Público - 25 Fev 04

Ingleses Temem "Epidemia" de Obesidade
Por RITA JORDÃO, Londres

Nas últimas décadas a alimentação tem-se tornado um tema central nos países ocidentais. A contrariar uma tendência de culto do corpo e da extrema magreza, as sociedades modernas vivem num ritmo muito elevado, em que deixou de haver tempo para uma alimentação saudável. O sedentarismo domina a vida das pessoas e, para completar o quadro, o consumismo exacerbado chegou à alimentação.

Os resultados são assustadores. Desde 1984 o número de crianças obesas em Inglaterra aumentou de 5 por cento para os actuais 9 por cento em crianças até aos 6 anos e 15 em adolescentes de 15 anos. A massa corporal das crianças tem vindo a aumentar assustadoramente e o diâmetro da cintura está a crescer a um ritmo ainda mais acelerado. Estes números fazem temer uma "epidemia" de obesidade num futuro bastante próximo.

Na semana passada, o Royal College of Physicians lançou o alarme: se nada for feito para contrariar esta tendência, em 2020 um em cada três adultos britânicos será obeso. Os efeitos do problema na saúde pública já se fazem sentir: a diabetes tipo-2, que costumava aparecer apenas em adultos, está agora a ser diagnosticada em crianças de seis anos, crianças com apenas 10 anos mostram problemas cardíacos e, além disso, sabe-se que os obesos vivem, em média, menos nove anos do que uma pessoa com peso normal.

Em termos económicos, os custos não são menos preocupantes: só em Inglaterra 18 milhões de dias de trabalho são perdidos em cada ano por doenças relacionadas com a obesidade. Segundo o National Audit Office, o excesso de peso custa anualmente dois mil milhões de libras à economia britânica e 500 milhões de libras ao Sistema Nacional de Saúde.

A situação é tão alarmante que o Governo britânico quer tomar medidas drásticas. O ministro da Saúde, John Reid, anunciou no início deste mês que irá levar a cabo um inquérito público com o objectivo de criar uma proposta para melhorar a saúde pública no Reino Unido. Reid defende que a publicidade a produtos alimentares deve ser mais restrita e coloca mesmo a hipótese de aplicar mensagens de advertência, como actualmente acontece com o tabaco.

Para Tessa Jowell, ministra da Cultura, Media e Desportos, a solução passa por proibir a publicidade a "junk-food" (nome atribuído a alimentos pouco saudáveis) durante os programas de televisão dirigidos às crianças.

Mas não é só o Governo que pensa assim: um inquérito realizado pela Food Standards Agency mostra que 85 por cento dos britânicos pensam que deveria haver um maior controlo na publicidade de "fast-food" dirigida às crianças e 82 por cento acreditam que a publicidade ligada a pessoas famosas tem uma influência ainda maior nas crianças. Este tipo de publicidade pode vir a ser proibida pelas novas propostas do Governo.

Tessa Jowell acredita que uma medida positiva seria alargar o período de desporto nas escolas para duas horas semanais. Ainda relativamente às escolas, uma outra medida que tem vindo a ser discutida é a proibição de "junk-food" nas máquinas de venda. Em Janeiro, a Coca-Cola foi obrigada a retirar a publicidade nas máquinas de venda das escolas públicas britânicas. Até Setembro, as máquinas passarão a ostentar imagens de crianças a brincar na rua. O conteúdo deverá também mudar, passando a conter mais sumos e garrafas de água.

Outra causa apontada para este surto de obesidade é a quantidade de comida que é posta à disposição dos consumidores. Durante a última década, as porções dos "fast-foods" aumentaram em 30 por cento e o mesmo aconteceu com os chocolates e refrigerantes, produtos alimentares que já por si têm elevados níveis de açúcar. Não admira, portanto, que os britânicos tenham o maior número de obesos da Europa, pois são eles quem, no Velho Continente, mais consome este tipo de alimentos.

Para obrigar as pessoas a adoptarem a uma dieta mais saudável, a British Medical Association (BMA) propõe que o Governo crie um imposto extra sobre produtos alimentares "gordos". Para a BMA, produtos como manteiga, queijo, leite gordo, "cheeseburgeres", "pizzas" ou chocolate de leite devem ter um imposto de 17,5 por cento - taxa actualmente aplicada aos refrigerantes, aperitivos e hamburgueres pré-cozinhados. A associação afirma que a medida poderá evitar mil mortes causadas por problemas cardíacos por ano.

As preocupações da comunidade científica e do Governo britânicos têm sido bastante contestadas pela indústria alimentar e por algumas figuras públicas, que contestam a necessidade de se tomar medidas já que, para muitos, o excesso de peso não deve ser encarado como uma doença.

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