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Público - 27 Dez 03
Misérias Humanas
Por JOSÉ MANUEL FERNANDES
Dezembro é um mês mau para as crianças, revelou na véspera de Natal Luís
Villas Boas, presidente da Comissão de Acompanhamento da nova Lei da
Adopção: há geralmente mais casos de abandono e de maus-tratos E 2003
também foi um ano mau para as crianças: houve mais violações por pedófilos
e, pela primeira vez em Portugal, apareceram catálogos de crianças para
vender.
A época de Natal também não costuma ser feliz para muitos idosos. Muitas
famílias, contava-se ontem numa reportagem do PÚBLICO, "depositam-nos" -é
o termo - nos hospitais enquanto duram as festas. Assim não incomodam nem
atrapalham. Acontece no Verão, volta a acontecer em Dezembro. Por vezes
com doenças reais, difíceis de tratar em casa. Muitas vezes com doenças
aparentes. Imensas vezes ficando apenas "esquecidos" depois de terem alta
médica.
Em Agosto surpreendemo-nos pelo número de idosos que morreram durante a
vaga de calor em França e cujos corpos ninguém apareceu a reclamar. Agora
surpreendemo-nos quando descobrimos que a Suíça vai adoptar um novo método
para o pagamento das consultas médicas: cobra-se aos cinco minutos, e de
acordo com uma tabela oficial. A tabela não especifica se os cinco minutos
incluem o tempo que os velhos levam, por exemplo, a despir-se para serem
auscultados, ou se tem em conta que muitos idosos só vão aos centros de
saúde porque estão tão sozinhos que precisam apenas de terem alguém com
quem falar.
Mesmo sem chegar a extremos patológicos e criminosos como os de um outro
caso destes dias - o da mãe sueca que tentou cozinhar o seu bebé de cinco
meses no forno -, há um nível de miséria humana em todas estas notícias
altamente perturbador. Miséria moral, pois estamos na Europa rica (na
Europa onde cerca de um terço das crianças dos 7 aos 9 anos sofre de
excesso de peso) e não nos arredores de Nampula, em Moçambique, onde uma
freira tenta em vão combater o tráfico de órgãos humanos retirados de
crianças aliciadas por uma côdea de pão (ver PÚBLICO de quarta-feira).
Miséria ainda mais angustiante porque vivemos a seu lado sem a querer ver.
Ao lermos estas notícias interrogamo-nos como foi possível chegarmos a
estes níveis de desumanidade. O que torna possível não actos de desespero
gerados pelas mais absolutas carências, mas gestos de egoísmo que quebram
todos os laços de solidariedade, mesmo com os que são mais próximos.
Comportamentos de que está ausente a simples ideia de que um dia, uma
hora, um momento, se tem de fazer um sacrifício por alguém.
Eduardo Prado Coelho falava ontem de passagem, a propósito do aumento de
90 por cento no número de divórcios nos últimos dez anos, dos "desmandos
da sociedade em que vivemos". Estes casos são muito mais do que
"desmandos", mas na sua origem talvez esteja um mesmo tipo de atitude
hedonista: o que faz com que o mais importante seja o prazer do momento,
sem olhar ao dia seguinte, sem reparar nos sentimentos alheios, fazendo
gala num discurso onde se recusa a ideia de a vida também implicar
privações e partilhas.
Privações e partilhas como as que também exigem, por exemplo, ter e criar
um filho, algo de que os portugueses se desabituaram quase por completo:
até Setembro passado, informava ontem o "Diário de Notícias", nasceram em
Portugal menos 1375 crianças do que nos nove meses correspondentes de
2002. E só não terão nascido ainda menos porque os imigrantes lá vão tendo
muitos filhos...
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