12 de Dezembro de 2000 - Ecclesia

O que faz falta neste Natal
Pe. José H. Barros de Oliveira, Claretiano, Docente Universitário. 

Natal! Só ouvir a palavra, desperta em nós os mais variados sentimentos. É tempo lindo mas também o dia mais triste para tanta gente. Depende da fé, das condições de saúde física e psicológica pessoais e familiares e de tantos outros factores. Falta ser Natal ao jeito de Jesus.
O que falta neste Natal jubilar? Falta quase tudo. É triste, mas 2000 anos após o nascimento do Verbo de Deus segundo a carne, o mundo, os homens e mesmo os cristãos continuam (semi)pagãos. Porquê? Porque não acolheram pessoa nem puseram em prática a mensagem desse divino Menino. “A luz brilhou nas trevas, mas as trevas não a apreenderam (...) Veio para o que era seu, e os seus não o receberam” (Jo 1,5.11). “Reclinou-o numa manjedoura, porque não havia um lugar para eles na sala” (Lc 2,7). O amor não é amado!, gritava S. Francisco na noite santa.
Natal é festa de Deus, festa do Homem, da família, da mãe, da criança, dos pobres, dos tristes e abandonados. Falta neste Natal amar mais a Deus e ao próximo. Só isso para ser verdadeiramente Natal cristão e não pagão. Falta ver em cada homem a imagem de Deus que se fez Homem, falta dignificar mais a Família que o Senhor veio santificar, falta engrandecer mais a maternidade e as crianças, falta ver em cada ser que sofre física ou moralmente a imagem viva de Jesus.
Natal é festa da intimidade, do silêncio, do renascimento espiritual, da novidade de vida, da alegria, da paz, da justiça e do amor. Faz falta mais interioridade e profundidade de vida, mais silêncio exterior e interior, mais cantares de júbilo. Faz falta que a paz reine finalmente no coração dos homens e entre os povos, que a justiça seja para todos e que o amor finalmente tenha a primeira e a última palavra. Natal é tempo de ser bom, diz o poeta. É tempo de se render a esse Menino que veio assim pequenino para nos conquistar o coração. Quem pode ter medo duma criança? Quem não aceitará a sua mensagem?
Eu sou a Ressurreição e a Vida (Jo 11,25). Faz falta esta Vida em plenitude capaz de vencer a própria morte. Mas continuamos a viver uma “cultura de morte” (aborto, eutanásia, guerras, acidentes na estrada, droga, sida, homicídios, suicídios, pena de morte, morte da Natureza). Busca-se transcender a morte através da reencarnação, crença tão em moda, mesmo entre os cristãos, quando a única solução está na Ressurreição do Senhor que também nos ressuscita com Ele.
Eu sou o Caminho, a Verdade e a Vida (Jo 14,6). Falta esta Orientação fundamental ou esta Bússula, quando os homens, a começar pelos jovens, andam tão desorientados ou desnorteados. Falta esta Verdade pessoal e absoluta, num mundo cheio de mentira existencial e verbal. Falta esta vida entre tantos escombros de morte.
Eu sou a Luz do mundo (Jo 8,12). Falta este clarão, este divino Sol, que há 2000 anos brilhou nas trevas e ainda hoje e sempre é capaz de iluminar e aquecer a todos os que dele se aproximam. Tantas luzes nas cidades, nas igrejas e no pinheiro natalício e o coração do homem às escuras!
Eu sou o Pão da Vida (Jo 6,35). Tanta fome no estômago e no coração, tanta gente, tantas crianças ainda hoje a morrer sem nada para comer, tantos ventres supersaciados mas famintos de amor e de sentido para a vida. Falta distribuir à humanidade faminta esse divino Pão que a todos pode saciar material e espiritualmente.
Eu sou o bom Pastor (Jo 10,11). Tantos falsos pastores, na política, na economia, na cultura ou na religião, tantos a alimentar-se a si mesmos sob pretexto de servir o povo. Falta deixar que este divino Pastor, que deu a vida pelas suas ovelhas, conduza o seu povo às pastagens abundantes que saciam o corpo e a alma.
Eu sou o Alfa e o Ómega, o Primeiro e o Último, o Princípio e o fim (...) Eu sou o Rebento da estirpe de David, a brilhante Estrela da manhã. O Espírito e a Esposa dizem: “Vem”! (...) “Sim, venho muito em breve!” Amen. Vem, Senhor Jesus (Apoc 22,13.16-17.20). Este é o clamor universal da humanidade na aurora de um novo século e de um novo milénio. Imenso bem se fez em Seu nome ao longo de vinte séculos. Sem Ele a humanidade teria perecido. Mas é preciso que os seus discípulos sejam verdadeiramente mais cristãos para que o mundo continue a ser salvo nesta encruzilhada da História.

P. José H. Barros de Oliveira
Claretiano, Docente Universitário
 

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