Público
- 09 Dez 07
O macaco e o tritão
João Bénard da Costa
É bem provável que, nos anos da vossa infância, vos
tenham contado muitas vezes a história do macaco do
rabo cortado. Contaram-ma a mim, contei-a aos meus
filhos e aos meus netos e o sucesso foi sempre
garantido. Como não há nada que mude menos do que
contos de encantar e esse conto está longe de ser
exclusivo familiar, vou pressupor que o conhecem tão
bem como eu (se não conhecerem digam-me, que eu
conto outra vez).
O sucesso dessa lenga-lenga (também o é) assenta,
como o de quase todas as histórias para crianças, no
princípio da repetição e no princípio da
metamorfose. Mil vezes, embora com parceiros
diferentes, o macaco repete a situação anterior, ou
seja a de quem dá e volta a tirar. Mas o que ele
tira vai-se transformando, ao longo da história,
como no fim ele se gaba, quando recorda que do rabo
fez navalha, da navalha fez sardinha, da sardinha
fez farinha, da farinha fez menina, da menina fez
camisa e da camisa fez viola.
Se me lembrei do símio, foi porque o meu princípio
para estas crónicas (bastante mais áridas que a
história do dito, devo admitir) é relativamente
semelhante. Fora qualquer necessária compulsão,
nascem de coisas que fui dando e tirando ao longo da
semana, fiel à máxima, que estou seco de repetir,
que o acaso é a única coisa que não acontece por
acaso.
Esta semana, pediram-me que identificasse outra
história bem minha, sendo obviamente alheia. É uma
citação de Lichtenberg, escritor e físico alemão
(1742-1799) onde se diz: "Tais obras são como
espelhos: se é um macaco a vê-las impossível a
descoberta dum apóstolo". Desde que a li, vai para
muito perto de cinquenta anos, que a contei tantas
vezes como a história do outro macaco, o que lhe deu
abundante posteridade.
Desde que a li...Foi esse o meu problema de agora.
Ia jurar que era a epígrafe de Temor e Tremor de
Kierkegaard (1813-1855) mas não é. Mas juro que foi
Kierkegaard quem ma revelou, até porque nunca nada
li de Lichtenberg, um dos grandes escritores
satíricos alemães do século XVIII. Mas não consegui
ainda localizá-la, na poeira de livros que há
séculos não abro.
Ao abri-los agora, memórias kierkegaardianas
voltaram-me de escantilhão e dei por mim a reler o
Temor e Tremor, a Repetição, O Banquete. E dos dois
macacos (o da viola e o do espelho) fui parar ao
Tritão, onde me vou demorar daqui a bocadinho.
Daqui a bocadinho, porque se escaparam à história do
macaco e à história das obras que são como espelhos,
não escapam a um resuminho da vida de Kierkegaard,
puxando a brasa à minha sardinha.
Toda a história da vida e da obra de Kierkegaard é
um vasto criptograma, pois que todos os seus
escritos, que cerca de cem anos depois da sua morte
lhe valeram a talvez indevida consagração como
fundador das filosofias da existência, são, bem mais
no fundo do que à superfície, cartas de amor a
Regine Olsen, mais nova dez anos do que ele, que
conheceu a 2 de Fevereiro de 1839 (tinha 25 anos),
com quem celebrou contrato de noivado a 10 de
Setembro de 1840 e com quem rompeu no Outono de
1841, por razões que incessantemente explicou na sua
obra, sem nunca lhes fazer directa referência.
