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Diário de Notícias - 3 Fev 03
Guia das visitas hospitalares
João César das Neves
Nos dias que correm, ninguém está livre de visitar um dos grandes hospitais que
há por todo o País. Nesse caso, é bom conhecer algumas regras elementares.
Primeiro, saiba que ao entrar num hospital passa à condição de invisível. Os
funcionários e doentes antigos, todos de batas variadas e utensílios de
tratamento, passam pelo novato como se fosse transparente. O ar desamparado,
perdido e confuso de visitante é evidente, mas ignorado pelos autóctones. A
única forma de ser notado é fazer barulho. Nesse caso reparam nele. Para o
repreender.
Depois, nota-se que todos os sinais de orientação dos serviços têm nomes
incompreensíveis, com mais de 20 letras. Enganar-se numa é suficiente para mudar
de edifício e perder toda a manhã. Todas as portas têm avisos ameaçadores,
proibindo taxativamente a entrada. Avisos que têm de ser ignorados, porque não
há alternativa. E quando são ignorados não há consequências.
A terceira regra é que um hospital funciona num fuso horário diferente. Aliás, é
mesmo todo um sistema cronológico alternativo que vigora. A consulta das 3 horas
nunca começa antes das 5, mas o doente tem de lá estar às 8 para tirar senha. Um
tratamento de dez minutos leva sempre mais de duas horas. Os serviços fecham
meia hora antes do indicado. Isto é tão geral e comum que tem de ter razões
médicas.. Estar horas à espera deve ter virtudes terapêuticas recomendadas nos
tratados de Medicina.
Em quarto lugar, é essencial saber que ao entrar num hospital se penetra numa
comunidade com regras próprias. Aliás, trata-se mesmo do único caso sobrevivente
de despotismo oriental na sociedade moderna. O especialista-chefe detém o poder
supremo e incontestado na sua zona, humildemente adorado por todos os mortais.
Há também vários aspirantes a sultão, de etnias concorrentes, mais ou menos
rebeldes debaixo da autoridade. O visitante, sendo estrangeiro, ocupa o lugar
mais baixo da hierarquia, devendo vassalagem incondicional a todos os membros da
tribo.
Quem vem para ficar tem de saber que o hospital não lhe dá um tratamento. Dá um
projecto de vida. Deve despojar-se da roupa, da identidade, de todos os seus
ideais, planos e anseios, para se colocar na condição de «doente». Durante o
tempo que ali estiver pertence à massa anónima, sobrevivendo apenas pela
munificência dos superiores. Que gastam milhões na sua cura, a qual lhe sairá de
borla, desde que obedeça sem resposta às ordens recebidas.
Nas salas de espera, enfermarias e corredores, o doente encontra um culto
mitológico. É composto por lendas maravilhosas de hospitais que funcionam bem,
de especialistas que chegam a horas e respeitam os desejos dos doentes; de
enfermeiras e auxiliares que sorriem e são sensíveis às noites cheias de dor; de
salas sem correntes de ar, de almoços saborosos e camas quentes.
Mas há aí também um elemento bem real: os «anjos da guarda». Todos os hospitais
os têm. Ninguém sabe quem são ou de onde vêm, têm formas muito variadas, sempre
de bata. Identificam-se pela compaixão. Aparecem de repente e fornecem ajuda de
muitas maneiras. Dando informação, dispensando cobertores, corrigindo
tratamentos. Quem tem a sorte de os encontrar, poupa horas de espera, evita dias
de dor ou até, no limite, salva a vida.
Há só mais uma coisa a saber. Toda a gente, profissionais ou doentes, sabe quem
é o culpado de tudo: o sistema. Por isso vão reformá-lo. Outra vez.
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