Público - 7
Fev 07
A aliança do "sim" e do "não"
Recorro ao título de um livro já antigo de Plínio
Salgado para encabeçar estas singelas reflexões,
agora suscitadas pelas posições adoptadas e
defendidas (por vezes com excessiva veemência) pelos
cidadãos chamados a votar no próximo referendo
acerca da terminação voluntária da gravidez.
Parece-me, de facto, existir uma estranha e, para
alguns dos participantes na discussão, certamente
indesejada sobreposição de intentos e atitudes entre
os defensores do "não" e os proponentes do "sim". De
facto, todos afirmam "ser contra o aborto" e
manifestam o vivo desejo de reduzir a dimensão do
fenómeno, para que cada vez haja menos terminações
voluntárias da gestação. A conclusão a que se não
pode escapar é a de que todos consideram o aborto
como algo de negativo, de errado, de indesejável
numa sociedade livre e solidária. Neste aspecto,
existe pois uma aliança do "sim" e do "não".
Mas esta simpática unidade logo se rompe quando se
passa da concepção teórica, dos objectivos, à
metodologia proposta para alcançar o certamente
louvável desiderato de reduzir a dimensão daquilo
que todos designam como chaga social, tragédia
familiar, sofrimento da mulher grávida. De facto:
Os apoiantes do "não" pugnam pela manutenção da
ilicitude do abortamento, aceitando-o apenas (na sua
maioria) nas circunstâncias ou excepções já
consignadas na lei vigente. Aceitam um efeito
pedagógico, dissuasor, da existência de uma lei que
define o aborto como crime (excepto nas conhecidas e
concretas situações) e propõem medidas de apoio às
grávidas em dificuldade, medidas essas cuja eficácia
referem, invocando a experiência conseguida nos
centros e redes de ajuda que organizaram após a
aprovação do "não" no referendo anterior. A educação
sexual, a responsabilização dos jovens, o
acolhimento e adopção de crianças indesejadas
constituem outros importantes meios de combate ao
aborto.
Já os defensores do "sim" desenham uma estratégia
completamente diferente: não se deve penalizar a
grávida que aborte até às dez semanas, e este é o
ponto fulcral da sua intervenção. Além disso, a
difusão de noções sobre a contracepção e o aumento
da disponibilidade e eventual gratuidade dos
respectivos meios constituem medidas ancilares da
despenalização.
Com o devido respeito pelas pessoas, que não desejo
julgar e muito menos ofender, parece-me
insustentável, do ponto de vista lógico e ético, o
argumentário do "sim". É aceitável que se deseje
combater uma atitude considerada errada e inadequada
através da sua efectiva liberalização? (Note-se que
a despenalização significa e traz consigo uma total
desprotecção do embrião/feto, nas primeiras dez
semanas da sua existência, como o Tribunal
Constitucional reconheceu.) Combate-se um
procedimento indesejável tornando-o legítimo, o que
a maioria das pessoas interpreta como eticamente
lícito? Restringe-se o combate contra o aborto à
gravidez entre as dez e as 38 semanas, período em
que os defensores do "sim" desejam que a mulher
continue a ser penalizada? A resposta a cada uma
destas perguntas, à luz da lógica, será fatalmente
negativa.
Mais grave é a questão que está no cerne da presente
polémica e que é de natureza ética. Se o aborto é,
em si mesmo, errado e indesejável, como admitir a
sua liberalização através de uma lei que desproteja
totalmente a vida intra-uterina até às dez semanas?
Claro que se pode argumentar que quem se opõe a esta
liberalização, por considerar o valor "vida" como
prioritário, deveria igualmente rejeitar a actual
lei, com as suas excepções, e algumas pessoas assim
pensarão. Mas é totalmente diferente do espírito da
actual lei aquilo que o "sim" representaria. Na lei
vigente, o valor vida intra-uterina (juridicamente
relevante e constitucionalmente protegido, diz o
Tribunal Constitucional) não é ignorado, mas
ponderado em relação a outros valores (saúde da
mulher, lesão grave do feto, dignidade e autonomia
sexual, etc.) que são considerados suficientemente
significativos para se sobreporem ao valor da vida
fetal. Ora, a resposta "sim" pressupõe que a grávida
decida com total autonomia, sem ter que invocar
quaisquer justificações ou circunstâncias, sem
ponderação de valores, exigindo ao Estado (através
dos seus serviços de saúde) que ponha termo à sua
gravidez. A autonomia da mulher é muito respeitável,
mas não lhe pode dar o direito de decidir sobre
outro ser que, obviamente, não é pertença sua: o
"sim" resultaria no triunfo da autonomia do ser mais
forte sobre a autonomia do ser mais frágil, que não
chegaria sequer a manifestar-se, porque seria
aniquilado.
Sinceramente gostaria que se mantivesse a aliança do
"sim" e do "não" na rejeição do aborto; mas para o
objectivo comum não vejo outro caminho lógico e
ético que não seja votar "não". Professor
catedrático (aposentado, da Faculdade de Medicina da
Universidade do Porto)