Psicologicamente, pode falar-se do sentimento de
culpa, herdado da maldição que o pai um dia proferiu
e confirmada pela prematura morte da mãe e de cinco
dos seis irmãos que teve. Pode ainda citar-se a sua
consciência de ter sido um sedutor (o fascínio por
D. João será uma das constantes da sua obra) e de ir
perverter uma jovem inocente, a quem "pegaria" os
seus pecados e a maldição familiar. Mas tudo é bem
mais complexo do que isso e a dúvida sobre a decisão
de romper o noivado (que, à época, era quase um
compromisso pré-nupcial e seguramente uma violação
da palavra dada) atormentou-o até à morte, agravada
pelo casamento de Regine em 1843 com o seu antigo
perceptor Schlegel, mais tarde governador das Índias
Ocidentais Dinamarquesas. Quando morreu, Kierkegaard
deixou-lhe o pouco que ainda restava de uma fortuna
considerável. "Dei-lhe tudo: a minha vida, a minha
obra, agora o que chamam os meus bens".
Voltaram-se a encontrar várias vezes, mas nunca mais
se falaram. Kierkegaard sabia, porém, que ela o lia
e acreditava que o que escrevia a faria compreender
porque razão "o cavaleiro de fé" quebrara o
juramento que tinha feito.
A epígrafe que precede Temor e Tremor diz
obscuramente dessa crença obscura. É uma citação de
Hamann e que diz: "O que Tarquínio, o Soberbo, disse
aos pavões do seu jardim, compreendeu o filho mas
não o mensageiro". Regina era a filha, aquela que
entenderia as palavras cifradas que o leitor
(mensageiro) não podia entender.
Ou a "réplica de uma donzela seduzida": "Poupem-me à
vossa piedade, pois nada entendeis nem da minha pena
nem do meu júbilo. Amo-o ainda de tal maneira que o
meu único desejo é voltar a ser donzela novamente,
para novamente ser enganada por ele". Ou: "Ela não
me amava pela bela linha do meu nariz, nem pelos
meus lindos olhos, nem pelos meus pés, nem pela
minha inteligência. Amava-me a mim. Amava-me por mim.
Mas não me podia perceber".
Muito mais tarde, comparou-se a Swift: "A velhice
realiza o que a juventude pressente. É o que ilustra
a vida de Swift que, ainda novo, mandou construir um
asilo para loucos e, já velho, foi internado nele".
Por isso também o gosto pelos pseudónimos: Victor
Eremita, Johannes de Silentio, Constantin
Constantinius, Johannes Climacus, etc. A solidão e a
constância. O silêncio e a permanência.
Chegou a vez da história do tritão.
Surge na última parte de Temor e Tremor, livro quase
todo consagrado a Abraão e ao Deus que lhe deu um
filho na velhice, depois, em aparente contradição,
mandou matá-lo e por fim, em nova mudança, mandou um
Anjo poupá-lo quando o cutelo do pai já estava
erguido. Por isso, Abraão é o pai da Fé, pois que em
tudo se abandonou à contraditória vontade de Deus,
nunca O pondo em causa na sua terribilidade.
Contou de muitos modos a história de Abraão usando a
repetição e a metamorfose. "E quando Isaac reviu o
rosto do pai, achou-o alterado pois que o olhar era
sinistro e a expressão aterradora. Agarrou Isaac
pelo peito, deitou-o no chão e disse: "Estúpido!
Julgas que sou teu pai? Sou um idólatra. Julgas que
obedeço às ordens de Deus? Faço o que me apetece
fazer". Então Isaac estremeceu e, na sua angústia
clamou: "Deus do Céu! Tende piedade de mim! Deus de
Abraão, tende piedade de mim e sede o Pai que na
terra não tenho". Abraão, ouvindo-o, disse baixinho:
"Graças Te sejam dadas, Deus do Céu! Porque mais
vale que ele me julgue um monstro do que perca a fé
em Ti"".
A história do Tritão também Kierkegaard a conta de
várias maneiras.
Na primeira versão, o tritão é um sedutor que se
ergue do abismo onde tem morada. Na praia, junto ao
mar, a bela e puríssima Inês sonha, embalada pelo
murmúrio das vagas. Na fúria do seu brutal desejo, o
tritão engole a jovem e leva-a com ele para o fundo
do mar. Será a maneira mais cruel de contar esta
história?
