progredir no sentido de uma sociedade mais justa e humana temos de inverter os cursos dos acontecimentos que estão a separar os pais das suas famílias». Como? É ao poder político, apoiado nos cientistas e nos parceiros sociais, que compete procurar as respostas. 

Ponto assente é que «mesmo as melhores mães não podem ser bons pais», como diz, na mesma edição da revista citada, a investigadora Barbara Whitehead. E isto não é verdade apenas nos Estados Unidos.
 

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