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Público - 27 Ago 04
Mais Dinheiro
para a Educação?
O excelente artigo
de Fátima Bonifácio, publicado no PÚBLICO do dia 15 de Agosto
passado, e os comentários que gerou são um sinal de esperança de que
a grave "doença" de que padece o nosso sistema de ensino comece
finalmente a ser encarada sem preconceitos e com realismo. É que
curar uma doença exige, em primeiro lugar, um diagnóstico correcto
dos sintomas; e só a partir de um diagnóstico correcto é possível
determinar a terapêutica que pode levar à cura.
Mostra o artigo de
Fátima Bonifácio que os sintomas são bem conhecidos de todos. O
problema é que o diagnóstico é frequentemente errado e a terapêutica
acaba por nada resolver ou até piorar a doença. Fátima Bonifácio tem
razão quando diz que o fundamental do problema não está na falta de
recursos económicos na educação. O fundamental - como apontam
diversos comentários feitos ao artigo - está na falta de empenho dos
alunos, na desresponsabilização dos pais e no desânimo dos
professores.
É evidente que o
comportamento de qualquer pessoa depende essencialmente das suas
motivações e incentivos ou falta deles, ou seja, em sentido
figurativo, da existência do "pau e da cenoura". Por isso, a
pergunta relevante que nos permite determinar a terapêutica correcta
é a seguinte: o que é que leva os alunos a não terem empenho e
motivação para estudar, os pais a desresponsabilizarem-se pela
educação dos filhos e os professores a sentirem-se frustrados e
progressivamente desinteressados?
Note-se que há
muitos incentivos (ou falta deles) exógenos às escolas que
contribuem para a sua fraca qualidade, mas o que nos interessa
referir neste momento são os que se relacionam directamente com o
sistema educativo propriamente dito. Feito o diagnóstico, a
terapêutica torna-se, então, evidente, se não estivermos sujeitos a
preconceitos ou indisponíveis para aceitarmos a lógica da realidade.
A saber:
- Para os alunos,
com especial evidência no 3º ciclo e no secundário, há uma enorme
inadequação entre o ensino ministrado e as suas necessidades e
desejos. O caso mais grave do que é uma política altamente
prejudicial para o nosso futuro pessoal e colectivo é o dos apoios
financeiros ao alargamento dos cursos nas escolas secundárias (onde
o abandono escolar é assustador), ao mesmo tempo que se amordaçam as
escolas profissionais (onde o abandono é diminuto) e não lhes ser
dado um estatuto de "serviço público de educação" exactamente igual
às escolas secundárias, com os apoios correspondentes.
- Para os pais, o
Estado incentiva a desresponsabilização ao dizer-lhes "para
entregarem os filhos àquela escola, gostem ou não dela, pois não
poderão escolher outra". É urgente "obrigar" os pais e os alunos a
escolherem a escola ou até a optarem por uma nova escola de raiz
quando a oferta existente não servir, sem prejuízo da necessária
prioridade aos alunos da vizinhança e aos irmãos.
- Para os
professores, as ausências de uma autonomia digna desse nome
(pedagógica, curricular e de gestão), de uma avaliação das escolas
focalizada nos "outputs" e não nos "inputs", e de liberdade de os
professores poderem apresentar ofertas educativas alternativas, são
verdadeiros atestados de menoridade passados pelo Estado.
Por outras palavras
e em resumo: a terapêutica correcta é introduzir a concorrência
(real e potencial) entre as escolas, obviamente debaixo da função
reguladora do Estado. É que, quando estão em jogo recursos
económicos, não há liberdade sem concorrência, nem concorrência sem
liberdade, como tão bem explicava Mário Pinto no seu artigo
"Mercado, Sim; Mercado, Não", publicado no PÚBLICO desse mesmo dia
16 de Agosto último. Tem sido este o combate civilizacional do Fórum
para a Liberdade de Educação, por vezes ainda mal percebido,
convidando-o a visitar www.liberdade-educacao.org.
Fernando Adão da
Fonseca
Presidente do Fórum
para a Liberdade de Educação
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