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Rui Rosas da Silva - 3 Ago 04
SINAIS DE
BOA ESPERANÇA: UM VERÃO DIFERENTE NA SERRA DA ESTRELA
Recordo-me de
que, quando na minha já longínqua 4ª Classe, aprendi História de
Portugal, a professora – tão boa senhora como exigente –, ao
falar-nos do momento em que Bartolomeu Dias conseguiu dobrar o que
ele designou por Cabo das Tormentas, no extremo sul do continente
africano, o nome deste cabo foi posteriormente mudado para Cabo da
Boa Esperança. E a razão residia, fundamentalmente, nas melhores
expectativas que a sua passagem dava aos nossos mareantes para
chegarem à Índia através dos oceanos.
Foram em vão,
segundo Camões e, depois, Pessoa, os muitos protestos que o Gigante
Adamastor vociferou quando enxergou os navegantes portugueses. Não
os amedrontou ou fez desistir dos seus desígnios. Teimosamente,
vencendo as ondas e o medo, acabaram por atingir tão almejado
objectivo.
Neste momento,
Portugal não parece fadado a tais empreendimentos, que tiveram o seu
momento histórico, a sua época própria. O país voltou à configuração
geográfica anterior ao início da expansão e dir-se-ia que a sua
imagem é a de um velho reformado. Como escreveu um poeta: Ah!
Portugal, Portugal,/ meu velho país cansado, / teu passado é mar e
sal, / teu presente apenas fado! E depois de várias
considerações, conclui: Que fazer, segues qual senda, /
marinheiro reformado? / Só te resta a tua lenda, / andarilho
extenuado? / Neste presente tão duro, / da mais fosca realidade, /
já pensaste no futuro? / ... Ou só te resta a saudade...?
Um velho
reformado, nas circunstâncias dos nossos dias, é uma sina
melancólica para muitos nacionais. Aguardam o seu fim com pouco
sentido e, muitas vezes, entregues à sua solidão, sem ninguém que
cuide deles, a não ser a alma generosa de muitas instituições,
nomeadamente da Igreja Católica, que se ocupam dos seus tempos e da
sua saúde, os tratam e até os divertem, procurando suprir o que as
suas famílias não podem ou não querem fazer. Alguns deles têm a
sorte de exercer de novo as suas funções de educadores, quando os
netos os cercam e os filhos lhes pedem essa ajuda. Outros, porém, já
nem isso conseguem concretizar, porque com a baixíssima natalidade
lusitana, começam a escassear as crianças e a proliferar os
representantes da terceira idade. Como alguém dizia: “Sobram avós
para a quantidade de netos que nasce”.
Além disso,
com a democratização do divórcio, os conflitos familiares levam
alguns avós a pagar por tabela o desacerto conjugal dos seus
descendentes, pois têm de se sujeitar às decisões dos tribunais. Não
podem ver os netos com naturalidade. Têm de se sujeitar aos períodos
consignados pela justiça para o cônjuge da sua família tutelar os
filhos. Acresce ainda que não é raro que os elementos divorciados da
sua prole voltem a arranjar novas companhias mais ou menos estáveis,
o que provoca nos netos a ideia de que os avós são variáveis e
caducos, além de muito numerosos, pois mudam consoante o pai ou a
mãe trocam de par. Este caos anti-natural gera uma profunda confusão
na mente e nos afectos das crianças, dilui a consciência da
importância dos avós e provoca muitas situações depressivas e
traumáticas.
Se o quadro
português é um pouco negativo, existem, no entanto, sinais
positivos. O “Cabo das Tormentas” das tempestades divorcistas não os
consegue retrair. Vêm das famílias unidas, que não têm medo de ter
filhos.
Não é
verdadeiramente admirável, no actual panorama desta terra, que haja
famílias que se unem para, em conjunto, passarem calmamente com os
seus, no ambiente pacato e arejado da nossa Serra da Estrela, umas
belas férias? Consta-me que, há dias, eram dezassete famílias que
por lá andavam, e, no total, somavam setenta e seis filhos. Estes
participavam com os pais e os restantes companheiros em actividades
diversas, que os ocupavam e distraíam de uma forma sadia e natural.
Deve ter sido – está a ser, tanto quanto eu sei – para todos um
verão diferente.
Iniciativas como esta, se se multiplicam, podem constituir um novo
“Cabo da Boa Esperança” da vida familiar portuguesa, num país onde a
legislação se afigura empenhada em destruir a estabilidade dos lares
e em facilitar, com patológica perseverança, tudo o que desagregue e
dissolva as famílias. Parabéns aos seus organizadores.[anterior] |