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Público - 5 Ago 04
Derrocadas, Rendas e Cultura
Por JOSÉ MANUEL FERNANDES
Os portugueses não gostam de casas velhas. Boas, boas, são as
novinhas em folha, a estrear, para onde se entra sem perder tempo
com pinturas, sem verificar os canos e as instalações eléctricas e
que têm aquele aspecto plastificado que não difere muito de serem
"de luxo" ou de "preços moderados". Os portugueses só gostam de
casas velhas quando são, virtualmente, de borla. Quando podem lá
viver, às vezes sem um mínimo de condições, mas pagando uma renda
que nem dava mandar pintar uma janela ou substituir uma torneira -
obrigações inalienáveis do senhorio, está bem de ver.
Esta cultura impregna o país de alto a baixo. Serve os construtores
civis, que detestam as imprevisíveis obras de recuperação e sabem
que o seu negócio tem margens mirabolantes, as maiores de toda a
Europa. Serve os senhorios mal intencionados, que vão deixando
degradar as casas até que elas venham abaixo por falta de manutenção
ou por assassinato deliberado. Serve muitos inquilinos, que graças
às rendas baixas, puderam cumprir o sonho bem português da "segunda
habitação". E serve até as câmaras que cobram bons impostos pelos
edifícios novos enquanto têm de comparticipar na recuperação dos
antigos.
Os resultados estão à vista. Primeiro, no desordenamento urbano e na
invasão dos espaços rurais mais cobiçados. Depois, na degradação
inevitável dos cascos urbanos antigos que, em muitos casos, chegou a
um ponto que só investimentos públicos incomportáveis permitiriam
recuperá-los.
Os números são, de resto, elucidativos. O investimento em
recuperação de edifícios degradados representa apenas 5,6 por cento
do total do investimento na construção de habitação, o que faz com
que Portugal seja o país da Europa Ocidental que menos investe na
recuperação. Só para ter um termo de comparação, diga-se que na
Suécia metade do dinheiro vai para a requalificação dos edifícios e
em Espanha é esse o destino de 22,6 por cento
do investimento.
Não surpreende por isso que 15 por cento dos nossos alojamentos
necessitem de obras de conservação ou recuperação (800 mil) e que
seis por cento (325 mil) ameacem ruir. Mais: um terço desses
edifícios ficam nas zonas de Lisboa e do Porto e 180 mil estão
devolutos. Por isso, quando cai um prédio como esta semana sucedeu
em Campo de Ourique, a surpresa não é derrocada: é não haver mais
derrocadas.
Nessas alturas olha-se para o Estado e estende-se a mão. Mal:
devia-se antes exigir as medidas de fundo que faltam. Que são
várias. A obsoleta lei das rendas, que ainda não foi liberalizada, é
uma delas. Prometida para o primeiro semestre, está adiada para o
fim de Setembro. Veremos. Mas não chega. É necessário rever também a
tributação do património, algo que está em marcha mas que, suspeito,
não penaliza como devia os proprietários de prédios devolutos que
jogam na especulação. Por fim, é necessário alterar a forma de
financiamento das autarquias e o modo como tributam as novas
habitações e a recuperação das antigas, fazendo a necessária
distinção.
Hoje quase todos ganham por deixar os prédios cair. Só quando todos
perderem se modificará o "novo-riquismo" das casas a estrear e se
optará, até culturalmente, pelo mais racional: recuperar,
reutilizar, requalificar.
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