Correio da Manhã -
6 Fev 07
Assim, nunca
José Luís Ramos Pinheiro, Jornalista
José Sócrates fez uma opção: governar a economia
com a Direita e rever os costumes com a Esquerda.
A oscilação entre propaganda e esclarecimento é
própria do debate público. Mas sobre questões tão
sérias como o aborto e a vida é indispensável a
destrinça entre propaganda e esclarecimento.
A discussão de opiniões, defendidas com boa-fé, pode
aproximar (e não distanciar) pessoas e correntes,
até porque haverá seguramente pessoas de boa
vontade, com posições diferentes. Nesse caso, se a
distância entre os campos se mantiver, tal será
fruto de posições bem estruturadas, em argumentos
sérios e sólidos e não em jogadas de propaganda
fácil.
No caso do aborto, em que se decide vidas humanas –
de filhos, mães e pais – o único radicalismo
aceitável é o de um olhar radicalmente humano:
profundamente radical na protecção da vida indefesa;
profundamente radical na atenção às condições
concretas da vida de uma mulher ou de uma família.
Quem extremar os respectivos campos e aproveitar o
aborto para a mais pura propaganda está a prestar um
mau serviço à causa que parece defender.
A eventual prisão de mulheres pela prática do aborto
tem sido alvo de intensa discussão nesta campanha.
Quem ouve falar alguns defensores do ‘sim’ até pode
pensar que as cadeias portuguesas acolhem muitas
mulheres devido à realização de abortos. Nada disso.
Não há em Portugal uma só mulher presa por ter
realizado um aborto (dados do Ministério da
Justiça). A questão da prisão das mulheres é uma
falsa questão, pelo menos nos termos em que tem sido
colocada. Fazer um referendo para que não se
verifique uma situação que até agora nunca se
registou é, pelo menos, caricato.
Ainda assim, alguns defensores do ‘não’ sugerem
alternativas jurídicas à solução da prisão e há
deputados, também na bancada do PS, dispostos a
defender outras alternativas, mesmo que o ‘sim’ seja
derrotado.
Para quem, de boa-fé, se diz preocupado com a
questão da prisão (a tal que na prática nunca se
verificou) esta seria seguramente uma iniciativa bem
vista ou, pelo menos, a não hostilizar. Fiquei
espantado, por isso, com a reacção do
primeiro-ministro, José Sócrates, ao garantir que se
o ‘não’ ganhar as soluções que acautelassem a prisão
de mulheres seriam derrotadas no Parlamento. O
primeiro-ministro não quer alternativas: ou votam
como ele manda ou não aceita rever no Parlamento,
sem despenalizar, a questão prisional das mulheres.
Não interessa deslindar se é birra ou chantagem.
Seja qual for o caso, é atitude imprópria de
primeiro-ministro que devia cuidar da serenidade do
País, evitar o debate emocional e patrocinar
soluções ética e socialmente aceitáveis.
José Sócrates fez uma opção: governar a economia com
a Direita e rever os costumes com a Esquerda. As
mais recentes posições do primeiro-ministro no
referendo do aborto confirmam-no ‘prisioneiro’ desta
estratégia, com a qual pensa poder garantir a
longevidade no poder.