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Expresso - 10 de Fevereiro
Um «chuto» na responsabilidade
Eduardo Vilaça*
Seria um investimento mais rentável se os recursos disponíveis para criar as salas de 'chuto', fossem aplicados no reforço das instituições que procuram recuperar os toxicodependentes.
NAS CIDADES de hoje, enormes, densas, barulhentas, impávidas e distantes perante a nossa pequenez, amontoam-se os problemas. Porquê? Ninguém sabe exactamente dizer. Se se soubesse, já há muito que se teriam encontrado as soluções regeneradoras do ambiente físico, social e humano.
No meio de tanta incerteza, ressalta, entre outros, o problema do consumo de droga e da toxicodependência, que é, reconhecidamente, uma das grandes calamidades das últimas décadas, para a qual não se vislumbra solução a curto ou mesmo a médio prazo. São muitos os atingidos, sobretudo jovens, não escolhendo grupos e estratos sociais, culturas ou etnias. Há famílias inteiras destruídas na sua vivência e nos seus haveres por esse drama, muitas vezes impotentes para travar o progressivo desmoronamento de um jovem em ruína eminente.
A propósito deste tema, falou-se muito, nas últimas semanas, da possibilidade da criação ou não das chamadas salas de «chuto» ou, nomeadas mais sofisticadamente pelos que não convivem bem com a palavra, «de injecção assistida», nas quais se pretenderia dar um espaço próprio com condições de higiene e acompanhamento especializado aos toxicodependentes para o consumo de drogas.
Estamos a falar obviamente de toxicodependentes, daqueles que andam nas ruas, facilmente observáveis por quem passa, dada a sua aparência e atitudes, que provocam afastamento e distanciamento, gerando uma confusão de sentimentos comuns que vão desde a pena e a incomodidade até à indignação e à passividade.
Para não falar dos outros, mais abastados, se calhar menos dependentes, mais discretos, que consomem no conforto e desconforto das suas próprias casas e que só são visíveis quando se deslocam nas suas viaturas, procurando adquirir as doses de que carecem.
Não é novidade a postura daqueles que defendem teorias da facilitação e do imediatismo sem procurar atacar os problemas de fundo. As salas de «chuto», vistas num contexto de uma medida isolada e sem enquadramento, não são mais do que isso mesmo. Sem querer avaliar o mérito e êxito das que já estão criadas e em funcionamento noutros países, não se entende como é que uma medida destas pode ter efeito no combate ao consumo e à degradação física e moral que é consequência do mesmo. Não se alcança como é possível pactuar e assistir com caminhos que conduzem forçosamente à progressiva eliminação de uma pessoa na sua totalidade. Não se compreende como é que se legaliza uma situação ligada, como é sabido, a contextos que envolvem o crime mais ou menos organizado, desde o narcotráfico que movimenta milhões de contos até ao pequeno furto que assegura a dose diária.
Ou será que, ao contrário do desejado, ainda se vai estimular mais o consumo e passamos a ser cúmplices na progressiva destruição do ser humano que é um toxicodependente?
Ou será que tal espaço não tornará o consumidor mais impessoal, mais isolado e mais limitado no reconhecimento social que tem dentro do seu grupo?
Seria, certamente, um investimento mais rentável se os recursos disponíveis para criar as salas de «chuto» fossem aplicados no reforço das instituições e estruturas que procuram recuperar os toxicodependentes, sabendo-se que há falta de lugares nas existentes apoiadas pelo Estado e que nas particulares as mensalidades são proibitivas para a maioria das famílias atingidas por este drama. Adequando os programas, reforçando a formação profissional, oferecendo espaços em locais propícios e dotando-os de meios materiais.
Além de que não se pode concordar com esta cultura permissiva e de «morte» que também, a propósito de outros temas tão caros, hoje em dia, se tem instalado na sociedade portuguesa, em que se procuram soluções que não o são, servindo apenas como elementos claros de desresponsabilização do Estado e de todos nós, legitimando a ausência de uma intervenção profunda, consequente, dimensionada e duradoura. É esta uma política social defensável à luz de princípios universais? E de esquerda
Tirar os «drogados» da rua sem ser com o objectivo de deixarem de ser «drogados»? Para não serem vistos e para não incomodarem as nossas consciências? Desculpem lá, mas essa até parece do tempo da «velha senhora»...
* Sociólogo
E-mail: eav@sapo.pt
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