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Público - 29 Ago 04
Aborto, Barcos e 'Agit-prop'
Por ZITA SEABRA
Uma interrupção voluntária da
gravidez, um aborto, é uma das situações mais dramáticas e
solitárias pela qual uma mulher pode passar na sua vida.
A decisão de interromper o ciclo
normal da vida e da gestação não deixa nunca de constituir um drama
indimensionável, um momento de tal desespero e um desespero de tal
dimensão capazes de fazer com que alguém não suporte uma gravidez e
decida interrompê-la, seja em que condições for.
Perante este drama secular, os países
democráticos, assentes num Estado de direito, procuraram aprovar
legislação que dissuadisse e evitasse que, mesmo naquelas situações
limite, esse caminho seja trilhado. Sobretudo que nestes casos
extremos, com que a vida por vezes desafia as pessoas, o trilho não
conduza ao vão de escada e à entrega nos meandros de um negócio que
tem tanto de sórdido como de velho. O quadro legislativo pretendido
pelos estados democráticos procurou apenas interferir no enquadrando
legal de uma grave questão e não no terreno da ética e dos valores.
A demonstrá-lo está o facto de apenas se terem demarcado as
fronteiras, sem chegar nunca a legalizar e banalizar o aborto como
um direito. Em todas as legislações que conheço os médicos, por
exemplo, têm consagrado o direito à objecção de consciência, coisa
que seria absurda se realmente se tratasse de garantir um direito
cívico a cidadãs.
Não conheço igualmente nenhum país em
que se tenha decidido pura e simplesmente - sem estipular condições
- despenalizar o aborto. O que corresponderia em Portugal a
retirá-lo por completo do enquadramento jurídico do Código Penal, em
lugar de abrir excepções legais nas quais se preveja que a mulher
não sofrerá penas de prisão.
Por tudo isto, é profundamente
chocante ver este drama, este último recurso, transformado numa
bandeira de luta, ou remetido banalmente para direito cívico, para
já não falar num execrável acto de agitação e propaganda. Semelhante
atitude é, além do mais, demonstrativa de um profundo desrespeito
pela condição feminina, e por todas as mulheres e homens que fazem
da maternidade e da paternidade um acto livre, responsável e muito,
muito desejado. É um desrespeito por todas aquelas mulheres que,
apesar das condições, das agruras da vida e das brutalidades que por
vezes acontecem, decidem deixar, contra tudo e contra todos,
prosseguir a gravidez que não desejaram, mas que lhes aconteceu.
É pois, uma evidência, que o aborto
não pode, nem deve, numa sociedade desenvolvida e democrática, ser
considerado um direito e ainda menos uma forma de contracepção.
Conheço apenas dois países onde este cenário existiu ou existe
ainda: a União Soviética, onde o aborto era a única forma de
planeamento familiar legal e a China, onde era obrigatório para
todas as mulheres e casais que já tivessem um filho. Como escrevi,
em 1989, uma das principais reivindicações das mulheres na URSS e
nos restantes países socialistas, durante a Perestroika, foi
justamente o acesso a métodos de planeamento familiar que acabassem
com a brutalidade dos abortos sucessivos. Tive mesmo oportunidade de
visitar uma clínica, acompanhada pelo jornalista José Milhazes onde
vi o que nunca imaginei poder ver. Felizmente hoje tal já não
acontece, existem contraceptivos (de toda a espécie) à venda por
todos esses países ex-socialistas.
Na URSS, a inexistência de
contraceptivos chegou a gerar situações tão dramáticas que o PCP
enviava clandestinamente embalagens de contraceptivos para as suas
funcionárias que trabalhavam nos "países do socialismo real". Na
China a situação era ainda pior (melhorou muito pouco infelizmente)
pois as mulheres eram e são, forçadas pelo Estado a abortar. Para
evitar explosões demográficas, o regime comunista desde o tempo de
Mao Tse-Tung definiu que, por lei, cada casal podia ter apenas um
filho. Se engravidarem segunda vez o Estado obriga-as a praticarem
um aborto. Os testemunhos mais dramáticos que li na minha vida foram
- agora que podem falar um bocadinho - os de mulheres chinesas
relatando a forma como escondem gravidezes, como escondem filhos, de
que a lei as obriga a abdicar da forma mais brutal e aviltante que
imaginar se possa.
Digam o que disserem os promotores de
campanhas de 'agit-prop', para uma mulher, uma interrupção
voluntária da gravidez é e será sempre um último recurso, um acto de
desespero, uma situação limite, um drama que lhe marca a vida e a
inunda de sentimentos de culpa.
A questão do aborto colocou-se, pois,
aos países democráticos não como a emergência de um direito mas como
uma necessidade premente de procurar impedir que, perante a
determinação de uma mulher em interromper uma gravidez que não
deseja, não coloque em perigo - dentro de determinadas condições,
que não variam muito nas soluções legislativas - a sua saúde e a sua
vida e não mergulhe nos antros sórdidos do escabroso negócio do
aborto clandestino.
