Diário de Notícias - 12
Dez 05
Uma questão
de relatividade
João César das Neves
Está a terminar o Ano Mundial da Física, que celebra o centenário de um facto
espantoso, a publicação de quatro artigos que revolucionaram a forma como vemos
a matéria. Num punhado de páginas, Albert Einstein concebeu em 1905, quase de
raiz, a mecânica quântica e teorias da relatividade, da relação massa-energia e
do efeito fotoeléctrico.
A revolução de 1905 surgiu perante uma civilização fascinada pelo método
científico. Após séculos de investigação, a humanidade considerava-se na posse
de um modelo final e definitivo da realidade. De repente, essas certezas
evidentes eram pulverizadas. Mas com as velhas certezas, a nova ciência perdia
também a inocência. As descobertas espantosas abriam a porta a desenvolvimentos
que feririam de morte a confiança nelas. O século XIX construiu-se sobre o dogma
de que o progresso do conhecimento era sempre bom e proveitoso. A era nascida em
1905 veria muitos cientistas, incluindo Einstein, ansiosos por desaprender
resultados desse progresso.
A ciência moderna é muito mais que um método analítico. Ocupava então o lugar de
referência cultural básica. Na descrição de um dos seus mais astutos
observadores, deu-se "a junção das ânsias extra-racionais que o retrocesso da
religião tinha deixado errantes como cão sem dono, com as tendências
racionalistas e materialistas da época, então inelutáveis, que não toleravam
nenhum credo que não tivesse conotações científicas ou pseudocientíficas" (J.
Schumpeter (1943) Capitalism, Socialism and Democracy, cap. 1). A
passagem de serva a mestra transformou a ciência ainda mais que os artigos de
Einstein.
Primeiro, ela trazia consigo uma assustadora violência, ficando ligada às
maiores atrocidades que se seguiriam. Do cogumelo de Hiroxima ao napalm
do Vietname, do aquecimento global aos embriões congelados e à clonagem, o deus
da ciência revelou ter o poder de Zeus e a fúria de Baal sem a misericórdia de
Cristo.
Não foi apenas a física a revelar-se assustadora. O "pequeno livro vermelho" de
Mao garante "O Partido Comunista da China, feita uma avaliação lúcida da
situação international e interna com base na ciência do marxismo-leninismo,
reconhece que todos os ataques dos reaccionários, no país e no estrangeiro, têm
de ser e podem ser vencidos" (cap. 7, Ousar Lutar, Ousar Vencer). A
"ciência do marxismo-leninismo", a que se referia directamente Schumpeter, tal
como a da "superioridade racial" nazi, arrasou muito mais que a bomba atómica.
O segundo elemento, mais preocupante ainda, foi a perda de objectividade da
própria ciência. Ao subir de método analítico a ideologia doutrinal, ela viu o
seu grande valor de rigor, solidez e garantia ser usado de forma tão movediça
como nas demais crenças. Hoje qualquer debate tem ambos os lados a invocarem
estudos científicos. Basta o argumento técnico ter consequências sociais,
comportamentais ou políticas para se tornar discutível. Todos estão convencidos
do impacto decisivo da própria consistência teórica, enquanto desprezam os
cálculos do adversário como fúteis e ocos.
"Quando começa a vida na gestação? Esta dieta é eficaz? O casamento estável é
essencial para o equilíbrio emocional? A homossexualidade é genética ou
perversa? A inflação e o liberalismo são bons ou nocivos?" Estas e muitas outras
perguntas tiveram as respostas mais contraditórias, sempre baseadas na
elaboração teórica. Sobre elas estamos ainda mais confusos que em 1905.
Arrastada na vertigem da demagogia, a ciência complica e não clarifica as
discussões. Ser "tecnicista", "economicista" passou a ser pecado. O
pós-modernismo trocou boa análise por má doutrina. Assim, cresce o desprezo pela
atitude racional e avança o misticismo e a magia, prosperam os charlatães e a
mixordice intelectual. Estão em risco séculos de avanços do conhecimento.
Desde os artigos de Einstein, a atitude perante a ciência evoluiu ainda mais que
ela. Em Oitocentos via-se o laboratório como em Setecentos se tinha visto o
oratório. Novecentos descobriu-se num velório.
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