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Expresso - 23 de Fevereiro
O interesse bem compreendido
NO DEBATE preparatório das próximas eleições parlamentares, tem merecido
destaque o tema dos interesses. Alguns políticos e analistas, muitas vezes
da própria área socialista, acusam o Governo de António Guterres de ter
sido «refém dos interesses». Dizem, então, que é preciso saber «governar
contra os interesses».
Há uma grande ambiguidade nestas expressões e talvez seja útil tentar
clarificá-las. Caso contrário, é de temer que a emenda seja pior do que o
soneto.
É conhecida a célebre frase de Adam Smith: «Não é da bondade do homem do
talho, do cervejeiro ou do padeiro que podemos esperar o nosso jantar, mas
da consideração em que eles têm o seu próprio interesse».
Um dos erros fundadores do socialismo, sobretudo na versão marxista, foi a
hostilidade de princípio aos interesses do homem do talho, do cervejeiro e
do padeiro. Onde essa hostilidade foi erigida em princípio de governo -
claramente nos países comunistas - o resultado não se fez esperar: deixou
de haver jantar. Simultaneamente, gigantescos défices públicos foram
gerados para financiar empresas e lojas do Estado, onde as pessoas
esperavam em longas filas por produtos de péssima qualidade. A Rússia, que
tinha sido o «celeiro da Europa», passou a importar trigo dos EUA devido à
estatização da agricultura.
Isto é, ou devia ser, conhecido. Mas continua a ser ignorado na discussão
sobre algumas áreas de actividade que hoje todos reconhecem estar mal: o
ensino, a saúde e a segurança social. Qualquer destes sectores funciona ao
arrepio da observação de Adam Smith. E o resultado está à vista: gastam
imenso dinheiro para produzir péssimos serviços.
Todos eles são, basicamente, gigantescos quase monopólios estatais
dirigidos centralizadamente. Na saúde e no ensino, o Estado paga aos
próprios produtores para eles fornecerem os seus serviços «gratuitamente»
aos consumidores. Estes ficam muito contentes porque pensam que não
pagaram os serviços - que na verdade pagam, e bem caro, através dos
impostos, que são elevadíssimos. Ficam depois muito surpreendidos porque a
qualidade dos serviços de saúde e de ensino é péssima. E porque as
reformas são más e vão ficar pior.
Cabe agora perguntar: será que a solução deste problema estaria em
«governar contra os interesses»? Desde logo conviria clarificar quais
interesses: os das famílias, que já não são autorizadas a escolher a
escola, o hospital ou o sistema de reforma? O dos pouquíssimos empresários
desses sectores, que já são obrigados a competir com o Estado em condições
verdadeiramente kafkianas? Os dos funcionários competentes - professores,
médicos, enfermeiros, etc. - que são obrigados a trabalhar num sistema
condenado à mediocridade?
Talvez fosse melhor seguir o conselho de Adam Smith: em vez de vociferar
contra os interesses, os governantes deveriam garantir a imparcialidade de
um sistema de regras, aberto à livre iniciativa e à concorrência leal
entre os diversos «interesses». Da colaboração entre a firme autoridade
imparcial do Governo e a «mão invisível» da concorrência nasceria - no
ensino, na saúde e na segurança social - aquilo que já vamos tendo na
economia em geral: uma pressão para melhorar e baixar os custos. Quanto à
acção social do Estado, esta deveria exercer-se através do apoio directo
às famílias.
Será isto governar contra os interesses? Só se forem os interesses dos que
não querem prestar contas às famílias, aos contribuintes e aos cidadãos em
geral.
E-mail: jcespada@netcabo.pt
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