Público -
31 Ago
08
O Estado em regressão
Manuel Carvalho
Não é preciso seguir nenhuma cartilha ideológica
para constatar o óbvio: se a esfera de influência do
Estado se está a reduzir, é por causa da sua
natureza macrocéfala e centralista, pelas suas
próprias incompetências, pela sua própria
desorganização
O Estado é incapaz de garantir a segurança na Linha
do Tua através das empresas que tutela. O Estado
declara-se impotente para consumar a cobrança de 330
mil multas de trânsito. O Estado assume os seus
erros e omissões na gestão das florestas públicas e
prepara-se para a concessionar a entidades privadas.
Não é preciso seguir nenhuma cartilha ideológica
para constatar o óbvio: se a esfera de influência do
Estado se está a reduzir, é por causa da sua
natureza macrocéfala e centralista, pelas suas
próprias incompetências, pela sua própria
desorganização. Que o Governo, qualquer governo,
assuma perante os portugueses uma ideia de futuro na
qual o Estado fica reduzido às suas funções de
soberania é uma coisa; levar a cabo este desígnio
por negligência ou incapacidade é outra
completamente diferente. Porque pressupõe um
programa oculto, não sufragado, que não resulta de
um acto consciente mas de erros políticos,
negligência e falta de sentido de dever público.
Que se saiba, as empresas públicas do sector
ferroviário nunca equacionaram o encerramento da
Linha do Tua e chegaram até a investir montantes
consideráveis na sua conservação. Pelo que se
conhece dos balanços de execução do PRACE, o
programa de reestruturação da administração pública
que é (ainda é) uma das bandeiras desta governação,
não houve substanciais reduções nos quadros do
pessoal que integravam a extinta Direcção-Geral de
Viação (DGV). Houve, sim, a concentração de
competências regionais na sede com os resultados que
se conhecem. E, no que ao sector florestal diz
respeito, nada nos garante também que tenha havido
nos últimos 20 anos o despedimento de técnicos ou de
outro pessoal auxiliar capaz de justificar a tese de
que é preciso transferir para os privados a gestão
das matas públicas, até porque Portugal é dos países
europeus com a menor área florestal a seu cargo.
Ao contrário das falhas graves que na Linha do Tua
provocaram a morte de pessoas, não vem mal algum ao
mundo se, de facto, for necessário contratar uma
empresa privada para pôr em ordem as multas da DGV
de modo a suprir a "falta de cuidado" que os
responsáveis políticos revelaram na sua extinção,
como considerou o Tribunal de Contas. E, ao
contrário de alguns receios já manifestados, a
gestão de algumas matas do Estado pode ser delegada
a empresas privadas sem que a sua beleza ou relevo
do ponto de vista da preservação fiquem
comprometidas.
O mal de toda esta história é a suspeita de que tudo
isto acontece por desleixo, que confirma o longo
processo de degradação da qualidade que se observa
em muitos serviços públicos.
No caso particular dos serviços florestais, o caso é
ainda mais grave, porque denuncia o estertor de um
organismo que se destacava pela excelência. Depois
de a sua orgânica ter sido diluída na máquina
burocrática da Agricultura, no ministério de Gomes
da Silva, os seus técnicos trocaram a floresta real
pela floresta dos impressos e da burocracia, e a
degradação iniciou-se. Quando, no final da década
passada, se constatou que as matas públicas estavam
ao abandono e a registar níveis elevados de
incêndios, percebeu-se então que um serviço que
durante décadas tinha prestado enormes préstimos ao
país estava irremediavelmente minado.
Vale a pena perceber-se como é que se chegou até
aqui e reflectir sobre o modo como áreas importantes
do Estado estão a sucumbir à incúria, ao desleixo e
ao défice de liderança e organização.