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Diário de Notícias - 26 Dez 03
É gastar, vilanagem!
Paulo de Almeida Sande
Seria fácil ao Governo abrir os cordões à bolsa! Apaziguar a contestação.
Dar razão aos que exigem uma política expansionista. Mas era uma péssim
ideia.
Em 2003, a economia portuguesa vai divergir da europeia pelo segundo ano
consecutivo, com um crescimento negativo na ordem dos 0,8%.
Infelizmente, da crise não parece que resulte uma alteração estrutural da
nossa economia: a despesa pública, controlada mas extremamente rígida, não
diminuiu. Enquanto a procura externa líquida perde peso no produto,
tendência que se vai manter nos próximos anos, a procura interna continua
a ser o principal motor do crescimento, um motor fraquinho (e de poucos
cavalos).
A despesa pública, com uma estrutura estável, permanece consistente e
perigosamente perto dos 50%, o que torna inevitáveis cargas fiscais
elevadas e desencoraja os investimentos.
Os salários têm crescido muito acima da produtividade.
Finalmente, para completar este quadro promissor, a erosão das receitas
fiscais apenas permite manter o défice abaixo dos 3% através do recurso a
receitas extraodinárias (calculadas em cerca de 2% do produto).
Face a este panorama, que todos os economistas conhecem, muitas vozes se
erguem contra a política orçamental do Governo.
Dizem que é demasiado rigorosa, que é responsável pela recessão.
Falta investimento, dizem, considerando inconcebível que Portugal insista
em cumprir aquilo que Chirac e Schroeder já mandaram para o caixote do
lixo.
As vozes contra o excesso de rigor são em geral as mesmas que criticam a
manutenção artificial do défice abaixo dos 3%.
Sem receitas extraordinárias, afirmam, ele seria superior a 5%.
O que nem sequer é mentira.
Mas destes argumentos resulta uma contradição insanável: se o défice real
é superior a 5%, então a política de rigor do Governo não é assim tão
rigorosa.
Que grau de investimento em percentagem do PIB deveria contemplar uma
política expansionista? Que valor do défice evitaria a recessão? Oito?
Nove? Dez por cento?
Como se imagina, por esse caminho chegávamos ainda mais depressa à
catástrofe.
A verdade é que estamos a pagar os excessos de facilidades em períodos de
abastança.
E não é com certeza em plena crise, com forte componente externa, que se
muda o que não foi possível alterar nos períodos de crescimento económico.
Imagine-se a factura de um Orçamento expansionista nesta altura.
Imagine-se que não havia a teimosia dos 3%.
Imagine-se um país «de tanga».
E não é precisa muita imaginação, pois não?
NATAL POP-UP
Estou farto do Natal fast-food. Dos cartões de Boas Festas cheios de renas
cantoras e luzinhas inteligentes. Dos presentes compulsivos, do inferno no
trânsito da cidade sitiada, das boas intenções com prazo.
E estou farto de saber que não serve de nada estar farto.
psande@mail.telepac.pt
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