Aceprensa -
23 Ago
08
Alemanha: os partidos rivalizam nas medidas de
apoio à família
José Félix Pons Pons de Villanueva
Pela primeira vez desde há muitos anos aumentam os
nascimentos
A política a favor da família aparece como um dos
temas mais importantes em relação às eleições gerais
que se realizarão na Alemanha no próximo ano. Apesar
de ser um dos países mais ricos e que mais investe
na família, a Alemanha obteve poucos resultados até
agora: é um dos Estados com o índice de fecundidade
mais baixo (1,32 filhos por mulher em 2006).
Se quiser continuar a ser um país de alta
produtividade, a Alemanha terá que manter uma
elevada formação profissional e académica. Uma das
medidas que se discutem actualmente é a de facilitar
a imigração de profissionais qualificados, também de
países europeus.
O Governo federal desenvolveu um grande número de
medidas para favorecer a natalidade; também os meios
de comunicação estão a fomentar uma maior aceitação
social das crianças (cfr. Aceprensa 3/08).
Investem-se anualmente 189.000 milhões de euros na
política familiar. Também foi criado um Centro
federal para analisar e avaliar os resultados das
ajudas familiares. E algo começa a mudar. Em 2007
nasceram mais crianças do que no ano anterior, ao
contrário do que acontecia antes em que os
nascimentos diminuíam todos os anos.
Uma das causas desta melhoria é atribuída a que 9,6%
dos pais tenham decidido aceitar a ajuda estatal que
lhes permite passar, pelo menos, dois meses ou mais
em casa ocupando-se do recém-nascido sem ter sérias
desvantagens financeiras. Cerca de 25% dos pais que
aceitam esta ajuda dedicam entre três e onze meses
ao lar e um em cada cinco faz uma paragem na sua
profissão durante um ano. As mães pedem a licença
parental em 86% dos casos.
Empresas favoráveis à família
Cada vez mais, o empresário deverá estar consciente
da repercussão da vida laboral na «saúde familiar»
dos seus empregados. Desde há já dez anos a fundação
Hertie promove a «auditoria familiar» de empresas e
já são mais de 600 as empresas, instituições
públicas e universidades que levaram a cabo esta
auditoria. No período de um ano, 63 empresas tiveram
nova auditoria com o fim de manter a sua capacidade
de apoio familiar aos empregados.
A ministra federal da Família, Ursula von der Leyen,
está muito orgulhosa com os resultados obtidos, como
manifestou à imprensa em finais de Junho: «As
empresas e instituições certificadas mostram como
uma companhia pode ter em consideração a família e
ter êxito económico ao mesmo tempo. Deste modo
marcam uma tendência na economia inovadora. Estou
convencida de que muitas empresas seguirão este
exemplo. Ser favorável às famílias converteu-se numa
marca de reconhecimento para a indústria alemã, já
que cada vez mais chefes de pessoal reconhecem que a
empresa que tem em conta as necessidades dos pais
avança e ultrapassa a concorrência».
Os limites da tutela estatal
Para ampliar a rede de creches, o governo federal
investirá 4.000 milhões de euros até 2013. Em 2007
foram 321.000 as crianças menores de três anos que
tiveram acesso a algum tipo de guarda extra
familiar. A partir de 2013 prevê-se que os pais que
não desejem ou não possam levar os seus filhos a uma
creche recebam uma ajuda mensal do Estado.
Um assunto cada vez mais debatido na Alemanha,
também nos meios de comunicação, são os limites à
tutela estatal. Esta questão é relevante já que se
repercute de um modo indirecto na percepção social
do que é ou do que não é a família.
Durante o ano de 2007, um total de 28.000 crianças,
algumas delas bebés, passaram à tutela parcial ou
total do Estado, já que os pais não são capazes de
se ocupar delas. A Constituição alemã atribui ao
Estado a tutela das crianças no caso em que os seus
pais sejam incapazes de os manter e educar. O
Jugendamt é o serviço que se encarrega em cada
cidade de velar por esta tutela. É habitual que o
Jugendamt vá até à casa onde nasce o sexto ou sétimo
filho para perguntar aos pais se estão conscientes
da sua responsabilidade. Nalguns casos o Jugendamt
pode conseguir, com a ajuda do tribunal, que alguns
filhos passem à tutela estatal.
Já existem dois casos de famílias que recorreram ao
Tribunal Europeu dos Direitos Humanos para defender
o direito de se ocuparem dos seus filhos e obtiveram
uma indemnização de 50.000 euros. Certamente que não
é fácil emitir um juízo definitivo; em qualquer caso
muito depende dos Jugendamt e da habilidade com que
se julga cada caso.
A ajuda económica que as famílias melhor entendem e
que funciona melhor é a dedução fiscal. As propostas
do partido liberal (FDP) para as eleições de 2009
vão muito além das propostas dos Partidos
Democrata-Cristãos (CDU/CSU) ou do Partido
Socialista (SPD): por cada filho, uma dedução fiscal
de 8.000 euros anuais.
Esta via permite que sejam os pais a decidir como se
organizar e tratar das suas necessidades familiares,
em vez de ser o Estado a investir cada vez mais e
com impostos mais elevados em estruturas e redes de
creches.
Quando a ministra Ursula von der Leyen anunciou que
faltavam 700.000 lugares nas creches na Alemanha,
agitou-se o debate público sobre a necessidade da
expansão deste serviço. Há quem, como a jornalista
Eva Herman, autora do «O Princípio de Eva» (cfr.
Aceprensa 62/08), dê razões para mostrar que durante
os primeiros três anos de vida o melhor para a
criança é que seja atendida em sua casa e não numa
creche.
Como diz Daphne de Marneffe no seu livro Maternal
Desire. On Children, Love and the Inner Live: «Todo
o nosso debate sobre as creches nada nos diz sobre a
satisfação dos pais e do filho, e esta é porventura
a única medida do seu êxito. Talvez seja tão difícil
falar sobre a felicidade porque as pessoas têm modos
muito diferentes de ver as coisas».