Diário de Notícias - 5
Fev 07
Mais jovens, "agarrados" à droga e sem família
Céu Neves
Um vão de escada, uma viatura abandonada, um canto
do jardim, um aeroporto, uma estação de comboio.
Tudo serve para passar uma noite, tantas vezes
quanto as dependências, a falta da saúde, o
desemprego e os conflitos familiares impedirem a
realização de um projecto de vida. Em Portugal, os
sem-abrigo não ultrapassam os três mil. Deixaram de
ser a imagem do velhinho de barbas brancas, para ser
alguém mais jovem, precocemente envelhecido, e que
tem um problema de toxicodependência.
A constatação é feita pelos técnicos da assistência
social e confirmada pelo levantamento feito pelo
Instituto de Segurança Social (ISS), Estudo dos
Sem-Abrigo, publicado em 2006. Uma primeira
conclusão é que quase um terço desta população vive
na rua há mais de cinco anos, o que quer dizer que
"vão acumulando handicaps, multiplicando
processos de estigmatização e de exclusão social ou
reforçando fragilidades".
Os indivíduos com menos de 29 anos surgem mais
associados à toxicodependência e aos conflitos
familiares, os que têm entre 30 e 39 anos estão mais
sujeitos ao desemprego, os grupos dos 40 aos 59 anos
revelam mais problemas de alcoolismo e de divórcio,
e a partir dos 60 é a doença física e mental e as
dívidas com as rendas que mais os afectam. A rua é
dominada pelos homens, e as mulheres encontradas são
as mais idosas.
Julieta Martins, técnica da Santa Casa da
Misericórdia de Lisboa responsável por esta
população, destaca o afluxo de jovens e a diminuição
do número de imigrantes, sobretudo os do Leste
europeu. "Os toxicodependentes são mais
problemáticos. Saem da casa porque entraram em
conflito com a família e outras vezes são convidados
a sair porque os familiares já fizeram tudo para os
tentar recuperar e não o conseguiram."
Aquela é uma população que não se fixa. Podem
deambular pelos Anjos e Almirante Reis durante o dia
e dormir nas arcadas do Terreiro do paço ou na
Baixa/Chiado. Isto na cidade de Lisboa, onde há mais
de 30 equipas de rua para apoiar as cerca de mil
sem-abrigo da capital, segundo dados da Câmara
Municipal de Lisboa. Os centros de acolhimento
nocturnos têm 700 camas.
O número dos sem-abrigo difere consoante o organismo
que recolhe os dados. As câmaras municipais indicam
2242 pessoas, enquanto que as instituições
particulares de solidariedade social (IPSS)
identificam 8718 indivíduos. A diferença substancial
é explicada pelo facto de as IPSS indicarem as
pessoas com casa e que dormem esporadicamente na rua
por pressão da família (2173), por problemas de foro
psiquiátrico ou dependências (736) ou que são
incapazes de manter o alojamento sem a ajuda dos
serviços sociais (1270).
Mais de metade dos sem-abrigo (55%) não tiveram
contacto com instituições, o que leva os autores do
estudo a tecer críticas à forma como o apoio social
está organizado, recomendando que seja criado um
plano de trabalho em rede. E sublinham: "A
complexidade e a heterogeneidade desta problemática
aliam-se à insuficiência e desadequação das
políticas sociais, não permitindo combater e, muito
menos, promover uma intervenção social preventiva
sob a mesma." Os serviços de acção social actuais
estão preparados para lidar com situações de pobreza
clássica, mostrando-se pouco adequados para
responder às características dos "novos sem-abrigo".