Diário de Notícias - 8 Fev 03
 
O privilégio de ser estudante
Fátima Barros

Há alguns anos um eminente professor de Economia, Jacques Drèze, distinguido recentemente com um doutoramento honoris causa pela Universidade Católica Portuguesa, despediu-se da carreira docente com um discurso surpreendente. Este professor é um dos economistas europeus que mais contribuíram para o desenvolvimento da ciência económica e um dos nomes que todos os anos integram as listas de candidatos ao Prémio Nobel da Economia.

Jacques Drèze, no mesmo tom simples com que apresentava os teoremas mais complicados, explicou aos alunos do seu último curso de Equilíbrio Geral que, apesar de ter tido a oportunidade de estudar com os melhores professores do mundo, a pessoa com quem mais tinha aprendido, na realidade, tinha sido com um homem muito simples, um sindicalista que pouco mais tinha do que o nível de educação básica. E pediu aos alunos para nunca esquecerem que eram privilegiados por terem tido acesso à educação e, por disso, deveriam ter uma atitude de humildade face aos outros que não tinham tido essa oportunidade.

Nunca esqueci estas palavras e, numa ou noutra situação, já tive a oportunidade de as transmitir aos meus próprios alunos. A arrogância, muitas vezes confundida com autoconfiança, caracteriza a atitude de muitos dos alunos das nossas universidades.

A massificação do ensino universitário poderá ter contribuído para uma alteração da atitude dos alunos face à educação. Os alunos, na sua maioria, não sentem que é um privilégio terem acesso a um nível de educação superior mas sim um direito que podem exercer. Na maior parte dos casos consideram que, salvo algumas excepções, as aulas são uma seca e por isso perfeitamente dispensáveis.

Actualmente são os professores que devem empreender múltiplos esforços para tornar as aulas motivadoras e fazer com que elas agradem aos seus exigentes alunos.

Mas, infelizmente, o que estes alunos exigem não é necessariamente rigor no tratamento das matérias e conhecimentos sólidos por parte dos seus mestres. Hoje o que os alunos querem é ser entretidos e, se o professor não conseguir transformar as matérias difíceis em histórias divertidas, pode ter a certeza que não vai ter audiência.

Alguém dizia recentemente que um dos problemas actuais da educação dos jovens é que, para a grande maioria, os métodos de ensino têm de se revestir de formas lúdicas, a aprendizagem tem de se fazer através de jogos e, sobretudo, os jovens não devem ser violentados com métodos de estudo que os obriguem a um esforço demasiado grande. Assim, crescendo nesta cultura de facilitismo, os alunos entram na universidade e exigem que sejam os professores a cativá-los.

Não é por isso de espantar que uma das maiores críticas de que os professores são alvo por parte dos alunos seja a fraca capacidade de motivação. O que parece acontecer frequentemente é que quem está desmotivado para estudar são os alunos. E isto porque o jogo da concorrência pela atenção dos alunos é hoje muito desequilibrada: como pode uma aula sobre o cálculo integral concorrer com a navegação na Internet? Há por isso que reequacionar os valores que estão em causa. É necessário que os nossos jovens compreendam que para aprender é preciso trabalho e esforço e que a educação deles continua a ser um privilégio, pois para isso são empenhados muitos recursos da sociedade.
 

[anterior]