Diário de Notícias - 5
Fev 07
O verdadeiro combate pela liberdade
João César das Neves
"Eu sou contra o aborto e até acho que está ali
uma vida humana. Mas não devo impor esta minha
opinião aos outros. Tem de haver liberdade para
decidir." Muitas pessoas votarão "sim" no
próximo referendo com esta posição. Acham que em
tema tão decisivo para a vida da mulher deve dar-se
liberdade.
O mais espantoso neste raciocínio é que este é o
único campo em que é aplicado. Em todos os outros
aspectos sociais ninguém raciocina deste modo. Nunca
se ouviu dizer: "Eu até acho que se deve conduzir
devagar, mas cada um é livre de andar como quiser";
ou "Eu até penso que não se deve despedir sem
justa causa, mas a liberdade empresarial deve
prevalecer"; ou ainda "Eu até sou contra a
droga, mas cada um que decida". Em todos os
sectores da vida o Estado impõe-nos uma conduta e
atitude, limites apertados à vigência da liberdade.
Só aqui, onde está em causa a protecção de uma vida
humana embrionária, só aqui se quer impor a absoluta
autonomia.
É evidente que cada um tem liberdade de pensar o que
quiser sobre o início da vida humana. Mas quando se
fala da destruição dessa vida então essa, como todas
as liberdades, tem de ser regulada e protegida. Cada
um também tem liberdade de escolher a casa que
quiser desde que respeite o plano urbanístico, de
escrever o que lhe apetece mas sujeito à lei de
imprensa, às regras da privacidade, ao código da
publicidade. Quanto mais importante a liberdade,
mais regras a defendem. Porque não se protege a
liberdade de nascer?
O drama do aborto vem do confronto de duas situações
gravíssimas. Quem se propõe praticá-lo só o faz em
caso-limite, em situações onde estão em jogo coisas
decisivas. Mas o embrião que sofre o aborto tem toda
a sua pessoa envolvida nele de forma ainda mais
decisiva. Pode compreender-se que o Estado não se
meta nas decisões íntimas dos cidadãos. Mas pode
deixar à liberdade de cada um a decisão de eliminar
a vida de outro? Para mais, inocente? Ter em atenção
o primeiro elemento, ignorando o segundo, é uma
irresponsabilidade incrível.
Em todos os assuntos o Estado tem uma política, uma
regulamentação, um instituto. Fá-lo para garantir o
bem-estar, promover a justiça, assegurar o futuro e
o progresso. Claro que essas leis e limites criam
muitos incómodos, mas sempre em nome de um valor
superior. Que bem-estar é mais importante que o do
bebé em gestação? Que justiça é mais sublime que a
dos inocentes? Que futuro, que progresso para
Portugal sem embriões, sem filhos, sem vida? Será
que o direito à irresponsabilidade paternal se
sobrepõe ao direito à vida?
Vivemos num tempo de causas, de campanhas, de
ideais. Defendem-se as águias pesqueiras e as ruínas
celtas, a cozinha tradicional e a camada de ozono, o
sexo seguro e a higiene dentária. Só as crianças
antes de nascer têm de ficar sem protecção... em
nome da liberdade? Será que ninguém lhes dá a
liberdade sequer de respirar e olhar para o Sol?
Será que a liberdade de cada um determinar quando
começa a vida humana é mais importante que a
liberdade de nascer?
Claro que o Estado quer regulamentar também este
tema. Mas só pretende fazê-lo a partir das dez
semanas de vida. A lei protegeria o direito à vida,
mas só após as dez semanas. Porquê? Por que razão o
feto com 11 semanas teria protecção e o de nove não?
Que estudo, conceito, ideologia, argumento suporta
tal decisão? A resposta, simplesmente, é que dá
jeito que assim seja. Há conveniência nesse limite.
E o direito à vida ficaria sujeito aos interesses.
Não é novidade, pois este tem sido sempre o
princípio original da opressão.
O mais patético desta situação é que os filhos e
netos daqueles que lutaram para conseguir as nossas
liberdades julgam continuar essa tradição combatendo
agora pela liberdade de abortar. Os seus pais
militaram contra a ditadura e a guerra colonial, os
seus avós resistiram à censura e demagogia, ao
racismo e genocídio.
Mas na sociedade que sacrifica a liberdade à
qualidade de vida, o tema que motiva a intervenção é
a liberdade sexual. Mesmo sacrificando a vida do
filho.
Pensam copiar velhas glórias, mas não notam que, ao
fazê-lo, caem na posição dos antigos opressores. Não
vêem que a luta que marcará este tempo, a
generosidade heróica da nossa geração, é
precisamente a defesa da vida contra a ditadura do
hedonismo.
Continuamos a ter heróis no combate pela liberdade,
mas esses estão do lado do "não", afirmando a
liberdade de nascer, de ter um nome, de ser alguém.