Público -
13 Ago
08
"Redução de danos" nas drogas ou a sua promoção?
Manuel Pinto Coelho
A "redução de danos" deve ser um meio para alcançar
um fim, nunca um fim em si mesmo, como acontece em
Portugal
Afirmou o presidente do Instituto da Droga e da
Toxicodependência (IDT), dr. João Goulão, (J.G.) à
revista do semanário Sol: "Fizemos um conjunto de
propostas que apresentámos ao Governo, entre as
quais a da descriminalização dos consumos, com uma
aposta na política de redução de danos." Confirmou o
que já tinha anunciado em 29/1/06 à revista Notícias
Magazine do DN: "Precisamos de dar um novo alento às
intervenções na área da redução de danos que
considero fundamental."
Referia-se J.G. às propostas incluídas na Estratégia
Nacional de Luta contra a Droga (ENLCD) 1999-2004,
posteriormente prolongada até 2012, que ajudou a
elaborar e que, segundo reza o relatório do INA que
a avaliou, resultou numa "estagnação ou agravamento
da situação no que concerne à procura, à oferta e à
reinserção social", traduzida por uma "maior
penetração de consumo de droga (em especial, no meio
mais jovem), menor número de acusados de tráfico,
menos indivíduos em primeiras consultas, mais mortes
associadas a drogas não opiáceas".
Se considerarmos ainda que, segundo o último
relatório do Observatório Europeu da Droga e da
Toxicodependência (OEDT) de 22/11/07, "com 219
mortes de overdose por ano, uma a cada dois dias,
Portugal apresenta um dos piores resultados da União
Europeia e é com a Grécia, a Áustria e a Finlândia,
um dos países que registou um aumento de mais de 30%
em 2005" e que, segundo o mesmo documento,
"Portugal, além de continuar a ser o país com maior
incidência de sida associada ao consumo de droga
injectada, é também o único que registou um aumento
recente, com 36 novos casos estimados por milhão de
habitantes em 2005, quando em 2004 referia apenas
30", pergunto: porquê a teimosia na continuação da
aposta nesta política que privilegia as estratégias
de "redução de danos", em detrimento da prevenção e
tratamento? O que mais terá de acontecer para
mudarmos e seguirmos de uma vez por todas os
ensinamentos e orientações das Nações Unidas?
Como se percebe pelos resultados, a "redução do
dano", da forma deficiente como está a ser
executada, é actualmente a promoção do dano, porque
pede à sociedade para aceitar o uso das drogas,
alegando que elas podem ser utilizadas duma forma
segura e responsável e "ajuda" o toxicodependente a
continuar dependente das drogas. Vide esta deliciosa
citação presente durante cerca de um ano no
dicionário de calão, incluído no sítio do IDT:
"Queimar é aquecer com o isqueiro a heroína ou
cocaína, até fazer a bolha brilhante, cativante e
vaporosa cujo fumo será inalado com a ajuda duma
nota enrolada em tubo."
Eu e o IDT sabemos bem que é muito mais fácil dar a
uma pessoa um remédio do que uma razão para viver,
só que isso é desumano!
A ENLCD sustenta-se e muito bem no humanitarismo, só
que humanitarismo não envolve a facilitação de
ingestão de substâncias tóxicas!
Uma política racional sobre a droga reconhece que o
uso temporário de medidas para reduzir o dano com o
objectivo final da abstinência é fundamentalmente
distinta da política de "redução de danos" à
portuguesa que aceita a inevitabilidade do uso de
drogas.
A "redução de danos" deve ser um meio para alcançar
um fim, nunca um fim em si mesmo, como infelizmente
tem acontecido em Portugal.
A Associação para Um Portugal Livre de Drogas (APLD)
opõe-se a todo o tipo de estratégias que permitam ao
"drogado" manter o seu comportamento aditivo,
destrutivo e compulsivo e que transmitam a mensagem
de que a sociedade tolera que ele use drogas e que
viva uma vida de dependência.
As estratégias ditas de "redução de danos" mal
executadas minam os esforços e mensagens de
prevenção.
É ilógico e desumano proclamar que a dependência de
drogas deve ser mantida em nome da chamada "redução
de danos".
A história, a ciência e a razão dizem-nos que o uso
de drogas pode ser prevenido e que a dependência das
drogas pode ser resolvida e as suas consequências
reduzidas senão eliminadas.
Tais políticas, como diz o Conselho Internacional de
Controlo de Narcóticos (INCB), fomentam o uso das
drogas e são uma violação das Convenções das Nações
Unidas.
A APLD opõe-se à usurpação dos acordos e tratados
multinacionais de que Portugal é signatário e à
substituição do objectivo da prevenção e redução do
uso das drogas por toda e qualquer estratégia de
"redução de danos" que mantenha o toxicodependente
anos a fio num estado de dependência.
Enquanto o nosso país não perceber que só se
conseguirão resultados com medidas apertadas no que
respeita à posse e tráfico de droga, não
avançaremos. Presidente da Associação para Um
Portugal Livre de Drogas (APLD).