Público - 9 Fev 03

Fecundidade no Mundo Vai Ficar Aquém do Que Estava Previsto
Por ANDREIA SANCHES

ONU revê estimativas: em 2050, cada mulher terá, em média, dois filhos

A Organização das Nações Unidas (ONU) vai rever as estimativas sobre a evolução da população mundial. Até ao ano de 2050, cada mulher deverá ter, em média, dois filhos por ano - um valor que tem a particularidade de ficar abaixo do que é considerado o nível que permite a substituição de gerações, que é de 2.1 bebés por mãe. Significará isto que a longo prazo o número de habitantes no mundo poderá, finalmente, começar a diminuir?

Na semana passada, o "Sunday Times" não hesitava em afirmar que as novas previsões da ONU - que corrigem as que foram feitas há apenas dois anos - podem pôr ponto final ao "mito" de que o século XXI iria assistir a níveis de "sobrepopulação" bombásticos.

E mesmo especialistas da Divisão de População das Nações Unidas têm vindo a afirmar que uma taxa abaixo das 2.1 crianças por mulher significa uma ruptura com as tradicionais teorias demográficas que sustentavam a ideia de que os níveis de fecundidade estabilizariam no tal valor de substituição geracional. Mas muitos demógrafos falam com cautela sobre este assunto.

Ainda este mês será divulgado o relatório com as novas projecções - "Perspectivas de população mundial: revisão 2002". Nele, a ONU aponta para que antes de 2050 a média de filhos por mulher se fixe em dois, em vez dos 2.15 calculados há dois anos. A informação foi avançada ao PÚBLICO por Armindo Miranda, da Divisão de População das Nações Unidas.

Este acerto de contas dever-se-á, sobretudo, à evolução recente e inesperada da natalidade nos países com níveis intermédios de fecundidade, designação usada para referir os estados onde, em 2000, as mulheres tiveram, em média, entre 2.1 e cinco filhos cada.

Neste grupo - que inclui algumas das regiões mais populosas do globo, como o Brasil, Egipto e Índia, mas exclui por exemplo a Europa -, o número de bebés por família tem vindo a baixar mais rapidamente do que se esperava. E as novas projecções indicam que a média de filhos por mulher será de 1.85 em vez dos 2.1 previstos em 2000. Mais de dois quintos da população mundial vivem nestas regiões do planeta.

Ligeiro aumento na Europa

Muitos destes países têm trabalhado para controlar o crescimento das suas populações. E não é para menos. Veja-se o caso do Egipto: apesar das quebras de natalidade já conseguidas, os governantes terão, ainda assim, de continuar a criar entre 600 mil e 800 mil postos de trabalho por ano para suportar os quase 30 milhões de habitantes a mais que o país terá até 2025.

Paradoxalmente, a Europa e outras nações desenvolvidas estão, há muito, abaixo do nível dos níveis de renovação e preocupam-se cada vez mais com a diminuição e envelhecimento da população: o Velho Continente poderá perder mais de cem milhões de habitantes nos próximos 50 anos; Portugal deverá ter quase um milhão a menos.

O relatório de 2002 das Nações Unidas traz, no entanto, boas notícias para estes países: a Europa, no seu todo, atingirá, segundo Armindo Miranda, uma taxa de fecundidade de 1.84 até meados do século (as projecções feitas há dois anos apontavam para uma cifra de 1.81).

Mas mesmo que as novas estimativas de fecundidade no mundo se concretizem não será tão cedo que a população mundial deixará de crescer - os efeitos levam décadas a fazerem sentir-se, sublinha a ONU. E até meados do século XXI o mundo verá os seus habitantes aumentarem cerca de 50 por cento (mais 3,2 mil milhões), o que atinge sobretudo os países menos desenvolvidos.

Por isso, num encontro de especialistas de todo o mundo, realizado em Março do ano passado, em Nova Iorque, com objectivo de preparar a revisão de 2002 das "Perspectivas de população mundial", houve quem alertasse para este facto simples: o desejado abrandamento do crescimento da população mundial só acontecerá se os países "ricos" não se esquecerem dos países em vias de desenvolvimento, que continuarão a precisar de apoios externos para reduzirem, de forma sustentada, a sua população.

Há um outro perigo: se a Europa e outros estados adoptarem medidas pró-natalidade, mesmo os países com altas taxas de fecundidade tenderão a seguir esse modelo. E em vez dos nove mil milhões de habitantes previstos para meados do século, o mundo poderá ter de lidar com 10,11, ou 12. O que comportaria pesados custos para a humanidade.
 

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