É, porém, evidente que a obrigação do
Estado é, antes do mais, garantir condições legais e sociais para
que a maternidade e a paternidade não se transformem no pesadelo de
como alimentar mais uma boca, ou como deitar mais um filho.
Por outro lado, só com uma enorme
cegueira social se pode ver o Portugal de hoje como idêntico à
realidade dos anos 1960 ou dos anos 1980, no que respeita ao
planeamento familiar. Ouve-se frequentemente falar do aborto num
discurso que remonta há 30 ou 40 anos. Porém, os progressos foram
imensos e o acesso aos métodos de planeamento familiar não têm
qualquer espécie de paralelo.
Nos anos 1980 ir a uma consulta médica
de cuidados primários de saúde constituía a excepção e apenas uma
elite restrita o fazia. Hoje, felizmente, não é assim. Há ainda
franjas de desinformação, idades de risco, e uma grande demissão dos
pais na formação dos filhos, mas é tempo de admitir que a imensa
maiorias das mulheres portuguesas, operárias ou meninas empregadas
dos cabeleireiros, conhecem e sabem muito bem usar o método
contraceptivo que consideram adequado e na maioria dos casos sob
vigilância médica.
A política de um Estado democrático
deve ter como objectivo impedir que alguém recorra ao aborto por
absoluto desconhecimento de alternativas, por desinformação, ou por
uma tradição rural radicada nos desmanchos que as avós faziam.
Eis, porém, que alguns, na ausência de
bandeiras de luta, de reivindicações mobilizadoras tiram da cartola
o aborto como se tratasse de um pilar demarcador entre direita e
esquerda, gerando dois tipos de reacção.
Alguma direita reage com tanto medo de
voltar a parecer reaccionária, marreta, de costas para a História,
com declarações mais progressistas que os progressistas e apressa a
pôr-se "à la page", não vá o diabo tecê-las outra vez. Gato
escaldado... Olhando para o século XX, é fácil perceber, e muitos
têm-no escrito, que a direita teve uma importante vitória ideológica
ao ver consagrada consensualmente a economia de mercado como a
melhor forma de organização das sociedades para garantir a
democracia e o bem-estar social e com essa vitória enterrou as
ideologias de esquerda que se lhe opunham, nomeadamente o comunismo
e mesmo o socialismo democrático, assente na planificação e
estatização dos principais meios de produção mas, pelo outro lado, a
esquerda vencia a direita em matéria de concepção de modelos de
organização social (divórcio, planeamento familiar, divisão dos
papéis tradicionais do homem e da mulher, etc) hoje inquestionáveis,
não só no terreno pessoal de cada cidadão mas na realidade
constitucional e jurídica dos estados democráticos.
Alguma esquerda, na falta de melhores
bandeiras (proletariado já quase não há e a realidade laboral nas
empresas ou na agricultura é radicalmente diferente da anterior)
serve-se do aborto como de uma importante trincheira que resiste.
Assistimos ciclicamente a lutas internas, a declarações e promessas
de candidatos a secretários-gerais, de dirigentes partidários
falando do aborto como se fosse a principal questão para avaliar da
fidelidade à esquerda de um dirigente. E aqui está o aborto
transformado em potencial direito cívico. Ou até em manobra de
diversão como é o caso da vinda do barco holandês. Passa pela cabeça
de alguém imaginar que alguma mulher, mais ou menos jovem, com mais
ou menos dificuldades económicas, se dirige a um barco que é exibido
de forma ostensiva e degradante nas televisões e lá entra para fazer
um aborto em alto mar? Evidentemente que não.
Tanto mais que Portugal tem desde 1985
uma lei aprovada que foi, podemos dizê-lo sem medo, referendada há
três anos pelos portugueses. Convém recordar que nesse momento se
disse sim à legislação existente e não à sua alteração. Em referendo
livre e democrático.
Não se pode deixar de questionar:
porque vem um barco para Portugal e não para a Argélia, ou para a
Arábia Saudita? Ou para vastas zonas do globo onde as mulheres são
casadas à força com quem nunca viram, como acontece ainda em muitos
países islâmicos? Porque não navegam até ao Irão onde bater na
mulher é um direito do seu dono? Uma coisa é certa, encheriam o
barco! Mas falta-lhes a coragem... Não se resiste a perguntar ainda
que razão as impede de salvar mulheres africanas, condenadas à morte
por apedrejamento, acusadas de adultério, e aí sim fazem o que já
Cristo fez há 2 mil anos? Houve no entanto quem fizesse uma campanha
solidária que salvou a vida de Amina, grávida e condenada por um
tribunal a ser apedrejada até morrer.
O drama da interrupção voluntária da
gravidez merece ser tratado com mais respeito e com mais seriedade.
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