Fazer previsões sobre o crescimento da
população nas próximas décadas tem sempre uma razoável
margem de erro, mas a maioria dos especialistas em
demografia parece estar de acordo quanto a uma questão:
algures no século XXI o número de habitantes do planeta vai
deixar de crescer, p0ndo fim a uma tendência que se mantém
desde há milhares de anos. Tudo porque a queda da taxa de
natalidade está a aproximá-la, cada vez mais, do limite
mágico das 2,1 crianças por mulher, abaixo do qual não é
possível substituir gerações.
Há alguma forma de contrariar esta
fatalidade? Os políticos dizem que sim, e existe um conjunto
de medidas sociais tomadas nos anos 80 e 90 do século
passado na região do mundo mais afectada pelo problema, a
Europa, que estão a inverter efectivamente a situação em
países como a França, Suécia, Dinamarca, Finlândia, Noruega
ou Islândia.
Na Itália, onde a taxa de natalidade é
uma das mais baixas do mundo - 1,33 crianças por mulher -,
um grupo de deputados dos partidos de esquerda apresentou um
projecto de lei que atribui um subsídio às mulheres que não
abortarem. O apoio abrange apenas as mães solteiras com um
rendimento anual inferior a 25 mil euros (350 euros/mês a
partir do terceiro mês de gravidez) e as desempregadas ou
contratadas a prazo com um rendimento familiar anual
inferior a 40 mil euros (250 euros/mês a partir do sexto mês
de gravidez). A proposta tem o apoio dos partidos de direita
e surge a quatro meses das eleições legislativas, numa
altura em que a Igreja Católica faz pressões para a revisão
da lei de 1978 que legalizou o aborto até ao terceiro mês de
gravidez, o que já levou o Parlamento a aprovar a realização
de um estudo sobre a sua aplicação.
A iniciativa italiana segue-se a uma
outra anunciada pelo Governo francês em Outubro, que atribui
um subsídio mensal de 750 euros aos pais que suspendam a
actividade profissional durante um ano para cuidar de um
terceiro filho. Recorde-se que já havia apoios em França
para o nascimento de um segundo filho, em que um dos membros
do casal podia beneficiar do subsídio mensal de 516 euros
até aos três anos de idade da criança, caso deixasse o
emprego.
Fernando Ribeiro Mendes, professor do
Instituto Superior de Economia e Gestão (ISEG), de Lisboa, e
especialista em Segurança Social, considera que
«uma medida isolada tem uma eficácia muito limitada para
contrariar a queda da taxa de natalidade, porque este
fenómeno está relacionado com a opção por um modelo de vida
em sociedade». O professor, autor do livro
Conspiração Grisalha: Segurança Social, Competitividade e
Gerações, sublinha que em Portugal «a quebra
da fertilidade atinge as mulheres de todas as idades e hoje
está consolidado um comportamento que adia a decisão de ter
filhos para mais tarde, isto é, que encurta o ciclo de vida
fértil das mulheres». O académico defende, por isso,
«uma política que favoreça uma abordagem
integrada do mercado de trabalho, da saúde e das questões
culturais, promovendo a ideia de recuperação da natalidade
adaptada aos valores actuais», como «a paridade
homem-mulher na família em termos profissionais e a elevada
partilha das tarefas de educação dos filhos».
Em todo o caso, é muito difícil voltar às
taxas de natalidade do passado, porque nos países
desenvolvidos há um número significativo de mulheres que não
vai ter filhos por opção, e de casais que só querem ter uma
criança. «O investimento afectivo num só filho
passou a ser feito com alguma segurança em países
desenvolvidos como Portugal, porque a taxa de mortalidade
infantil é muito baixa», diz Ribeiro Mendes. Por isso,
os pais apostam na qualidade de vida da criança e não na
quantidade de filhos como no passado.
As últimas previsões do Eurostat são
esclarecedoras a este respeito. O organismo estatístico da
União Europeia diz que, até 2025, o crescimento da população
nos Vinte e Cinco vai continuar, mas «ficará a
dever-se principalmente à imigração, porque o total de
óbitos ultrapassará o total de nascimentos a partir de 2010».
Só que os imigrantes não chegarão para estancar o declínio
europeu, pois em 2050 a UE terá menos 20 milhões de
habitantes do que em 2025, um quebra de 4,3% que ficará a
dever-se principalmente à contribuição negativa da Alemanha,
Itália e Polónia. A situação é ainda mais preocupante nos
novos Estados-membros do Leste (à excepção da Eslovénia),
que em 2004 já acusaram um decréscimo da sua população. Em
Portugal, o Euroestat prevê que este fenómeno comece em
2018.
As mais recentes previsões das Nações
Unidas também confirmam este cenário, salientando que em 51
países, a maioria dos quais europeus, a população será menor
em 2050 do que é hoje. Mas a ONU divide o mundo em duas
partes com tendências demográficas bem distintas: as regiões
mais desenvolvidas e as menos desenvolvidas. Nas primeiras,
«a fertilidade em 44 países é actualmente muito
baixa, tendo atingido níveis inéditos na história humana,
abaixo de 1,3 filhos por mulher». Nos países mais pobres
de todos, a taxa de natalidade é de cinco filhos por mulher
e deverá cair para metade em meados do século. Nas restantes
nações menos desenvolvidas, «a fertilidade já é
moderadamente baixa» (2,58) e poderá diminuir para 1,92
na mesma altura, «convergindo com os níveis
típicos do mundo desenvolvido».