Diário de Notícias -
30 Ago
08
Sobre o aumento dos crimes
José Manageiro
presidente da Direcção Nacional da APG/GNR
Tardam as soluções credíveis para inverter o
sentimento de insegurança, mas a situação em que
Portugal mergulhou, com a evolução preocupante do
aumento da criminalidade particularmente violenta e
organizada, não é surpresa para a APG/GNR.
Quem como nós está atento à realidade do País e à
organização e funcionamento das forças de segurança,
sabe que as dificuldades que estamos a viver
dificilmente poderiam ter outro cenário. O Executivo
desde o início do seu mandato que foi célere em
atingir os profissionais das forças de segurança com
a redução de direitos na assistência na doença, no
alargamento da idade da aposentação, no congelamento
da progressão na carreira e na diminuição dos
salários reais dos polícias. Estas, entre outras,
foram algumas das medidas do Executivo que afectaram
negativamente a motivação de milhares de
profissionais que ao longo de anos têm dado o melhor
de si, em dedicação e empenho, em prol da segurança
dos cidadãos.
Quando a APG/GNR alerta para a situação de escassez
de efectivos e discorda da decisão de interromper o
recrutamento e formação de novos profissionais para
a GNR e para a PSP; quando alerta para o
desinvestimento na área da formação contínua e
permanente; quando alerta para as falhas e
deficiências no armamento e nos meios de protecção
individual, para o estado decrépito das instalações,
ou quando exigimos mais investimento na promoção da
boa imagem e no estatuto das forças de segurança,
sabemos que estamos a contribuir para a necessária
alteração de comportamentos no sentido de compensar
as insuficiências do actual sistema.
O Governo e o MAI não podem desconhecer a actual
realidade das instituições de segurança públicas que
absorvem milhares de agentes em serviços
administrativos e outros, ao mesmo tempo que os
cidadãos reclamam mais policiamento e visibilidade.
Sabendo-se a relação directa entre o agravamento da
situação económica e social, conhecendo-se as
carências e os enormes retrocessos quanto ao modelo
do policiamento preventivo e de proximidade, a
proliferação do mercado ilegal de armas e as
alterações legislativas que libertaram criminosos e
dificultaram a prisão preventiva, encontramos assim
alguns aspectos propícios para justificar o actual
aumento da criminalidade.
Quando a APG/GNR chama a atenção para a gravidade da
decisão política do acentuar da natureza militar da
GNR, é porque está consciente de que essa decisão e
esta concepção são contrárias ao serviço das missões
de policiamento e segurança pública. Os cortes
orçamentais, os atrasos na concretização de medidas
previstas na reestruturação das forças de segurança
com efeitos no dispositivo, o atraso na renovação e
modernização dos equipamentos, o atraso no
cumprimento de promessas da satisfação de condições
para os profissionais exercerem as suas funções com
dignidade, diminuem a confiança dos cidadãos nas
forças de segurança e são factores que adicionam
dificuldades ao combate eficaz à criminalidade.
Sabemos que as causas de natureza social e dos
factores relacionados com a exclusão devem ter
respostas da mesma natureza, mas a APG considera que
o policiamento preventivo e de proximidade e a
necessária repressão ao crime violento são
indispensáveis para alterar a situação e o
sentimento de insegurança com que hoje nos
confrontamos.