Público -
30 Ago
08
Não há manuais certificados mas editores garantem
qualidade
Andreia Sanches
Aumento dos preços dos combustíveis também se
reflectiu nos custos de produção dos manuais, diz
Vasco Teixeira da comissão do livro escolar da APEL
A Haverá manuais a tempo e horas nas livrarias. São
mais caros. Mas os aumentos "não são exagerados",
defende Vasco Teixeira, coordenador da comissão do
livro escolar da Associação Portuguesa de Editores e
Livreiros (APEL).
Este ano as famílias estão a sentir aumentos nos
manuais escolares como não se viam há muito. Era
mesmo preciso?
Tivemos vários anos de congelamento de preços.
Depois, os aumentos - que no máximo andam próximos
dos cinco por cento, no 1.º ciclo - têm em conta a
inflação de há um ano atrás, ou seja, são pouco mais
do que a inflação actual. Não são aumentos
exagerados.
Temos ainda que ter noção de que as famílias mais
carenciadas são apoiadas pela acção social escolar e
têm livros gratuitos.
Mas não são só os manuais do 1.º ciclo que sobem
mais do que a inflação. No 2.º ciclo também é
assim...
No 1.º ciclo, estamos a falar de um valor 20 e
poucos euros [o custo total do cabaz de manuais
obrigatórios], o que, dividido por 12 meses, dá
cerca de dois euros por mês; no 2.º ciclo, dá sete
ou oito euros por mês; no 3.º ciclo, dá para aí 12
euros; no secundário serão 14, 15 euros no máximo...
Qualquer pai, a não ser quem vive com os níveis mais
baixos de rendimentos, poderá pagar. E os manuais em
Portugal continuam a ser claramente mais baratos do
que noutros países da Europa. nomeadamente do que na
Espanha.
Que impacto teve o aumento dos preços dos
combustíveis e da energia nas editoras? Vão pedir
para aumentar ainda mais os preços numa próxima
convenção que venha a ser assinada com o Governo?
Os combustíveis aumentaram, a energia também, o
papel... Este ano, produzir um livro custa cerca de
quatro por cento mais do que no ano passado. Mas é
cedo para antecipar o futuro. O que desejo é que não
fiquem acima da inflação, será bom sinal.
Vamos ter manuais a tempos e horas?
Os editores da APEL têm o abastecimento garantido;
96 por cento dos livros estão nas livrarias e alguns
nas mãos dos pais.
Contestou as novas regras de avaliação e
certificação de manuais aprovados pelo Governo. Já
há manuais certificados?
Foi um tema polémico e não deixou de ser. Os
editores cumpriram a sua missão, auto-regulando-se.
Desde 2005, praticamente não há nenhum livro que
seja publicado sem que haja uma revisão científica e
pedagógica, de entidades muito credíveis e
independentes, a pedido das editoras.
Neste momento, estão nas comissões de certificação
nomeadas pelo Ministério da Educação (ME) umas
dezenas de livros. E esses livros serão certificados
no próximo ano. Em Fevereiro de 2010 teremos mais
umas dezenas de livros certificados.
Entretanto, o ME irá criar o processo de
certificação prévia [pretende-se que os livros sejam
certificados antes mesmo de irem para as bancas pela
primeira vez] a introduzir a partir de 2010.
Mas ainda não há nenhum livro à venda certificado?
Não. Não houve tempo. O processo de certificação
prévia é demasiado alongado, complexo, caro, sempre
o criticámos e continuamos a criticar. E o ME acabou
por reconhecer que o processo não era tão simples
porque a própria regulamentação e concretização não
foi fácil, tem-se arrastado no tempo...
Acredita que muitos manuais não vão ser
certificados?
Se houver será sinal de que a certificação está
desregulada do mercado.
Mas confia nos especialistas que estão a fazer a
certificação?
São especialistas que o ME nomeou, não os conheço.
Mas confio nas equipas que consulto e que no
processo de certificação não podem ser encontrados
problemas de maior nos manuais que produzo. E creio
que o mesmo se passa com a generalidade das
editoras.
Mas ainda recentemente o ME divulgou um estudo que
apontava erros nos manuais de Matemática do 9.º ano.
Outro referia que os manuais tinham publicidade
encapotada...
O estudo do Ministério da Educação era sobre manuais
que já tinham sido revistos quando foi divulgado.
Quanto ao estudo que dizia que havia publicidade nos
manuais, é ridículo. Quando se fala em publicidade,
fala-se em promover qualquer coisa a troco de um
benefício - ora que eu saiba isso não existe nos
manuais.
O que existe é que os próprios programas das
disciplinas, como a Matemática, dizem que devem ser
usados exemplos da vida real, o que significa que se
pode falar de cilindros, por exemplo, mostrando uma
lata de Coca-Cola ou Seven-Up. É muito mais
interessante do que limitarmo-nos a mostrar um
sólido que o aluno não associa a nada.