Expresso - 17 de Fevereiro

A mosca do vinagre 

Clara Ferreira Alves

«Eu venho de um tempo em que a religião e a literatura eram as grandes actividades do pensamento, ocupando a ciência um lugar remoto e frio como a Antárctida, onde uns seres chamados cientistas se entregavam a experiências com tubos de ensaio, bicos Bunsen e microscópios. Em Portugal, nos anos 60 e 70, não se ouvia falar muito de ciência e os meninos e meninas nunca diziam que queriam ser cientistas quando fossem grandes.»

Já se suspeitava que éramos parecidos com a mosca do vinagre. Basta dar uma olhadela nos programas de televisão e no êxito que eles provocam nas populações embevecidas para chegar à conclusão de que somos como a dita mosca do vinagre, que tem quase tantos genes como nós. O impulso primordial que leva a mosca do vinagre a ser a mosca do vinagre deve ser o mesmo que leva o senhor silva, a mulher do senhor silva, a sogra do senhor silva e os filhos do senhor silva a gastar as horas em frente ao televisor, grudados que nem uma mosca no mel, perdão, no vinagre, nas deambulações e confissões dos grandes irmãos e dos pequenos acorrentados.

Está achada a explicação para o facto de uma boa parte da população humana, a população mais culta e informada, mais rica e educada, gostar deste entretenimento. São os genes, ou a falta deles. Eu venho de um tempo em que a religião e a literatura eram as grandes actividades do pensamento, ocupando a ciência um lugar remoto e frio como a Antárctida, onde uns seres chamados cientistas se entregavam a experiências com tubos de ensaio, bicos Bunsen e microscópios. Em Portugal, nos anos 60 e 70, não se ouvia falar muito de ciência e os meninos e meninas nunca diziam que queriam ser cientistas quando fossem grandes. Queriam ser médicos, advogados, engenheiros, professores, não queriam ser cientistas (nem acorrentados). Quem ousasse escolher física ou matemática, botânica ou biologia, tinha mais oportunidades de acabar os dias a dar aulas numa escola secundária do Cacém do que no MIT ou na NASA. Na santa ignorância em que viviam os portugueses da época, a ciência era uma actividade exótica desenvolvida por países com recursos e onde se falava inglês. Os portugueses que quisessem ser cientistas emigravam, simplesmente. Eu tinha um primo que queria ser cientista, o que foi considerado uma excentricidade pelos professores, só desculpável visto o menino ter jeito para matemática. O primo acabou na América, e nunca mais voltou a Portugal, que considera um país primitivo e atrasado e sem cientistas nem computadores. Em compensação, a religião era toda-poderosa. As famílias iam a Fátima todos os anos, comungavam em conjunto, tinham um celibatário (tia freira ou tio padre) de estimação e tinham um confessor que sabia os pecados do colectivo. O catecismo e a Bíblia eram obrigatórios e as crianças eram repreendidas com o inferno e recompensadas com o céu. Havia que praticar boas acções, pelo menos uma por dia (dar esmola a um pobre, ajudar um «ceguinho» a atravessar) e havia que jejuar na Páscoa e pedir perdão pelos pecados antes de deitar. A religião e a legião de dogmas e proibições, de mitos e lendas, de parábolas e alegorias, comandava as nossas vidas suplicantes. Os rituais eram obedecidos e nunca discutidos e os meninos e meninas coleccionavam santinhos nos missais. Pairava sobre tanta santidade, como uma nuvem de incenso, o grande medo de desobedecer, de incorrer em falta, de provocar a ira do chefe, fosse ele Deus ou Salazar. Ambos eram omniscientes, omnipotentes e omnipresentes e viam tudo para todos os lados ao mesmo tempo, embora Salazar precisasse da PIDE e de informadores para alcançar os resultados que Deus alcançava com a divina condição. Enfim, era um mundo acanhado, pouco livre e muitíssimo pouco científico. No confronto com Deus, Darwin ficava na gaveta. Deus tinha criado o homem e todas as coisas, ponto final. Hoje, o mundo ocidental é o mundo do triunfo da ciência sobre a religião. A Igreja Católica tem vindo a perder fiéis; as suas instituições, sobretudo a do casamento fiel e vitalício, estão em crise; a sua hierarquia é obrigada a adaptar-se (darwiniamente) para sobreviver. Em Portugal, a população continua a dizer-se maioritariamente católica mas vive e morre como se fosse agnóstica ou ateia. O casamento «pela Igreja» é uma cerimónia mais do que um sacramento e as pessoas não têm o hábito de se confessar ou comungar, ou de pedir a extrema-unção (e há menos tios padres e tias freiras). A ciência foi crescendo e ocupando o lugar da religião, e a vitória do evolucionismo sobre o criacionismo é confirmada pelas descobertas diárias que os jornais e as televisões relatam com uma atenção e um escrúpulo de audiência garantida. O terceiro segredo de Fátima foi revelado perante a indiferença geral e a descrença risonha, enquanto o mapa do genoma humano é revelado com a emoção e a turbulência de um milagre. Nos últimos trinta anos, a ciência tem dado saltos epistemológicos e apresentado resultados que vão contribuindo para desvendar o enigma da criação e o mistério da vida, isolando e identificando genes, descobrindo as combinatórias do sistema, estabelecendo uma cartografia do cérebro, calculando o Big Bang (e antes dele). Não se concebe maior desmentido de Deus do que a possibilidade (próxima e real) da clonagem de seres humanos. A humanidade mais avançada não quer morrer. Quer prolongar a esperança de vida, quer proteger-se do sofrimento e da peste. Numa sociedade de abundância e bem-estar, a ciência proporciona uma resposta pragmática e imediata às questões que pertenciam à espiritualidade, às questões da sobrevivência e da vida depois da morte (na Terra, ou em Marte...). A ciência joga a carta de trunfo e relega a religião para plano imediato. A religião sugere, pelo contrário, uma qualidade de vida diferida para outra vida, uma capacidade de sacrifício e renúncia, um dilema moral. A humanidade não quer. Quer a vida melhor agora, e já. Quer clonar o filho que perdeu, quer viver até aos 120 anos, quer manter a juventude e a beleza, quer ter filhos depois dos 50 anos. Não são os conteúdos da ciência pura que lhe interessam mas o que a ciência aplicada pode fazer por ela. A mosca do vinagre, naturalmente, terá inquietações semelhantes mas disso não sabemos nada.
 

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