Suponhamos então que o tritão era um sedutor.
Docemente, chamou Inês. As palavras tão suaves que
lhe dirigiu fizeram nascer nela sentimentos
desconhecidos. Achou nele o que buscava e o que o
seu olhar procurava no fundo dos mares. Sentiu-se
pronta a segui-lo. O Tritão tomou-a nos braços que
ela lhe lançou ao pescoço. Plena de confiança, Inês
abandonou-se de alma e coração. O Tritão já deixara
as areias e já voltara ao mar para nele desaparecer
com a sua presa. Então Inês olhou-o mais uma vez,
sem medo, sem hesitação, sem orgulho da sua
felicidade, sem embriaguez de desejo. Antes, com fé
total e com toda a humildade da flor que era. Com
absoluta confiança, pôs nesse olhar o seu destino.
Então - maravilha suprema - o mar deixou de rugir e
emudeceu-se a voz selvagem dele. A natureza
apaixonada, que dera ao Tritão a força, abandonou-o
subitamente e caiu uma calma completa em torno
deles. Inês olhou-o sempre com os mesmos olhos.
Então o tritão sucumbiu. Não conseguiu resistir ao
poder da inocência, não conseguiu seduzir Inês.
Conduziu-a de novo ao mundo dela e explicou-lhe que
quis apenas mostrar-lhe o esplendor do oceano quando
posto em sossego. Inês acreditou. Depois, o mar
voltou a agitar-se e o desespero invadiu o seio do
Tritão. Podia seduzir duas, cem Ineses, mas aquela
Inês venceu-o e ele perdeu-a. Inês nunca saberá o
que o Tritão perdeu. Só este conheceu o desespero.
Mas há outra versão possível: o tritão era um fraco
tritão que várias vezes viu Inês sem sentir mais do
que melancolia.
Mas Inês não era uma calma donzela. Gostava demais
do rumor do mar e, se o murmúrio melancólico das
vagas a atraía tanto, era porque no seu peito
encontrava possante eco. Queria partir, partir desse
para onde desse, queria precipitar-se no infinito
com o tritão que amava e que alcançou excitar.
Desapareceu-lhe a humildade, surgiu-lhe o orgulho. O
mar rugia, a espuma das ondas confundia-se, o tritão
abraçou Inês e arrastou-a para as profundidades.
Nunca foi tão selvagem, tão possuído pelo desejo.
Mas nunca ninguém achou o cadáver dela.
Transformou-se numa sereia, aquela que seduz os
homens com os seus cantos.
Mais uma variante? A Inês do conto é uma mulher
ávida do estranho e, mais cedo ou mais tarde, como a
todas as mulheres com essa avidez, o tritão virá e
lançar-se-á sobre ela como o tubarão sobre a sua
presa. Não foi o conhecimento, ou a vontade de
conhecimento que salvou Inês. Só a inocência é
recurso contra o sedutor.
Kierkegaard, que tenho seguido palavra a palavra (ou
quase) imagina muitas histórias: o tritão
arrependido; o tritão dissimulado; o tritão
profundamente amado; o tritão que casa com Inês.
Nenhuma das hipóteses pode conduzir a um final
feliz, porque o arrependimento dele pressupõe o dela
e tudo se perde; porque a dissimulação dele conduz
ao sofrimento de Inês; porque o amor é uma instância
estética e que lança os amantes nos braços um do
outro, sem se preocupar com o que se passa depois de
acabar a história.
"Só a estética comete o erro de chamar a Inês uma
heroína, quando o epíteto - a aplicar-se - só se
pode aplicar ao tritão. Porque em todos os casos foi
o tritão que teve de renunciar, fosse para a
restituir à paz do seu mundo, fosse para a ver
morrer no fundo das águas".
Haverá por aí alguém capaz de encontrar outra
solução para a história de Inês e do tritão ou para
a dos pavões e do filho de Tarquínio, o Soberbo?