|
Público - 12 Ago 04
O Desafio da Igualdade
Por NUNO MORAIS SARMENTO
"Mas a hora vem, a hora chegou, em que vocação da mulher se realiza
em plenitude, a hora em que a mulher adquire na cidade uma
influência, um alcance, um poder jamais conseguido até aqui".
Paulo VI, Mensagem dirigida às mulheres, no final do Concílio
Vaticano II, 1963.
Tenho acompanhado com atenção o debate gerado em torno da "Carta aos
Bispos da Igreja Católica sobre a colaboração do homem e da mulher
na Igreja e no Mundo" recentemente publicada, que li com interesse.
Atento a esta temática de uma forma particular, decorrente também
das minhas responsabilidades governativas sobre a promoção da
igualdade entre mulheres e homens, sinto-me compelido a entrar neste
debate, desta forma, porque o considero da maior importância e
oportunidade.
A "Carta" agora divulgada recupera palavras anteriores de Sua
Santidade o Papa João Paulo II sobre este tema, que, se a memória
não me atraiçoa, datam pelo menos de 1988, quando da publicação da
Carta Apostólica "Mulieris Dignitatem", na qual proclama o "génio da
mulher". Palavras que, por outro lado, vão beber às de Paulo VI
acima transcritas e datadas da década de 60.
Por outro lado, recordo a Carta dirigida por João Paulo II a todas
as mulheres participantes na IV Conferência Mundial sobre a Mulher
realizada em Pequim, em 1995, na qual, para além de prestar um justo
tributo às "mulheres que se dedicaram à condição feminina (...) em
épocas em que este seu empenho era considerado um acto de
transgressão" lhes pediu que se empenhassem num "projecto de
promoção, que englobe todos os ânimos da vida feminina, a partir de
uma renovada e universal tomada de consciência da dignidade da
mulher".
Parece-me justo começar por reconhecer a importância crescente e
recorrente que nas últimas décadas a Igreja Católica tem vindo a dar
ao papel das mulheres em todas as esferas da sociedade. Tenho, pois,
uma visão optimista sobre este assunto sem negar, antes confirmar,
que sei também que as dificuldades e os problemas persistem,
incluindo na afirmação das mulheres no seio de uma Igreja que,
enquanto instituição, é ainda claramente masculina.
Não é meu objectivo, porém, entrar na polémica que esta carta fez
surgir. Acompanho-a e reconheço-lhe o interesse e até muitas vezes a
oportunidade, mas nem sempre partilho do tom algo agressivo que,
aqui e ali, é quase utilizado para fazer passar a mensagem daquelas
que se sentem prejudicadas. Sou católico, sou homem e sou um
político com responsabilidades nesta matéria. Afirmo e reafirmo a
minha plena convicção nas vantagens de uma sociedade mais
igualitária. Defendo iguais direitos e iguais oportunidades para
ambos os sexos.
Sinto-me, por isso, à vontade para afirmar que a leitura desta
"Carta aos Bispos..." me lembrou, sobretudo, um hino àquela condição
maior que é exclusiva das mulheres - a maternidade. Porque ela marca
tudo o que às mulheres diz respeito; porque, enquanto não partirmos
deste princípio, estaremos longe de encontrar as soluções adequadas.
Soluções que precisam ser urgentemente encontradas para bem,
sobretudo, das próprias mulheres.
A experiência mostrou-nos que a maternidade não é algo de que as
mulheres queiram abdicar e mesmo quando só no plano das
possibilidades (porque não concretizada por vontade deliberada - uma
opção que não me compete criticar), esta capacidade marca de forma
fundamental toda a sua vida.
Não se apressem a julgar-me por esta convicção assim tão
categoricamente afirmada. Sei bem que a mulher não se reduz a esta
condição, mas vejo-a como sendo de tal forma determinante que
condiciona tudo o mais à sua volta. Por isso considero que esta
premissa deve marcar, cada vez mais, as políticas públicas nesta
área
Ao longo destes pouco mais de dois anos em que mantive contacto
estreito com esta matéria, tanto a nível de diversos organismos
internacionais mas, sobretudo, no acompanhamento muito próximo da
realidade nacional, constatei que persiste uma certa ideia de
igualdade que teima em considerar a mulher como um ser à parte, como
se de uma peça se tratasse.
Esta perspectiva, que receio ainda alimentada por uma certa
"esquerda", insiste em integrar esta área num conjunto de outras,
ditas sociais, que são arremessadas contra o "centro-direita",
recorrendo a um discurso esvaziado de conteúdo que, manifestamente,
já não tem cabimento.
Ora, considero que está na altura de recentrar o discurso da
igualdade nos problemas concretos das mulheres: mulheres rurais,
mulheres idosas, mulheres migrantes, mulheres vítimas de violência,
tráfico e prostituição; das jovens mães precoces, das mulheres
discriminadas em razão da maternidade, das mulheres com baixas
qualificações, das que não conseguem vingar nos partidos políticos
nem aceder a cargos de responsabilidade nas empresas públicas e
privadas, etc. E, sobretudo, sempre, de todas as mulheres-mãe.
Mas, e isto é muito importante, deve centrar-se, também, nos
problemas específicos dos homens, sobretudo deve procurar "atrai-los
e cativá-los como parceiros neste combate pela igualdade do qual
também eles sairão beneficiados, nomeadamente na valorização de uma
paternidade (re)descoberta.
É chegado o tempo em que devemos reequilibrar esta situação. Tal não
foi possível na década de 60, quando, para recuperar as palavras de
Paulo VI, chegara a "hora das mulheres". A hora agora é outra, é a
das mulheres capazes de conciliarem a vida familiar e a vida
profissional. Este é um desafio fascinante para o qual convido todas
as mulheres e todos os homens a participarem. Ministro de Estado e
da Presidência, com a tutela da Comissão da Igualdade para os
Direitos das Mulheres
[anterior] |