Diário de Notícias - 2
Fev 07
A minha resposta
é 'não'
Jacinto Lucas Pires
Uma das afirmações recorrentes dos partidários do
"sim" é a de que, enquanto os "nãos" se perdem em
pormenores "filosóficos", eles, pelo contrário,
tentam resolver problemas "quotidianos" e "reais".
Outra é a de que ser pelo "não" e pela
despenalização acaba por desaguar numa contradição
insanável e que, a ser concretizado um compromisso
desse tipo, restaria à lei um carácter apenas
"simbólico". O olhar-de-alto que estes "sins" têm
para com esses dois termos é revelador. De facto, os
ares do tempo não estão para nada remotamente
"filosófico" ou "simbólico"... E, no entanto, é
óbvio - um - que a questão do começo da vida não é
resolúvel por nenhuma bitola científica, e - dois -
que não é negligenciável a importância do sinal que,
nesta matéria, a lei dá à sociedade.
Outra espécie de argumento consiste em dizer-se que
o lado do "não" tenta impor as suas convicções a
todos, ao passo que o do "sim" oferece a liberdade
de escolha a cada um. A afirmação, que roça o
antidemocrático, é inconsistente. Num referendo -
por definição - escolhe-se. Não se trata de "impor"
convicções a ninguém. O que se trata é de discutir
se o Direito deve ter um fundamento ético mínimo ou
se é apenas a regulação convencional do "facto
consumado".
Em concreto, é verdade, não há modelos perfeitos.
Mas uma solução tão moderada como a que a lei alemã
consagra - que exige um "aconselhamento dissuasor"
seguido de um período de reflexão - implica já um
"não" à pergunta do dia 11. A este respeito, leia-se
Joaquim Pedro Cardoso da Costa: "(...) No modelo da
lei alemã, o aborto, mesmo nos casos em que, depois
de realizado aquele aconselhamento dissuasor, é
considerado não punível, sempre continua a ser
tratado, para todos os efeitos jurídicos, como um
acto ilícito (...)."
Estou com a metáfora de José Pacheco Pereira -
também eu desejaria que este debate fosse "feito
quase por telepatia, por gestos subtis" -, por isso
recusei participar no ruído das campanhas. Mas aqui
não pos-so deixar de dizer o meu "não". Além do
mais, no plano político, esta parece-me das mais
graves rendições da esquerda: a aceitação tácita de
que o mundo, afinal, não é transformável e que,
portanto, em nome da "falsa tolerância" de que
falava Pasolini, o melhor é facilitar. Sim?