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5 de Dezembro de 2000 - Público
Dia Internacional do Voluntariado
Um Serviço Que Não É para "Supertias"
Por BÁRBARA WONG
Hoje celebra-se o dia mundial e 2001 será o Ano Internacional do Voluntariado. Por cá ainda há quem confunda o serviço de voluntário com o aparecimento de "supertias" a beijar criancinhas. Mas o voluntariado é feito essencialmente por anónimos. Toma hoje posse a presidente da comissão nacional.
O convite chegou aos 18 anos: depois de ter feito o crisma, o padre perguntou-lhe se queria dar catequese. Carla disse que sim. "Não sabia no que me estava a meter." A catequese passou a consumir-lhe os fins-de-semana. Aos sábados preparava as lições, comprava material didáctico, nas férias aproveitava para fazer acções de formação ou visitas de estudo com o grupo. Mas a sua actividade de voluntariado não se ficou por aqui.
Quando passou a estudar em Lisboa, no início dos anos 90, inscreveu-se no Grupo de Acção Social da Universidade Católica (GASUC) e duas tardes por semana - em furos do horário - visitava crianças doentes no Hospital da Estefânia. Maria do Céu, estudante de Comunicação Social, assim que chegou à Católica inscreveu-se no GASUC: "Estamos na vida para sermos úteis e esta não faz sentido sem ser em partilha."
Na Estefânia, Carla aprendeu a fazer camas com uma dobra especial, "à enfermeira", mudou fraldas e deu de comer a crianças doentes. E ainda tinha tempo para brincar, "dar um carinho" àqueles que não recebiam visitas ou que choravam com dores. "Foi uma experiência única, porque levamos algum calor humano aos que mais precisam", conta Carla.
Maria do Céu trabalhou com doentes em Santa Maria, com ex-reclusos numa associação de apoio a pessoas que estiveram presas e com crianças de bairros de lata. Hoje, trabalha na Biblioteca Nacional e depois do expediente faz voluntariado no serviço de leitura da instituição. "Por vezes ligamos o voluntariado a trabalho directo com pessoas que precisam. Neste serviço, verifico se existem gralhas em textos em braille ou gravo a leitura de livros para cegos."
Carla e Maria do Céu dizem que ainda existem muitos preconceitos em relação ao voluntariado. E tentam desmistificá-los.
Tempo: "Há quem acredite que o trabalho de voluntariado é para gente que não tem nada que fazer, que tem todo o tempo do mundo, mas não é verdade", diz Carla. "É tudo uma questão de organização de prioridades. Nunca me faltou tempo para estudar, sair com os amigos ou estar com a família. O GASUC ocupava-me no mínimo duas horas por semana", reforça Maria do Céu.
Crenças religiosas: "O voluntariado não é para os católicos. Talvez estes tenham obrigação de ter alguma sensibilidade para estas questões, mas conheço muitas pessoas cuja única religião que seguem é acreditarem na humanidade e, por isso, são solidários", afirma Carla.
Estatuto social: "Muitos ouvem a palavra voluntariado e vêem uma 'supertia', 'superloura', cheia de ouros e a beijar criancinhas mal-nutridas. Pensam que é 'bem' trabalhar com crianças ou visitar idosos. É um disparate!", reclama Carla. "Por vezes são pessoas mais mediáticas que dão a cara e fazem passar essa ideia...", justifica Maria do Céu.
E depois existem trabalhos de voluntariado "para todos os gostos". Por exemplo, no GASUC os estudantes universitários têm diversas opções: trabalhar com crianças ou adultos doentes em hospitais, com pessoas que estiveram presas, com outras que vivem em bairros sociais. E até em fazer voluntariado fora de portas, em África. Mas essa experiência Carla não teve, por "falta de coragem". "É preciso ter estômago para fazer tudo, desde a limpeza das latrinas até mudar um penso a um mutilado de guerra. Não era capaz."
Maria do Céu esteve em Angola e na Guiné-Bissau. "Em vez de disponibilizarmos apenas algumas horas da nossa semana, em África damos tudo. Durante dois meses é uma exigência total e mergulhamos de cabeça no dia-a-dia de um bairro de lata, de um hospital ou de um orfanato onde não existem sequer as condições básicas. E a sensação que temos é que estivemos pouco tempo e fizemos muito pouco", lamenta.
O voluntariado em Portugal ainda é muito amador, considera Maria do Céu. Falta formação, não só dos voluntários como dos serviços que os recebem. E lembra que em alguns países europeus os voluntários fazem parte das equipas médicas e que são auscultados quando é preciso tomar alguma decisão em relação a um paciente. "O voluntário é um elemento fundamental, porque a dimensão humana que ele trabalha é tão importante como a científica", conclui.
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