Diário de Notícias
- 03 Dez 07
A inversão do papel do Estado
João César das Neves
professor universitário
O futuro terá muita dificuldade em entender a nossa
obsessão com o Estado. Esta é a época que mais teoriza sobre o papel
das autoridades, onde os poderes públicos mais se esforçam por
melhorar a vida dos cidadãos, mas onde existe a maior confusão,
atropelo e ambiguidade nesses mesmos poderes. O Estado não faz o que
deve e anda a meter-se onde não é chamado. Assistimos nos últimos
tempos a um recuo evidente do Governo nas suas funções básicas. Ao
mesmo tempo há funcionários, fiscais e técnicos a invadir a
intimidade dos cidadãos em nome da segurança e bem-estar. Se isto
continua em breve teremos uma inversão total da estrutura
institucional.
O mais surpreendente é que muitas mudanças básicas
acontecem, não por razões ideológicas, de forma planeada ou segundo
análises fundamentadas, mas por mero deslize. São consequências
laterais de tácticas oportunistas, expedientes patetas ou golpes de
conveniência. A tacanhez política está a ter efeitos radicais que
dificilmente serão corrigidos.
O recuo do Estado nas suas funções próprias é
bastante evidente. Desesperado pelo défice, o Governo perde de vista
o seu papel. A fúria de privatização há muito deixou de ter
propósitos estruturais, para se tornar mero instrumento financeiro.
Privatiza-se não o que se deve, mas o que rende. Como as corporações
capturaram as funções que deveriam exercer, cada ministério trata
mais de reivindicações de profissionais que do seu serviço ao povo.
Um recente caso escandaloso é o das Estradas de
Portugal. Entregou-se a uma sociedade anónima uma função essencial
do Estado, a liberdade de circulação, pois estradas abertas
constituem um direito fundamental de cidadania. Qual a razão? A
bomba de relógio financeira das SCUT, criada na ilusão de obter
dinheiro privado para infra-estruturas, está a explodir. Por isso
entrou-se numa fuga para a frente, generalizando a abordagem. Quando
o primeiro-ministro afirmou em 16 de Novembro que a nova empresa tem
por objectivo a "sustentabilidade financeira", ele sabe que isso só
será possível com uma qualquer forma sofisticada dos antigos
bandoleiros dos atalhos.
Enquanto aliena funções fundamentais, a sempre
crescente máquina estatal atarefa-se a tratar da violência
doméstica, inovação tecnológica, galheteiros nos restaurantes,
embalagens de brinquedos. Proíbe o fumo, o ruído e o excesso de
velocidade, promove o aborto e facilita o divórcio. Dizemos ser um
país livre, mas é impossível a matança do porco, brindes no bolo-rei,
ou termómetros de mercúrio.
Tudo isto no meio de uma fúria legislativa, onde
novas versões de diplomas surgem antes de secar a tinta nas
anteriores. Um exemplo sugestivo, já que se fala de trânsito, é o
Código da Estrada. O Estado, que se demite da gestão rodoviária,
está cada vez mais enfiado com o condutor ao volante. Como andar de
automóvel não muda há décadas, seria de esperar estabilidade nessa
legislação fundamental que afecta toda a população. Pelo contrário,
esse campo é um emaranhado de diplomas.
Referindo apenas os principais, tínhamos um código,
aprovado pelo Decreto-Lei n.º 114/94, de 3 de Maio, que foi depois
revisto e republicado pelos DL 2/98, de 3/1, e 265-A/ 2001, de 28/9,
e alterado pela Lei 20/2002, de 21/8. Então o Governo decidiu criar
um novo Código, que aprovou pelo DL 44/2005, de 23/02. Desde então,
nestes dois anos já foram publicados 26 novos diplomas que o
complementam, corrigem e acrescentam. São quatro leis, cinco
decretos-leis, dois decretos regulamentares, seis portarias e nove
despachos. O site da Autoridade Nacional de Segurança Rodoviária, na
secção Trânsito, tem um total de 46 diplomas que devemos conhecer
cada vez que entramos num carro.
O mais incrível é que os responsáveis não se dão
conta de que esta profusão legislativa apenas manifesta a sua
tolice, impotência e incapacidade. O Estado tornou-se uma galinha
tonta, a correr em todos os sentidos. As gerações futuras vão
divertir-se com este tempo infantil que acha que a lei resolve tudo
mas não consegue decidir qual lei o deve fazer.